ANTROPOSMODERNO
GLOBALIZAĆ?Ć?O E GEOGRAFIA EM MILTON SANTOS
Wagner Costa Ribeiro

Em seus últimos livros, Milton Santos tratou da globalizaĆ§Ć£o. Ele abordou seus aspectos econĆ“micos, analisando o papel das empresas na internacionalizaĆ§Ć£o do capital, mas também os fluxos financeiros e suas implicaƧƵes na cultura local.

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GLOBALIZAĆ?Ć?O E GEOGRAFIA EM MILTON SANTOS

Wagner Costa Ribeiro

Departamento de Geografia
Universidade de SĆ£o Paulo

Fonte: http://www.ub.es/geocrit/sn/sn-124h.htm

GlobalizaĆ§Ć£o e geografia em Milton Santos(Resumo)

Em seus últimos livros, Milton Santos tratou da globalizaĆ§Ć£o. Ele abordou seus aspectos econĆ“micos, analisando o papel das empresas na internacionalizaĆ§Ć£o do capital, mas também os fluxos financeiros e suas implicaƧƵes na cultura local. O geógrafo brasileiro teorizou e criticou sobre estes aspectos do mundo contemporĆ¢neo, propondo, ao final de sua vida, uma globalizaĆ§Ć£o solidária, baseada em outros valores que a da hegemĆ“nica. Estas idéias sĆ£o tratadas em um diálogo com autores que também estudaram a globalizaĆ§Ć£o e suas conseqĆ¼ĆŖncias.

Palavras-chave: globalizaĆ§Ć£o, cultura contemporĆ¢nea, geografia, Milton Santos

Globalization and geography in Milton Santos (Abstract)

In your last books, Milton Santos treated the globalization. He approaches her economics aspects, analyses the role of enterprises in the capitalā??s internalization, but also the financial fluxes and their implications in the local culture. The Brazilian geographer theorethicalied and criticized about this aspects of contemporary world, proposing, in the end of her life, a sympathetic globalization, establish in other values than the hegemonic view. Those ideas are treating making a dialog with authors who too study the globalization and her consequences.

Key words: globalization, contemporary culture, geography, Milton Santos

"O espaƧo se globaliza, mas nĆ£o é mundial como um todo senĆ£o como metáfora. Todos os lugares sĆ£o mundiais mas nĆ£o há um espaƧo mundial. Quem se globaliza mesmo sĆ£o as pessoas" (Milton Santos, 1993).



Globalizar o conhecimento e seu uso. Definir a inserĆ§Ć£o dos lugares em uma rede de relaƧƵes humanas de modo a valorizar a singularidade em meio Ć  totalidade. Viver um mundo mais solidário. Essas possibilidades de pensar, representar e propor relaƧƵes humanas caminham na contramĆ£o da história. Infelizmente verifica-se a predominĆ¢ncia da competiĆ§Ć£o desenfreada por mercados e tecnologias, a busca incessante por recursos naturais e a intensa exploraĆ§Ć£o do trabalhador, mesmo diante da diminuiĆ§Ć£o de postos de trabalho.

A obra de Milton Santos pertence ao grupo de intelectuais que buscam o pensamento crítico a esse estado da vida contemporĆ¢nea. Em diversas passagens de seus livros e artigos ele afirmou pretender construir um mundo diferente daquele em que vivemos. Este artigo aborda a interpretaĆ§Ć£o do geógrafo brasileiro sobre a globalizaĆ§Ć£o, tratada em sua dimensĆ£o cultural, econĆ“mica e por fim, solidária, promovendo um diálogo com outros autores que trataram do tema.
O que é globalizaĆ§Ć£o?

