Uma paragem obrigatória em “Polifonia”

Neiza Teixeira
neizateixeira@hotmail.com
Publicado el: 23/05/06


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Para uma pessoa que entende o pensamento como um instrumento e como o objeto do seu trabalho, é muito difícil ler uma obra poética ou ver uma obra de arte sem refletir e sem manifestar a sua posição sobre as mesmas.


Plaisanterie, ruse et vengeance

Uma paragem obrigatória em “Polifonia”

Neiza Teixeira
Doutora em Filosofia
neizateixeira@hotmail.com
neizateixeira@gmail.com
neizateixeira.blogspot.com


O reconhecimento do Poema como verdade não é um trabalho onde não se despenda energia, concentração e aceitação. Envolvidos nesta compreensão se fazem presentes: o corpo-vivo, a máquina-desejante, o prazer e o místico. Todos estes são conceitos acobertados pelo desprezo, pela má fé e sublimados pela má literatura e má arte. Foi por isso que grandes poetas, em nome da razão, morreram nos manicômios. Foi por isso que Van Gogh se suicidou. Por estes motivos, o INDEX tirou-nos a possibilidade de construir outros destinos – nossos e diferentes. Por isso, as ditaduras, que não garantem, apenas, o poder dos tiranos. Por isso, os poetas malditos, os filósofos oficiais, os preconceitos, as guerras em nome da fé e para trazer a paz. Por isso, a AIDS, o PROZAC, a pobreza, os embargos econômicos. Por isso, o sexismo. Por isso, os dogmas, os tabus e os milagres. Por isso DEUS.
Enfim, contra tudo isto, regozijemo-nos com A alegria do mal!

