Entrevista a Chainworkers

Mª Cecilia Fernández

Publicado el: 19/02/07


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O movimento obreiro decimonónico organizava-se entorno à fábrica através do sindicato, mas paralelamente construia “sociedades de resistência”, espaços de agregaçom social e apoio mútuo. A produçom capitalista era entendida nom só como um problema económico, mas, ao mesmo tempo social.



Entrevista a Chainworkers

por Mª Cecilia Fernández (1)

Da precariedade laboral à precariedade social
(traduçom das nómadas queer)

Fuente http://obloguedorubemtxu.blog.com/2005/12/


O movimento obreiro decimonónico organizava-se entorno à fábrica através do sindicato, mas paralelamente construia “sociedades de resistência”, espaços de agregaçom social e apoio mútuo. A produçom capitalista era entendida nom só como um problema económico, mas, ao mesmo tempo social. A luita contra o capitalismo significava umha luita contra as formas de vida mercantis, mais alá da reivindicaçom sindical e os direitos laborais.
Actualmente, o processo de valorizaçom capitalista incorporou como força de trabalho as capacidades cognitivas, comunicativas e afectivas do humano. Umhas das dimensons mais dinámicas da produçom social é um tipo de força de trabalho imaterial. Operadores de informática, desenhadores de páginas web, publicistas, artistas, comunicadores sociais, som parte da actual composiçom social do trabalho. As novas formas de trabalho, no marco da produçom pós-fordista, pusserom em discussom quais podem ser as formas de organizaçom social que podem fazer frente à situaçom de flexibilidade, mobilidade e precariedade laboral, mas também às formas de vida que produzem as relaçons sociais capitalistas.
Na Itália, o colectivo milanês CHAINWORKERS leva anos a trabalhar sobre estes aspectos da precariedade laboral e social. Chainworkers começou dirigindo-se aos empregados das cadeias comerciais, o que significou, por umha banda, um acercamento à figura precária emblemática dos anos noventa: a empregada estilo McDonald’s, sem nengum direito nem representaçom sindical, que nom se percebe a sim própria como trabalhadora num sentido clássico; mas também, por outro lado, o colectivo abordava estratêgias de comunicaçom inovadoras com o objectivo nom só de dar informaçom sobre os direitos laborais em situaçom precária, mas também tentar criar formas de agregaçom e conflito social mais alá da sindicaçom.


Mª Cecilia Fernández (MCF): Que análises fazedes do vosso primeiro percorrido?

Frénchi (F): Ao princípio, no interior do movimento toda qüestom do trabalho vinha expressada por retóricas que denotavam impotência, mas nom capacidade de intervençom (“Stop ao precariado”, etc.). No nosso caso umha das características iniciais foi o ódio às cadeias de negócios, nom como lugar de consumo, mas como instituiçons.
Sem embargo éramos mui inocentes, porque pensávamos que a condiçom neoescravista das trabalhadoras das cadeias comerciais ia ser “nom imitável”, e que se estavam a criar zonas de marginalidade mui amplas entendidas como umha certa reproduçom do mercado fordista. Mas estavamos errados: todo o mundo do trabalho tendia a esta condiçom neoescravista. A precariedade, como conceito, surge em 2002, ao cair na conta de que nom é um novo subproletariado o que estava a nascer, nom era só um mecanismo laboral o que estava em jogo, mas umha nova relaçom social mais complexa entre vida e trabalho.

MCF: Como definides, entom, precariedade social?

F: É um mecanismo de controlo, divisom do trabalho, repartiçom de recursos humanos e seleiçom que gera benefícios e plusvalor para as empresas, que muta e modifica a sua própria conformaçom. Esta passagem da precariedade laboral à precariedade social pom entre interrogantes a nossa capacidade de intervençom, e também questiona reivindicaçons que contam com um passado mui forte: por exemplo, as do movimento autónomo italiano dos setenta, com o seu rechaço ao trabalho e a reapropriaçom do tempo; também o direito a umha vida digna através de umha série de direitos civis e sociais historicamente conquistados.

MCF: Que significa para vós criar comunidade?

F: Criar relaçons solidárias conscientes com um forte vínculo relacional, capacidade comunicaçom entre todos os sujeitos que estam nesta comunidade. Capacidade de gerar umha produçom autónoma mui cooperativa, mui horizontal ainda assumindo a divisom de competências, mui ligada à capacidade inegável que umha reconheçe nos demais.
Comunidade de indivíduos solidária e de amigas, mas sobretodo umha comunidade no momento no que logra produzir e cooperar e dar-se sentido a sim própria.

MCF: Quais som os planos de intervençom desta comunidade?

F: Som muitos. Um primeiro plano é a autoformaçom colectiva. Estar numha comunidade é umha situaçom que já, em sim mesma, defende-te. Entom, há um aspeito social, um aspeito de comunidade, um aspeito de comunicaçom, um aspeito lúdico, e também um aspeito de autorédito. Todo isto inclui vários factores: comunidade, socializaçom, formaçom, intervençom política, relaçons preferenciais com alguns grupos, quer dizer umha consciência forte do território e dos mecanismos que regulam este território. Esta é a comunidade que estamos a criar.