A difusĆ£o do termo globalizaĆ§Ć£o ocorreu por meio da imprensa financeira internacional, em meados da década de 1980. Depois disso, muitos intelectuais dedicaram-se ao tema, associando-a Ć  difusĆ£o de novas tecnologias na área de comunicaĆ§Ć£o, como satélites artificiais, redes de fibra ótica que interligam pessoas por meio de computadores, entre outras, que permitiram acelerar a circulaĆ§Ć£o de informaƧƵes e de fluxos financeiros. GlobalizaĆ§Ć£o passou a ser sinĆ“nimo de aplicaƧƵes financeiras e de investimentos pelo mundo afora. Além disso, ela foi definida como um sistema cultural que homogeneíza, que afirma o mesmo a partir da introduĆ§Ć£o de identidades culturais diversas que se sobrepƵem aos indivíduos. Por fim, houve quem afirmasse estarmos diante de um cidadĆ£o global, definido apenas como o que está inserido no universo do consumo, o que destoa completamente da idéia de cidadania (Ribeiro, 1995). Porém

"No debate sobre a globalizaĆ§Ć£o nĆ£o temos encontrado análises que consideram os fragmentos que ele acarreta. Ao contrário, ressaltam-se as suas vantagens aparentes, porém sem configurá-la com maior precisĆ£o" (Ribeiro, 1995:18).

A globalizaĆ§Ć£o é discutida, segundo as categorias tempo/espaƧo, no Ć¢mbito do sistema-mundo, na pós-modernidade e Ć  luz dos conceitos de naĆ§Ć£o, mercado mundial e lugar. Tornada paradigma para a aĆ§Ć£o, a globalizaĆ§Ć£o reflete nos Estados-naĆ§Ć£o exigindo um protecionismo que em tese se contradiz com a demanda "livre e global" apregoada pelos liberais de plantĆ£o. Porém, ao olhar para o lugar, para onde as pessoas vivem seu cotidiano, identifica-se o lado perverso e excludente da globalizaĆ§Ć£o, em especial quando os lugares ficam nas áreas pobres do mundo. Ao reafirmar o mesmo, a globalizaĆ§Ć£o econĆ“mica nĆ£o consegue impedir que aflorem os outros, resultando em conflitos que muitos tentam dissimular como competitividade entre os Estados-naĆ§Ć£o e/ou corporaƧƵes internacionais, sejam financeiras ou voltadas Ć  produĆ§Ć£o. A globalizaĆ§Ć£o é fragmentaĆ§Ć£o ao expressar no lugar os particularismos étnicos, nacionais, religiosos e os excluídos dos processos econĆ“micos com objetivo de acumulaĆ§Ć£o de riqueza ou de fomentar o conflito (Ribeiro, 2001).

A obra de Milton Santos contribuiu para precisar o fenĆ“meno da globalizaĆ§Ć£o. Mas o autor queria mais. Ela chegou a propor uma outra globalizaĆ§Ć£o, baseada na solidariedade, embora reconhecesse que ela afetou a cultura atual.
GlobalizaĆ§Ć£o e cultura

Diferente do que afirmam alguns pesquisadores, que acreditam no estabelecimento de uma homogeneizaĆ§Ć£o da cultura, do sistema de valores, a partir da globalizaĆ§Ć£o, Milton Santos concebe que "cada lugar é, ao mesmo tempo, objeto de uma razĆ£o global e de uma razĆ£o local, convivendo dialeticamente" (Santos, 1996:273). Para ele, a importĆ¢ncia de estudar os lugares reside na possibilidade de captar seus elementos centrais, suas virtudes locacionais de modo a compreender suas possibilidades de interaĆ§Ć£o com as aƧƵes solidárias hierárquicas.

é no lugar que a cultura vai ganhar sua dimensĆ£o simbólica e material, combinando matrizes globais, nacionais, regionais e locais. Mas nem todos pensam assim.

O sociólogo brasileiro Renato Ortiz (1994) afirma que existe uma cultura mundializada que se expressa na emersĆ£o de uma identidade cultural popular, cujos signos estariam dispersos pelo mundo. Como exemplos cita redes de alimentos e marcas de produtos de consumo que seriam facilmente identificáveis de um estilo de vida global.