***

Para uma pessoa que entende o pensamento como um instrumento e como o objeto do seu trabalho, é muito difícil ler uma obra poética ou ver uma obra de arte sem refletir e sem manifestar a sua posição sobre as mesmas. Muito mais difícil é quando, numa reunião de poemas, encontra linguagens que ora se cruzam, ora se misturam, ora se justapõem, ora se destroem para, numa linguagem múltipla, falar de um único objeto – o homem – e, dela, apreender a totalidade que enceta.
Há algum tempo, sigo lendo a poesia de José Emílio-Nelson. Normalmente, e isto é trágico, sentimo-nos mais à vontade para falar da poesia dos mortos. No presente caso, felizmente, o poeta está vivo o que, dependendo de quem o lê, pode ser bom ou mau. O homem que o abriga sai da sua casa, diariamente, para trabalhar, para ler e recolher a matéria-prima necessária para o poeta experimentar o labor que o aproxima de nós, e que o humaniza e que nos humaniza também. Pode-se dizer que a sua poesia faz, verso a verso, este registro e esta integração. Da arte de Mantegna (pode-se constatar no poema citado) ela recolhe um antagonismo radical. Por um lado, o religioso e, por outro, o grotesco, o extravagante e virtuoso num contraponto entre o divino e o terreno (a monumentalidade na construção da obra do escultor e pintor, com o intuito de exaltar o terrífico, é tentado, através dos sons e dos versos, por Emílio-Nelson). Além do mais, há entre ambas a voracidade em apreender o objeto em todas as suas dimensões, tornando-o cativo do fazer e do ser humano. Ambas criações são hereges. Todavia, herético é aquele “que escolheu”. Assim, não é possível uma coisa sem negar outra já conhecida. Este é o caminho dos criadores em questão. O poeta identifica-se com o pintor que o antecede em tantos séculos, no ponto onde secularizam o divino, sacralizando o homem. Ambos reforçam a antiga missão: renegam . Obedecendo a esta dialética, eles realizam as suas artes. Para a poesia em questão, este é o culminar de um percurso que iniciou com um olhar diário do poeta à mesa do pai e das viagens de criança ao Museu do Prado. Para Mantegna, o culminar dos longos anos que perfazem o Medievo.
Há pouco tempo, nas livrarias de Portugal e nas Fenac’s, através das Edições Quasi, chegou ao conhecimento do público português a obra A alegria do mal: obra poética I (1979-2004), com uma introdução bastante trabalhada de Luís Adriano Carlos e a capa belamente composta de António Quadros Ferreira, a partir de gravuras de Mantegna. Estes dados devem ser observados. Através de uma introdução, que quase se constitui à parte da obra, e de uma montagem, a partir do pintor renascentista, os poemas apresentam-se como que recobertos por uma proteção e apontando numa direção, entretanto, que não se pode considerar única.
De gesta expressionista, os versos de Vida quotidiana e arte menor reúnem-se para dar conta de um cotidiano que, à maioria das pessoas, é indiferente. No entanto, perfeitamente reconhecível quando os lemos. Mas esta é apenas uma das perspectivas pela qual o poeta projeta, filtra e lapida o seu objeto, pois, como registra Mexia , a sua poesia revisita um cânone extremo, mas também elabora um mundo pessoal, presente, reconhecível, demoníaco, sacro, mitológico. Por seu lado, Adriano Carlos afirma que, com Emílio-Nelson, nasce uma das poéticas mais originais da poesia portuguesa . De fato, é reconhecível que se trata de um poeta muito culto e que é necessário um instrumental teórico bastante consistente para compreendê-lo; é verdadeiro que a sua poesia, de si hermética (muitas vezes profética), exige sensibilidade, entrega e quase devoção (talvez na mesma intensidade da do seu criador); também é verdadeiro a novidade da sua abordagem, como também é original a sua insaciabilidade em arrecadar todos os oferecimentos possíveis, o que faz com que um mundo circular se nos ofereça as suas inúmeras entradas, mas que nos conduzem sempre ao mesmo ponto (não é apenas a palavra que requer a atenção do poeta, pois um mundo visual-plástico e sonoro abre-se diante dos nossos olhos), com o intuito de tudo capturar e identificar, de tal forma que a sentimos exaurir-se diante dos nossos olhos e do nosso pensamento, entregando-nos o objeto sem mediação, e tudo isso com um único fim: descarnar seu objeto sem, no entanto, desprezar que este somente se reconhece como ser-no-mundo.
Alguns critérios são exigidos para uma boa leitura. No caso da poesia de A alegria do mal, a melhor forma de lê-la é através da ruminação. Talvez esta seja a atitude do poeta, pois, antes de qualquer coisa, é pelos sentidos que ele se informa sobre o mundo. Aí começa a sua recolha. Na segunda fase, o entendimento realiza a tarefa de separar, aprofundar, formular e garantir a totalidade que se apresenta na obra poética. Ao leitor não resta outra solução senão sentir, experimentar, fazer agir o entendimento e totalizar-se. Neste sentido, ler, reler, constituir, reconstituir congrega laços que aproximam e irmanam o poeta e o leitor. E ambos, no mesmo círculo, fazem o mesmo caminho. O círculo identifica a poesia que vimos falando, justamente porque sentimos a sua ânsia em expor-se em todas as suas perspectivas e de oferecer-se a quem aceita o convite de acompanhá-la no percurso do homem no mundo. A sensação que experimentamos ao lê-la pode, mais ou menos, ser esta: a presa é capturada e o seu caçador, girando à sua volta, a examina, evitando que lhe escape qualquer fragmento ou por ela ser devorado. É com lupa que a olha; é com receio de ser tragado que se aproxima, afasta-se, toca-a, enfim, rumina. E nós temos que adentrar no caminho que ela oferece: O círculo?

Si tu ne veux pas user ton oeil e tes sens, / Reste dans l’ombre pour poursuivre le soleil!