MCF: Desde a vossa experiência, como tomou corpo essa ideia de produçom de comunidade e que significa na prática o conceito de autocrédito?

Bombo (B): A minha formaçom profissional nasceu num Centro Social, o Depósito Bulk em Milano. Ali logrei algo que nem a universidade nem um posto de trabalho poderiam ter-me dado. Seguindo a filosofia Do It Yourself (faz-no tu mesma) dos centros sociais, fizem a formaçom profissional que actualmente aplico aos meus trabalhos: o discurso do free software (sistemas informáticos abertos), a ideia de compartir conhecimentos, permitirom-me nom só acometer umha reivindicaçom cultural, mas também seguir a trabalhar no seitor da informática com o objectivo nom de produzir melhor e ganhar mais, mas de maneira alternativa às propostas do mundo comercial da informática.
Mais tarde, começamos a pensar o Centro Social la Pérgola como um possível lugar para construirmos infraestruturas úteis para o nosso trabalho, assim como para criarmos espaços de intervençom na cidade: desde ferramentas e espaço telemático até um lugar de alojamento nocturno que fora mui acessível frente à oferta em Milano, e daqui nasce a hospedagem autogestionada. Abrir umha hospedagem meteu-nos num projecto que nom ia funcionar sobre a base do voluntariado, e que solucionamos criando postos de trabalho que nom seguem as regras tradicionais, mas que consideramos um tipo de serviço social.

MCF: Vós começastes em 2001 manifestando-vos o 1 de Maio, mas resignificando-o como o dia da precariedade. Qual é o objectivo e como se expressa esta intervençom comunicativa?

F: Uns anos antes, para os nossos governantes, falar de precariedade estava ao límite do terrorismo. A Mayday serviu como acto comunicativo para desenvolver umha nova consciência. Com o Sam Precário, por exemplo, fazemos subvertising (técnica de desvio e reapropriaçom da própria linguagem da publicidade para gerar um efeito de sentido oposto ou diferente) sobre um tezido social que é mui católico. Ainda que sejamos laicos, na Itália há um passado popular ultra católico. O santo foi tomado da cultura popular para insertá-lo numha situaçom nom religiosa. E cada icono que está sob a imagem de Sam Precário indica os cinco asses da nom precariedade: devemos ter dinheiro, morada, relaçons afectivas e direito à comunicaçom e ao transporte.

MCF: Qual é a inserçom da figura do precário no discurso sindical?

F: Nom o tem, porque a precariedade é extorssom, chantagem, e dificilmente entendível através das formas sindicais clássicas. Falando da renovaçom nas formas de luita, cremos que isso implica renovaçom nas instituiçons de luita, quer dizer, do sindicalismo, a arte sindical e as acçons sindicais. Actualmente estamos a construir os “pontos de Sam Precário”, que se coordenam numha rede que chamamos biosindical.
A conceiçom de biosindicato parte da seguinte premissa: se a precariedade é social e invade toda a nossa vida, é óbvio que a nossa acçom sindical deve partir de cada um dos pontos em que se desnvolve a nossa vida, internos e externos ao lugar de trabalho. Os pontos de Sam precário seram lugares simultaneamente de serviços legais, autoformaçom, comunidade solidária e defessa. Seram todo o que saibamos ir construindo para que as nossas acçons de conflito sejam incissivas, danhem à empressa e à sua imagem. Seram a tentativa de organizar umha defessa, um contra-ataque. Ao final, o indivíduo é precário porque nom tem acesso sequer à informaçom que deveria sobre as condiçons do seu próprio contrato. E, sobretodo, está ilhado em relaçom aos outros no seu lugar de trabalho. Precissamos romper este ilhamento, criar comunidade.

MCF: Que pensades da luita no plano dos direitos laborais?

F: Estamos convencidas de que a situaçom actual nom pode ser modificada dentro do próprio discurso político-judicial. A relaçom de precariedade laboral supera a relaçom legal-laboral e é directamente exploraçom, força e potência da empressa sobre a vida de cada umha. Se chegaram a modificar-se as leis laborais, seria como sempre foi: como resultado da capacidade de criar conflito e, sobretodo, de criar conflito potente, forte, inteligente. Às leis que se concretam chamamo-las amortizadoras. reconhecemos que 200 euros mais ou menos ao mês mudam a situaçom. Agora bem, se esse dinheiro é o motivo para que nom construas umha estratêgia política que vaia mais alá dos 200 euros, entras numha monetarizaçom dos direitos. Umha estratêgia política inteligente deve perseguir aumento salarial, mas sem perder a perspectiva de que o problema da precariedade é quando es telefonada a meia noite para dizer-te “manhá tes que trabalhar” e tu já tinhas preparada a viagem a Lugano para ir ver à tua família.



(1) Entrevista publicada em Proyecto 19 e 20, Buenos Aires, nº12, dezembro de 2004, e Diagonal, Madrid, nº3, março-abril de 2005.



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