A apropriaĆ§Ć£o da cultura pela esfera do consumo foi analisada por muitos autores, como o francĆŖs Jean Baudrillard (1991), para quem a lógica do consumo esta baseada no uso planejado de signos que destituem o objeto de finalidade tornando-o simplesmente algo a ser comprado. Esse processo ocorre baseado na subjetividade, na interiorizaĆ§Ć£o de valores externos aos consumidores, que acabam seduzidos por apelos da propaganda, definidora mesmo de uma nova subjetividade estimuladora da compra do bem divulgado por ela. Para Baudrillard

"o objeto perde a finalidade objetiva e a respectiva funĆ§Ć£o tornando-se o termo de uma combinatória muito mais vasta de conjuntos de objetos, em que o seu valor é a criaĆ§Ć£o" (1991:120).

Outro autor relevante na análise da cultura contemporĆ¢nea é o professor de literatura Fredric Jameson, que afirma estarmos diante de uma completa estetizaĆ§Ć£o da realidade, resultado do mosaico pós-moderno lanƧado nas últimas décadas. Jameson demonstra preocupaĆ§Ć£o com os efeitos desse processo na cultura, que tenderia a ser homogĆŖnea. Crítico a quem interpreta o mundo por essa via, escreve:

"se tudo é estético, nĆ£o faz muito sentido evocar uma teoria distinta do estético; se toda a realidade tornou-se profundamente visual e tende para a imagem, entĆ£o, na mesma medida, torna-se cada vez mais difícil conceituar uma experiĆŖncia específica da imagem que se distinguiria de outras formas de experiĆŖncia" (Jameson, 1994:120-121).

O geógrafo David Harvey participa deste debate polemizando com Baudrillard. Ele acredita que o francĆŖs exagera em sua representaĆ§Ć£o do simulacro por meio das imagens caricaturando a sociedade dos Estados Unidos. Mas concorda com a subjetivaĆ§Ć£o da cultura, marcada pela facilidade com que a informaĆ§Ć£o chega Ć s pessoas. Reafirmando idéias de Walter Benjamin, escreve que a facilidade de reproduĆ§Ć£o da "arte", entendida como expressĆ£o da cultura, pode representar uma transitoriedade permanente, um novo estado de apreender a cultura e o conseqĆ¼ente abandono da busca da singularidade na produĆ§Ć£o cultural. Harvey indica que nĆ£o se pode esquecer que o capital também circula com o objetivo de ampliar-se nesse segmento da atividade humana, montando um imenso sistema de produĆ§Ć£o cultural baseados na produĆ§Ć£o de subjetividade por meio da propaganda. Isso leva a geografia de todos os lugares a cada lugar do mundo, reduzindo a geografia a um simulacro, como entende Baudrillard. Para Harvey

"por meio da experiĆŖncia de tudo ā?? comida, hábitos culinários, música, televisĆ£o, espetáculos e cinema ā??, hoje é possível vivenciar a geografia do mundo vicariamente, como um simulacro. O entrelaƧamento de simulacros da vida diária reúne no mesmo espaƧo e no mesmo tempo diferentes mundos (de mercadorias). Mas ele o faz de tal modo que oculta de maneira quase perfeita quaisquer vestígios de origem, dos processos de trabalhos que os produziram ou das relaƧƵes sociais implicadas em sua produĆ§Ć£o" (1992:270-271).