Para que a viagem seja plena de êxito, o conhecimento que o pensamento, que as novas tecnologias ofertam-nos são indispensáveis: a literatura, a própria poesia, a fotografia, o vídeo, a pintura, o mundo virtual, a mídia, a filosofia, a psicologia, a escultura, são presenças detectáveis em toda a poesia de Emílio-Nelson. Sem esquecer que em muitos poemas apenas o seu corpo lhe oferece o mundo exterior. Então, é presumível o seu esforço em fazer a transfiguração das recolhas. Assim, podemos ver desenrolarem-se uma Arte Maior (resultante da visitação ao cânone que nos sustenta) e uma Arte Menor (conforme referimos, da utilização do seu próprio corpo como meio de obtenção do saber) na sua poesia, como se ele tentasse dividir, para depois unificar, corpo/espírito, sensação/intelecto. Intencionalmente restringe o homem a si mesmo e às suas relações imediatas e, então, o resultado é a sua liberdade de instalar-se num mundo onde não há lugar para o divino, para a moral, para o pecado, para o remorso ou para qualquer discurso que busque construir a dignidade do homem. No entanto, não podemos nos iludir com esta perspectiva da poesia de Emílio-Nelson, pois, se não resistimos e caímos nesta armadilha, mutilamos uma expressão poética que reclama a totalidade, que, em cada verso, contorcendo-se, sibilando, cambaleando, bailando, ritmando, rastejando e elevando-se chega até nós na perfeição do círculo . O poeta repete a viagem de Zaratustra.
Na Introdução à obra A alegria do mal, Adriano Carlos define a poesia de Emílio-Nelson como poesia do feio e do mal, fato que se comprova desde o aparecimento de Polifonia, em 1979. Todavia, esta é apenas uma das dimensões da poética em questão. Por exemplo, podemos constatar de entrada a Arte Maior e a Arte Menor e podemos, ainda, dizer que as duas embrenham-se e confundem-se em muitos poemas constituindo anverso e verso, o que nos dá conta de uma terceira linha poética. Além disto, a fonética também identifica linhas miscigenadas, interligações, imbricações que nenhum esforço ou nenhuma intenção poderiam desvincular. No mesmo tanto, a disposição dos versos no papel nos dão conta de um jogo e do empenho em criar linguagens visuais em múltiplas perspectivas. Assim, a consideração desta poética exige a leitura minuciosa, a observação ponderada e despede qualquer tentativa, a priori frustrada, de enformá-la numa linha, numa temática ou numa teoria totalitária. A qualquer intenção deste gênero, ela escapa, escorrega… foge…

Le savon a beaucoup à dire. Qu’il le dise avec volubilité, enthousiasme. Quand il a fini de le dire, il n’existe plus .

É assim que Ponge vê no desaparecimento do sabão o enfraquecimento do sujeito. Pode ser este mais um caminho para se ler a poética de Emílio-Nelson.
Nesta disposição de buscar caminhos, recolhemos a seguinte afirmação:

…Também o poeta se serve da palavra, porém, não como os que falam e escrevem habitualmente, gastando as palavras, mas, de maneira que a palavra se faz e permanece como uma palavra .

Todos os caminhos que não sejam traçados pela própria obra poética são descartados por Heidegger. À poesia só resta a palavra. A imersão é requisitada para se penetrar num mundo onde ela mais nada pode ser senão ela mesma. Esta postura também deve assumir quem pretende contemplar uma obra de arte. Como fazê-lo? Heidegger realiza esta exigência. Com ele, contemplemos Os sapatos da camponesa de Van Gogh ou acompanhemo-lo na leitura da obra de Hölderlin! Então, chegaremos à conclusão de que, irrefragavelmente, poderemos chegar à verdade. Não a partir de uma leitura subjetiva, mas a partir da eclosão da própria obra. Para isto, uma tela, os versos de um poema não são nada mais do que abertura. Então, qualquer outra via que se busque somente pode fazer reluzir fragmentos do mundo e não o próprio mundo (que é ocupação do poeta ou do artista), como de fato deve ser - totalidade. Fazer com que a palavra permaneça como palavra é re-enviá-la para o momento inaugural; é vê-la como instauradora. Noutro sentido, é ver resplandecer o conflito terra/mundo permitir a clareira e, a partir desta, a emergência da verdade .
É de ruptura que falamos quando encontramos uma obra que tem como características a perseguição da totalidade, o enaltecimento do homem-no-mundo, o corpo como integração e como residência de todas as sensações e sentimentos. Noutras palavras, falamos de ruptura, abertura, clareira quando verificamos que algo de novo aconteceu e que é necessário desprover-se de preconceitos e alcançar a leveza suficiente para percorrer o círculo, como nos diz Heidegger,

Assim, é necessário, resolutamente, que percorramos o círculo. Isto não é dos males o menor, nem uma indigência. Engajar-se num tal caminho é a força, e ficar é a festa do pensamento, admitindo-se que pensar é um ofício .

É este o convite que devemos aceitar quando temos à nossa frente A alegria do mal ou outra obra que se desenha como possibilidade de ir mais além. É nesta perspectiva que os poemas se tornam abertura. Assim, sigamos o poeta!
O primeiro poema do livro Polifonia, cuja primeira versão apareceu em 1979, intitula-se “Superfícies – Azulejos”. São referenciais, neste poema, os termos superfície, azul, azulejo, anjos. Chamamos a atenção para o conceito que sustenta o livro – Polifonia – visto que, em cada poema, assistimos à sua execução .
Uma das exigências para que uma obra se realize como obra é a contemplação. No seu desenvolvimento, ela realiza uma tarefa que consiste em destituir o seu autor. Isto significa que quando chega ao público, já se purificou de qualquer presença individual. Esta intrínseca necessidade garante-lhe autonomia e a sobrevivência por si mesmo. Como diz Heidegger, o artista serve, apenas, como uma passagem para a nascença da obra . Com a fragmentação e desaparecimento do artista na obra, nós que a contemplamos ganhamos a liberdade de fazer nossas próprias leituras, daí, a infinidade de leituras e de entendimentos que ela pode proporcionar. Por outra parte, isto não significa que o artista no momento em que cria não tenha a intenção de e que a concretização desta intenção seja isenta de sofrimento. Conforme Tarkovski, “a inspiração artística é sempre um tormento para o artista, a ponto de tornar-se um perigo para sua vida” . Buscando compreender o sentido desta afirmação, podemos crer que não se pode esperar de uma obra de arte a desvinculação do mundo, ou se se preferir, jamais poderia ser imputada ao artista a acusação de estar alheio a si mesmo e ao outro. Portanto, ainda que uma obra não precise de mais nada a não ser de si mesma para a sua sustentação, antes disto, foi o sofrimento, a agonia do seu criador, que se enraíza a cada tempo da sua vida no mundo que a gerou. Tudo isto apenas revela a grandeza de uma obra, independentemente da economia, do marketing, da massificação da arte e da alienação do homem. Também quer enaltecer a independência do artista em relação a sua criação: cremos que é com alívio, como no parto, finalizando os nove meses de gravidez, que ele se liberta do que gestou, muitas vezes, muito mais do que nove meses. É esta e não pode ser outra a exigência da arte: negar todas as vezes que alguém contempla e reconhece uma obra, o artista. E do artista: reconhecer que aquilo que criou não foi para si, pois, se assim fosse, não teria criado uma obra de arte.
Dizendo que a obra dissolve em si o artista, queremos enfatizar que ela refulge por si mesma, o que garante, todavia, que se não tem outro homem que a contemple, ela não existe. E também, ainda que o artista reconheça que é necessário o rompimento, ele não deixa de alimentar expectativas em relação ao que criou. Por exemplo, mesmo sabendo que sua obra se havia desgarrado de si, Van Gogh ficou profundamente magoado quando soube que, apesar de os pintores e os críticos da época haverem reconhecido a novidade da sua arte, um vizinho seu não havia gostado dos seus quadros.
Mas, para que a obra signifique algo, ela deve suportar e portar significação. Por palavras de Heidegger, entendemos que ela deve instalar um mundo. Um mundo, por sua vez, se mundaniza. Assim sendo, é ele que, se mundanizando, abarca as opções simples e decisivas no destino de um povo historial . Neste sentido é que a verdade, resultante do conflito entre Terra e Mundo, pode se patentizar na obra de arte. É neste sentido, também, que seguir Heidegger na presente leitura é um dos bons caminhos. Pois, se falamos de enraizamento do homem no mundo, estamos afirmando que há, na reunião de poemas de A alegria do mal, este enraizamento, visto que é para a totalidade que a sua construção nos remete e que esta é garantia de revelação. Quando a lemos, e muitas vezes ela provoca asco, é justamente porque não queremos ou porque encobrimos as dimensões que negamos. Tentando compreender este comportamento, somos conduzidos à educação e ao pensamento escolhidos pela Europa Ocidental, que se consolidaram no homem que somos.