Para Santos, "o homem vai impondo Ć  natureza suas próprias formas, a que podemos chamar de formas ou objetos culturais, artificiais, históricos" (Santos, 1988:89). Estes objetos culturais fazem com que

"a natureza conheƧa um processo de humanizaĆ§Ć£o cada vez maior, ganhando a cada passo elementos que sĆ£o resultado da cultura. Torna-se cada dia mais culturalizada, mais artificializada, mais humanizada. O processo de culturalizaĆ§Ć£o da natureza torna-se, cada vez mais, o processo de sua tecnificaĆ§Ć£o. As técnicas, mais e mais, vĆ£o incorporando-se Ć  natureza e esta fica cada vez mais socializada, pois é, a cada dia mais, o resultado do trabalho de um maior número de pessoas. Partindo de trabalhos individualizados de grupos, hoje todos os indivíduos trabalham conjuntamente, ainda que disso nĆ£o se apercebam. No processo de desenvolvimento humano, nĆ£o há uma separaĆ§Ć£o do homem e da natureza. A natureza se socializa e o homem se naturaliza" (Santos, 1988:89).

A tecnificaĆ§Ć£o a que se refere Santos permite o simulacro geográfico que Harvey discrimina. Ela configura um meio-técnico-científico internacional "no qual a construĆ§Ć£o ou reconstruĆ§Ć£o do espaƧo se dará com um conteúdo de ciĆŖncia e de técnica" (Santos, 1991:11), formando uma paisagem estética, em meu entendimento.

O que seria essa paisagem estética? Um tecido urbano que contém valores culturais transpassados pela afirmaĆ§Ć£o do mesmo, que oprimem o singular, sintetizados, por exemplo, em formas urbanas reproduzidas a partir de modelos de arquitetura oriundos de países hegemĆ“nicos, uma das críticas Ć s cidades contemporĆ¢neas, como aponta o geógrafo espanhol Horacio Capel (2001). Isso é facilmente observável na paisagem de SĆ£o Paulo, uma megacidade brasileira localizada em plena faixa tropical, na qual identificam-se milhares de prédios envidraƧados, tal qual preconiza a arquitetura de países temperados. Ora, os ambientes produzidos por tal concepĆ§Ć£o resultam extremamente quentes, gerando a necessidade do uso de aparelhos para resfriar o ar, aumentando o consumo energético. Seria muito mais simples edificar prédios segundo a boa arquitetura colonial brasileira, com seus tetos elevados e amplas janelas que permitem desde a entrada de luz natural, abundante nos trópicos, quanto a circulaĆ§Ć£o do ar, refrescando o ambiente. Mas o esteticismo a que se refere Jameson prevalece e a paisagem paulistana aquece quem vive nela...
GlobalizaĆ§Ć£o econĆ“mica

Neste aspecto a contribuiĆ§Ć£o de Milton Santos foi bem mais ampla que no caso anterior. Quando afirma, como consta na epígrafe deste artigo, que "quem se globaliza mesmo sĆ£o as pessoas" (1993:16), o geógrafo brasileiro dá pistas de como conduz sua reflexĆ£o sobre a globalizaĆ§Ć£o econĆ“mica. Ele está interessado no fluxo que o sistema de objetos, expressĆ£o que vai trabalhar em diversos livros, permite fluir e conduz, na forma de espaƧo geográfico.

Para Santos, o espaƧo geográfico é uma funcionalizaĆ§Ć£o da globalizaĆ§Ć£o (1994:48). Ele vai ser produzido de acordo com as demandas de quem o idealiza, para permitir fluir suas necessidades. Para ele o espaƧo geográfico é um "conjunto indissociável de sistemas de objetos naturais ou fabricados e de sistemas de aƧƵes, deliberadas ou nĆ£o" (1994:49).

O espaƧo geográfico viabiliza a globalizaĆ§Ć£o, dado que ele materializa trĆŖs de seus pressupostos: "a unicidade técnica, a convergĆŖncia dos momentos e a unicidade do motor" (1994:49).

A unicidade técnica é entendida como a capacidade de instalar qualquer instrumento técnico produtivo em qualquer parte do mundo. A convergĆŖncia dos momentos é possibilitada pela unificaĆ§Ć£o técnica, pela capacidade de comunicaĆ§Ć£o em tempo real. Por fim, a unicidade do motor é a direĆ§Ć£o centralizada, exemplificada pela direĆ§Ć£o do mundo econĆ“mico e das finanƧas pelos executivos que atendem aos interesses dos donos das empresas transnacionais e do sistema financeiro internacional. Estes temas sĆ£o amplamente tratados pelo autor em sua obra A natureza do espaƧo: técnica e tempo, razĆ£o e emoĆ§Ć£o (1996), na qual propƵe "um sistema de idéias que seja, ao mesmo tempo, um ponto de partida para a apresentaĆ§Ć£o de um sistema descritivo e de um sistema interpretativo da geografia" (Santos, 1996:15).

Muitos outros autores discutiram o tema da globalizaĆ§Ć£o econĆ“mica, porém, desconsideram a dimensĆ£o geográfica nos termos propostos por Santos. é o caso, por exemplo, de Harvey, que analisa o mundo contemporĆ¢neo por meio da criaĆ§Ć£o de novos mercados financeiros, coordenados em escala global, permitindo a acumulaĆ§Ć£o capitalista por meio de uma flexibilidade geográfica e temporal. Ele entende que apesar disso resta uma funĆ§Ć£o importante ao estado-naĆ§Ć£o que

"embora seriamente ameaƧado como poder autĆ“nomo, retém mesmo assim grande poder de disciplinar o trabalho e de intervir nos fluxos de mercados financeiros, enquanto se torna muito mais vulnerável a crises fiscais e Ć  disciplina do dinheiro internacional. Estou, portanto, tentado a ver a flexibilidade conseguida na produĆ§Ć£o, nos mercados de trabalho e no consumo antes como um resultado da busca de soluƧƵes financeiras para as tendĆŖncias de crise do capitalismo do que o contrário. Isto implicaria que o sistema financeiro alcanƧou um grau de autonomia diante da produĆ§Ć£o real sem precedentes na história do capitalismo, levando este último a uma era de riscos financeiros igualmente inéditos" (Harvey, 1992:181).

O geógrafo Edward Soja (1993) assinala que as mudanƧas no padrĆ£o produtivo mantiveram as desigualdades geográficas e a manutenĆ§Ć£o de lucros imensos por parte das transnacionais, como vem ocorrendo desde o segundo pós-guerra. Para Soja, isso reafirma a geografia por meio da emergĆŖncia da espacialidade, da regionalizaĆ§Ć£o e do regionalismo, levando o capital a rever suas estratégias espaciais e locacionais, que podem ser facilmente apreendidas. Para ele

"A instrumentalidade das estratégias espaciais e locacionais da acumulaĆ§Ć£o do capital e do controle social está sendo revelada com mais clareza do que em qualquer época dos últimos cem anos. Simultaneamente, há também um crescente reconhecimento de que o operariado, bem como todos os outros segmentos da sociedade que foram periferalizados e dominados, de um modo ou de outro, pelo desenvolvimento e reestruturaĆ§Ć£o capitalistas, precisam procurar criar contra-estratégias espacialmente conscientes em todas as escalas geográficas, numa multiplicidade de locais, a fim de competir pelo controle da reestruturaĆ§Ć£o do espaƧo" (Soja, 1993:210).

Esse entendimento é partilhado por outro geógrafo, Neil Smith (1988). Para ele, a combinaĆ§Ć£o de desigualdades geográficas é inerente ao desenvolvimento capitalista, resultando no desenvolvimento desigual como produto e premissa para o capital. Assim,

"o desenvolvimento desigual é a desigualdade social estampada na paisagem geográfica e é simultaneamente a exploraĆ§Ć£o daquela desigualdade geográfica para certos fins sociais determinados" (Smith, 1988:221).

Santos entende que o desenvolvimento desigual é combinado é resultado de "uma ordem, cuja inteligĆŖncia é apenas mediante o processo de totalizaĆ§Ć£o, isto é, o processo de transformaĆ§Ć£o de uma totalidade em outra totalidade" (1996:101).