Por outro lado, A alegria do mal é portadora da história do seu povo. Para comprovar esta afirmativa, basta que leiamos o primeiro poema, já citado. Se a obra é reveladora da verdade, a partir do combate deflagrado entre Terra e Mundo, onde verificamos repouso, movimento, irrupção, retraimento e eclosão ou advento, não podemos negar a historicidade de um povo. E, neste sentido, a obra de arte é reveladora desta evidência. É assim que uma parte da história do Ocidente e da história de Portugal são evidenciadas no primeiro poema.
Registros importantes da história de Portugal e do Ocidente estão espalhados pelo país inteiro em forma de pinturas em azulejos. E como se trata da história, é evidente que não se pode desprezar o Cristianismo. Então, é como crítico que o poeta se revela. Não destrutivamente, mas numa postura de quem revê a sua própria identidade. Pode-se dizer que esta crítica, à medida em que se condensa na obra, ganha força como a própria palavra na sua tentativa de que na retração ganhe o impulso necessário para revelar-se nela própria.
É nesta perspectiva que ele vê os azulejos nas suas cores azul e branco, como portadores da narrativa da história portuguesa, versarem sobre os anjos, que povoam o imaginário religioso deste povo. É somente na contemplação que se assiste ao desenrolar de uma das nuances da história de um país, que se construiu sob a égide da fé católica. Neste poema, abre-se uma página da história religiosa portuguesa. E, ao mesmo tempo, um momento da história da arte. Esta populariza-se, inscrevendo-se nos azulejos com motivos mouriscos que revestiam as casas e que se constituiu num dos elementos da sua arquitetura. Na fase de Azulejos, novos motivos instalam-se, dando conta dos resultados da expansão para o Oriente. Um registro de conquistas cujos louros não serviram para todos e muito menos servirão, agora, para nós contemporâneos. Inclusive, o estranhamento a que eles foram devotados é surpreendente, pois, diariamente, inúmeras pessoas de todos os continentes deparam-se com o colorido ou o azul e branco dos pequenos blocos, basta que se chegue em São Bento, siga-se em frente, rumo aos Clérigos. Todavia, poucos se dão conta de que houve um tempo em que, à vista de todos, espreitando a todos, a história de um povo era narrada. Talvez, diante de tanta informação e da efemeridade da mesma, haja um apelo para se olhar um tempo no qual sabíamos o que éramos, e que este conhecimento perduraria até tornar-se indiferente, ou pode ser, justamente, um apelo para que não esqueçamos as nossas origens e que não desprezemos, na grandeza e na pequenez, o que fizemos. Os azulejos servem, em síntese, como um demarcador na história européia e portuguesa.
A verdade que eclode na obra de arte é reveladora da história de um povo, pois o homem é historial. É assim que se torna histórica a contemplação de um retrato na parede, e a constatação da verdade de um ser que, ao seu lado, se deteriora na perdição fugaz do tempo .
Ao mesmo tempo, e noutra perspectiva, a poesia de Emílio-Nelson também é uma proposta para o fazer poesia. Neste sentido, é exemplar A maestria das formas, pois, na esteira dos gregos, o sentido e a execução da polifonia; a partir do tratamento das imagens – a fotografia – registro que compactua com a memória o que foi ou o que poderia ter sido e o que restou; da pintura, o empaste, uma técnica que pode tanto fortalecer como pode atenuar a representação e, ainda, sobrepor e unificar fases e faces; e, de tudo, o poeta que reúne na superfície plana do papel, o verbo. É o verbo que gera e que reverbera na poesia. É do verbo que deve proceder qualquer leitura, ou seja, é do interior que se processa quaisquer tentativas de compreensão ou de captura. Veja-se, por exemplo, a leitura de Pessoa revisitado, onde seu autor pretende, conforme suas palavras:

Não foi meu propósito introduzir do ‘exterior’, em função de qualquer hipótese hermenêutica, mais coerência do que aquela que os poemas exigem para ser lidos na luz que lhes é própria e segundo a clivagem orgânica da dialéctica global que exemplificam .

A presente informação nos pode conduzir a um comportamento crítico e a adotar como método de trabalho a certeza de que qualquer alavanca exterior é superficial. É conformação do inconformável aos caprichos do crítico. Não pensar e não agir assim diante de um poema é, também, a proposta de Heidegger . A palavra repousada em si-mesma ilumina-se, e nesta iluminação não pode restar na sombra quem quer ouvi-la.
Se assim ouvimos e se assim nos instalamos no mundo aberto pela poesia de Emílio-Nelson, temos que atentar para os múltiplos caminhos que ela nos conduz. Temos que nos preparar para adentrar nos Holzwege. E os Holzwege indicam que temos que percorrer o círculo. E que este percurso é balizado pela arte. E que é original e, por isso, instaurador. E que não oferece outros caminhos senão eles próprios. Pois, como nos diz Heidegger, enquanto execução da verdade, a arte é Poema . E quanto a isto, convém chamar a atenção para a evidência de que, apesar das veementes críticas de Heidegger à técnica, mostrando que o seu domínio tornar-se-ia um grande obstáculo para o ser meditativo, ela também se tem revelado, conforme a sua utilização, uma promotora da compreensão da realidade. Ainda que ela não nos esconda o negrume dos seus maus usos, não podemos esquecer que ela nasceu com o homem moderno. Por outro lado, como enfatiza o próprio filósofo, a técnica em si mesma não é maléfica, restando dizer que a sua malignidade ou benignidade provém de quem dela se utiliza, como a utiliza e quais os objetivos visados. É considerando o seu percurso e vendo que, na incapacidade de vencê-la ou menosprezá-la, a solução mais viável é retirar as vantagens que nos pode oferecer. Pode-se dizer que na poética em questão, é esta a apropriação que detectamos. Aliás, nesta, as novas tecnologias e a recorrência constante a grandes vultos do pensamento e da criação artística sob re-invenções sintáticas, fonéticas, plásticas e sonoras são fundamentais para a visualidade multiperspectivista do seu derredor.
É esta a aceitação prévia para a compreensão da poética em questão. A complexidade da existência traduz-se nos poemas da Alegria do mal. A passagem (o tempo), o poeta traz-nos por intermédio de Chirico, Boccaccio, Botticelli e, conforme folheamos, vamos encontrando outros habitantes do seu universo intelectual, todos, com o fim de trazer, por intermédio de um olhar circular ou multiperspectivo, o homem. Portanto, é o Ocidente ou o ocidental que se desvelam nos poemas. E é neste percurso que nós nos inscrevemos. Daí, podermos refletir juntamente com Heidegger, que a verdade revela-se na obra de arte e, unicamente, por intermédio da linguagem. A nossa inquietude requer uma verdade sobre o tempo. É esta inquietação que se recolhe em Nastagio degli Onesti (De Boccaccio por Botticelli) .
Primeiramente, para nós impõe-se a certeza de que não podemos desprezar o que nos antecedeu, simplesmente porque, aí, se estrutura o nosso enraizamento. E nos certificamos, todas as vezes em que às origens regressamos, que o nosso pensamento se torna mais rico. Além de outras leituras que podemos formular, podemos enfatizar que o poeta se revela como um crítico de arte no poema Nastagio degli Onesti (De Boccaccio por Boticelli). Em nossas mãos temos ao mesmo tempo uma leitura e uma atualização de dois nomes relevantes do pensamento ocidental: Boccaccio e Botticelli. O poeta revela-nos o que, também, pode ser uma busca da Poesia na sua função de abrigar a verdade: trazer, sempre, o que é revelador, para que o homem não esqueça e não perca o élan que o justifica como guardião da verdade do ser. É na contemplação das obras de Boccaccio e Botticelli que o Poema nos traz uma leitura do eterno retornamento do tempo. Através de uma mulher nua, estropiada pela espada de um cavaleiro e devorada pelos cães, a condição humana se revela, fundada no percurso interminável do eterno retorno do mesmo, visto por Nietzsche. Como acréscimo, e justificando a idéia de que o poeta também pode ser lido como um crítico de arte, podemos dizer que, como Botticelli, ele promove continuidade para a obra de Boccaccio, tornando-se o seu próprio poema uma re-leitura do conto de Boccaccio e uma re-leitura da obra pictórica de Botticelli.