Já o sociólogo brasileiro Otávio Ianni, interlocutor de Milton Santos, destaca que a sociedade civil ganhou uma dimensĆ£o mundial tratando de temas como

"direitos humanos, narcotráfico, proteĆ§Ć£o do meio ambiente, dívida externa, saúde, educaĆ§Ć£o, meios de comunicaĆ§Ć£o de massa, satélites e outros itens. Assuntos sociais, econĆ“micos, políticos e culturais que sempre pareceram nacionais, internos, logo se revelam internacionais, externos" (Ianni, 1992:43).

Mas ele entende que ocorre um esvaziamento do estado-naĆ§Ć£o pelo capital, que transforma "as sociedades nacionais em dependĆŖncias da sociedade global" (1992:44). Em outra obra, afirma que a globalizaĆ§Ć£o seria um novo paradigma (Ianni, 1995), pois gerou um modo de produĆ§Ć£o e de gestĆ£o da política inovadores.

O professor Milton Santos discorda dos que viram um esvaziamento da funĆ§Ć£o do estado. Para o geógrafo brasileiro o que existe é um

"mercado hierarquizado e articulado pelas firmas hegemĆ“nicas, nacionais e estrangeiras que comandam o território com apoio do Estado" (Santos, 1991:13).

Porém, nĆ£o deixa de reconhecer uma certa subordinaĆ§Ć£o aos imperativos externos ao afirmar que

"os recursos totais do mundo ou de um país, quer seja o capital, a populaĆ§Ć£o, a forƧa de trabalho, o excedente etc., dividem-se pelo movimento da totalidade, através da divisĆ£o do trabalho e na forma de eventos (...). Cada momento histórico (...) acarreta uma diferenciaĆ§Ć£o no interior do espaƧo total e confere a cada regiĆ£o ou lugar sua especificidade e definiĆ§Ć£o particular. Sua significaĆ§Ć£o é dada pela totalidade de recursos" (Santos, 1996:131).

Para o geógrafo brasileiro Armando Correa da Silva, conhecer os recursos e potencialidades de um estado-naĆ§Ć£o passam a ser vitais para a inserĆ§Ć£o no cenário da "globalizaĆ§Ć£o relacionada Ć  esfera do capital" (Silva, 1993:77). Ele escreveu que

"o capitalismo se defronta com sua própria criatura, ou seja, quanto mais se mundializa valor, mais necessários se tornam os mecanismos nacionais e, mesmo, regionais, em alguns casos. A atual centralizaĆ§Ć£o descentralizada do Globo tem algo a ver com isso. De uma parte, a centralizaĆ§Ć£o dá origem ao seu contrário: os movimentos separatistas e regionalistas. De outra, obriga a formaĆ§Ć£o de grandes alianƧas territoriais, ampliando espacialmente os mercados"(Silva, 1993:77).

Esse rearranjo das relaƧƵes sociais contemporĆ¢neas afirmado por Silva produz blocos de países como a UniĆ£o Européia, o Mercosul, o Nafta, entre outros, que buscam ampliar o território apenas para a circulaĆ§Ć£o de mercadorias, restringindo o fluxo de pessoas ao limite do desejável.

A retomada do papel do estado é partilhada pelos geógrafos espanhóis Joan Font e Joan Rufí, quando escrevem que

"Podría decirse que en muchos casos se asite a una renacionalización de los estados. Las formas que toman estos procesos pueden ser muchas y más o menos explícitas, dependiendo de las circunstancias de cada estado y de cuál sea el adversario al que se quiere dar respuesta: la globalización o la, presunta o efectiva, fragmentación interna" (Font e Rufí, 2001:90).

Para Santos, a tensĆ£o entre o local e o global é um fato que deve ser entendido por meio do papel da formaĆ§Ć£o social nacional, que "funciona como uma mediaĆ§Ć£o entre o Mundo e a RegiĆ£o, o Lugar. Ela é também mediadora entre o Mundo e o território" (1996:270).

Na formaĆ§Ć£o social nacional verifica-se uma fusĆ£o de acontecimentos, como expressa a seguinte passagem da obra do geógrafo brasileiro:

"NĆ£o existe um espaƧo global, mas, apenas, espaƧos da globalizaĆ§Ć£o. (...) O Mundo, porém, é apenas um conjunto de possibilidades, cuja efetivaĆ§Ć£o depende das oportunidades oferecidas pelos lugares. (...) Mas o território termina por ser a grande mediaĆ§Ć£o entre o Mundo e a sociedade nacional e local, já que, em sua funcionalizaĆ§Ć£o, o ā??Mundoā?? necessita da mediaĆ§Ć£o dos lugares, segundo as virtualidades destes para usos específicos. Num dado momento, o ā??Mundoā?? escolhe alguns lugares e rejeita outros e, nesse movimento, modifica o conjunto dos lugares, o espaƧo como um todo. é o lugar que oferece ao movimento do mundo a possibilidade de sua realizaĆ§Ć£o mais eficaz. Para se tornar espaƧo, o Mundo depende das virtualidades do Lugar" (Santos, 1996:271).
A globalizaĆ§Ć£o solidária

Menos que ser contrário Ć  globalizaĆ§Ć£o, o geógrafo brasileiro estava mais preocupado em construir um sistema teórico que permitisse elaborar outra maneira de congregar pessoas em escala internacional. Propunha a solidariedade como medida para a relaĆ§Ć£o, que deveria ser praticada em prol da cidadania.

Já em meados da década de 1980 Santos apontava sua compreensĆ£o da cidadania. Distinguia os consumidores dos cidadĆ£os, escrevendo que

"o consumidor nĆ£o é cidadĆ£o. Nem o consumidor de bens materiais, ilusƵes tornadas realidades como símbolos; a casa própria, o automóvel, os objetos, as coisas que dĆ£ostatus. Nem o consumidor de bens imateriais ou culturais, regalias de um consumo elitizado como o turismo e as viagens, os clubes, e as diversƵes pagas; ou de bens conquistados para participar ainda mais do consumo, como a educaĆ§Ć£o profissional, pseudo-educaĆ§Ć£o que nĆ£o conduz ao entendimento do mundo" (1987:41).

Em suas palavras encontra-se um posicionamento claro contra o consumismo que conduz o modelo de reproduĆ§Ć£o do capital. Ainda que tenha afirmado em mais de uma vez que nĆ£o gostava do tema, pode-se identificar também uma inquietaĆ§Ć£o ambientalista em seu posicionamento claro contra o desperdício de material. E ele atacava ainda os consumidores de artigos da chamada indústria cultural, aqueles que imaginam estar fora do reino dos mortais haja visto estarem focados em bens imateriais, em manifestaƧƵes do espírito por meio das artes e da informaĆ§Ć£o.

Em sua argumentaĆ§Ć£o nĆ£o restava lugar entre os cidadĆ£os nem mesmo para o eleitor, que

"nĆ£o é forƧosamente cidadĆ£o, pois o eleitor pode existir sem que o indivíduo realize inteiramente suas potencialidades como participante ativo e dinĆ¢mico de uma comunidade. O papel desse eleitor nĆ£o-cidadĆ£o se esgota no momento do voto" (Santos, 1987:41).

Quem seria, entĆ£o, o cidadĆ£o para Milton Santos?

"O cidadĆ£o é multidimensional. Cada dimensĆ£o se articula com as demais na procura de um sentido para a vida. Isso é o que dele faz o indivíduo em busca do futuro, a partir de uma concepĆ§Ć£o de mundo" (1987:41-42).