Juntando-se ao livro Polifonia que poderíamos também chamar “percurso crítico e histórico sobre o Ocidente”, o poema Florestal (Barroco) , aparentemente, não se apresenta com o propósito de rejeitar ou de agraciar quaisquer coisas, apresenta-se sobretudo o fazer da leitura crítica que vai de uma pilastra até ao espetáculo imagético da palavra. Conforme a proposta inicial do autor, faz-se o anúncio e desenha-se no papel o percurso da palavra. A cada bloco de versos, ele incita o leitor a seguir pelos caminhos que ele tenta cruzar ao mesmo tempo. A cada conjunto, desenvolve-se o tema. Dele, oferece-nos a concepção vigente do homem e faz a rejeição desta concepção que marca e divide o Ocidente. O poema leva-nos a considerar que não podemos desprezar a extensão que o Barroco alcançou em todos os lugares onde penetrou. Mais uma vez, o crítico se manifesta, o bom intérprete se evidencia. Através deste poema, um mundo instala-se e nos convida a entrar e a perceber o que somos enquanto resultantes da nossa pertinência ou do nosso enraizamento no mundo. O poeta não nos despreza, ele nos conduz, e se formos pacientes, muito poderemos aprender sobre nós mesmos. Inclusive, se olharmos por de trás de cada pilastra, de cada anjo ou dos céus que se podem abrir sobre as nossas cabeças, veremos o mais além que pode esconder uma escultura, uma talha ou um belo quadro. São as ilusões de um estilo que se podem consolidar em todas as vidas mal cuidadas ou em cabeças alienadas. E assim, abre-se, na história, uma página de defesa e de conservação do Ocidente diante de forças contrárias e ameaçadoras, que poderiam promover, se fossem mais consistentes, um diferente percurso. Apesar de tudo, o poeta não lamenta e, também, não especula sobre o que poderia ter sido e ainda ser. Ao contrário, traz para si e para os seus leitores o registro do que apreende enquanto homem no mundo. Aqui, mais uma proximidade com a fotografia. É como um fotógrafo que ele se porta. É com uma digital que ele se nos apresenta, exigindo que a máquina seja fiel e que garanta a mostragem do todo. No mais, a cada um cabe, de acordo com a sua compreensão, a leitura.
Seguindo-se a Florestal (Barroco), encontramo-nos com Breviários e o seu Tríptico da devoção. Aqui encerra-se uma homenagem a loucura, sobressaindo no painel principal a figura do poeta Ângelo de Lima . Aqui, mais uma incursão no pensamento de Heidegger se faz necessária.
Heidegger diz que a verdade revelada e reserva do ente surge como Poema. Neste sentido, toda Arte é essencialmente Poema, uma vez que, através dela, acontece a Verdade , conforme já afirmamos. Nela, o acontecer da Verdade instaura-se num momento diferente do habitual, pois este é um momento de abertura e de aparição do ser. É a nomeação primeira que permite aceder à palavra e a aparecer. Então, cada língua é advento do dizer, onde, para cada povo, abre-se historialmente seu mundo, e se salvaguarda a terra como a oculta. O proferimento ou a aparição do verbo marca a história do Ocidente. E alguns, inclusive os loucos, já detiveram o poder de ser os seus porta-vozes. Na questão relativa à Verdade, não se pode ignorar nem eles e muito menos o trajeto do entendimento da loucura pelo Ocidente.
Ao ler o poema dedicado ao poeta Ângelo de Lima, que assim se inicia: É de silêncio escuro/ Para lá do tecto (abrindo-se) da escuridão , Emílio-Nelson nos remete, de entrada, para o universo místico e sagrado da loucura. Quanto a esta, convém fazer alguns apontamentos, pois é neste contexto que se pode ler tanto Ângelo de Lima quanto o oferecimento que lhe é feito.