Poder projetar o futuro, vislumbrar perspectivas dignas da existĆŖncia, poder expressar sua maneira de entender o mundo, por meio de crenƧas, manifestaƧƵes culturais e práticas sócio-políticas, com qualidade de vida, isto é, habitando um ambiente agradável e sustentável, provido de água, calor e energia na medida adequada, com assistĆŖncia médica e alimento de qualidade sĆ£o características que sintetizariam o cidadĆ£o do mundo contemporĆ¢neo, em meu entendimento. Neste sentido, nĆ£o há cidadĆ£o no mundo entre os que apregoam os valores da sociedade ocidental, ocaso e criaĆ§Ć£o da cidadania.

Construir relaƧƵes humanas baseadas na solidariedade era um desejo de Milton Santos. Ele propunha uma revisĆ£o da globalizaĆ§Ć£o, que deveria ser "mais humana" (2000:20), sem descartar a base técnica que sustenta a globalizaĆ§Ć£o econĆ“mica e financeira:

"a materialidade que o mundo da globalizaĆ§Ć£o está recriando permite um uso radicalmente diferente daquele que era o da base material da industrializaĆ§Ć£o e do imperialismo" (Santos, 2000:164).

Essa é a proposta do geógrafo baiano: alterar o uso da base técnica criada para a circulaĆ§Ć£o de capital para veicular valores humanos, para permitir uma efetiva integraĆ§Ć£o de laƧos culturais distintos que permitam a construĆ§Ć£o do "acontecer solidário", como definiu (Santos, 2000).

Enfim, Milton Santos queria um mundo diferente. Sua visĆ£o otimista do futuro é expressa no trecho abaixo:

"NĆ£o cabe, todavia, perder a esperanƧa, porque os progressos técnicos (...) bastariam para produzir muito mais alimentos do que a populaĆ§Ć£o atual necessita e, aplicados Ć  medicina, reduziriam drasticamente as doenƧas e a mortalidade. Um mundo solidário produzirá muitos empregos, ampliando um intercĆ¢mbio pacífico entre os povos e eliminando a belicosidade do processo competitivo, que todos os dias reduz a mĆ£o-de-obra. é possível pensar na realizaĆ§Ć£o de um mundo de bem-estar, onde os homens serĆ£o mais felizes, um outro tipo de globalizaĆ§Ć£o" (Santos, 2002:80).

Aproveitar a base material da existĆŖncia é algo coerente com sua maneira de pensar. Já em 1978, em obra que marcou sua inserĆ§Ć£o teórica entre os geógrafos brasileiros, escrevia que

"o espaƧo é a matéria trabalhada por excelĆŖncia. Nenhum dos objetos sociais tem tanto domínio sobre o homem, nem está presente de tal forma no cotidiano dos indivíduos" (Santos, 1978:137).

SĆ£o as rugosidades, as marcas do tempo por meio do trabalho que instituem uma base material difícil de ser rompida. Por isso o reaproveitamento da inércia espacial, outro conceito de 1978.

Deste modo, a mudanƧa tem de vir pela política. Embora expressando otimismo, nĆ£o perde a visĆ£o de geógrafo ao indicar que as mudanƧas nĆ£o virĆ£o

"dos Estados Unidos ou da Europa. Virá dos pobres, dos ā??primitivosā?? e ā??atrasadosā??, como nós, do Terceiro Mundo, somos considerados. Estas nĆ£o poder vir das classes obesas. Estas nĆ£o podem ver muito. SĆ£o os pobres os detentores do futuro. O problema de todas as épocas é saber como vai se dar a ruptura. E as rupturas se deram antes que todos soubessem como elas iam se dar..." (Santos et al., 2000:66).



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Ficha bibliográfica:

RIBEIRO, W. C. "GlobalizaĆ§Ć£o e geografia em Milton Santos". In: El ciudadano, la globalización y la geografía. Homenaje a Milton Santos. Scripta Nova. Revista electrónica de geografía y ciencias sociales, Universidad de Barcelona, vol. VI, núm. 124, 30 de septiembre de 2002.http://www.ub.es/geocrit/sn/sn-124.htm [ISSN: 1138-9788]









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