Segundo Foucault, o fenômeno da loucura nos seus medos seculares é o substituto da lepra. Do mesmo modo que a primeira, a loucura suscitou reações de divisão, exclusão e purificação. Mas antes, a loucura já estava ligada a todas as experiências maiores da Renascença. É reconhecida a Narrenschiff, que teve existência real, e que transportava de uma cidade para outra os loucos, caçados voluntariamente pela população, com exceção, como supõe Foucault, daqueles que eram seus cidadãos . Este foi um dos primeiros métodos de divisão e de exclusão dos loucos. Na Narrenschiff a carga insana navegava através dos rios e era despachada no porto mais próximo. É desta forma que os loucos, de forma ritualialística, eram capturados nas cidades e entregues à errância. Era assim que eles se tornavam prisioneiros da sua própria partida. E isto ressalta a vinculação da loucura à água, no Ocidente.
A intensidade desta vinculação se reflete na literatura, na filosofia, na poesia. Assim, à loucura, como fenômeno, muitos dirigiram homenagens. Erasmo de Rotterdam foi um dos que, numa época em que ela era apreciada como forma de contestação, lhe dedicou uma obra. Nesta obra, apresenta-a como uma Deusa que profere contra o seu meio e o seu tempo críticas em forma de riso. Da mesma época são as pinturas de Bosch - A nau dos loucos e A extração da pedra da loucura. São críticas sobretudo à Igreja e ao risco de o homem sempre resvalar para os maus vícios. No século XV, o tema da loucura substituiu mesmo o da morte. Em todos os lugares, ela era reportada, fazendo sobressair o tema do nada, mas desta vez, a vida esvaziando-se de si mesma. Incomoda ao homem o absurdo que é a existência humana.
O homem, de muitas maneiras almejando liberar-se, vê a animalidade como símbolo da desordem, da inversão. Daí a abundância de monstros nas artes plásticas desta época. Por outro lado, a loucura também representa saber, porém, um saber de exclusividade dos loucos: o anúncio da vitória de Satã e do fim do mundo, a última ventura e o castigo supremo; o todo-poder sobre a terra e a queda infernal. Enfim, num primeiro momento, o homem vê-se assediado por acontecimentos que lhes são transcendentes, mas que nem por isso os deixam de perseguir – veja-se, por exemplo, os quadros de Bosch; num segundo momento vê a nu a sua própria natureza; vê que ele é fazedor dos seus próprios pesadelos. Então, é possível a crítica aos vícios e aos maus costumes, como o demonstram a literatura e a filosofia (O elogio à loucura é um extraordinário exemplo). Porém, se num espaço de tempo houve liberdade para que a loucura espontaneamente se incluísse como uma das dimensões humanas, a explanação de Foucault mostra que, em breve, o seu lugar, após ser tomada pela razão, seria o dos hospitais. Foi aí, e assombrado pelos monstros de uma loucura que se tornou doença perigosa, que o poeta Ângelo de Lima viveu boa parte da sua vida.
Doença que os filósofos, os poetas e os críticos da psicanálise ou dos envolvimentos que ela representa buscam repensar e trazer ao momento em que ela, num dos seus desenlaces, perdeu-se do que seria uma compreensão outra do homem.


Qui suis-je?
D’òu je viens?
Je suis Antonin Artaud
et que je le dise
comme je sais le dire
immédiatement
vous verrez mon corps
actuel
voler en éclats
et se ramasser
sous dix mil mille aspects
notoires
un corps neuf
ou vous ne pourrez
plus jamais
m’oublier

Para entender a poética da totalidade, como designamos a poesia de Emílio-Nelson, não se pode passar à margem da fragmentação do sujeito e de um corpo sem órgãos, empresa verificada na poética de Fernando Pessoa, Antonin Artaud, conforme o exemplo acima, e aprofundada na reflexão de Deleuze e Guattari, dentre outros poetas, filósofos e literatos. O que significa que o entendimento de tal poética somente é possível quando se tem em vista o corpo como via aberta e despreconceituosa para o conhecimento. Na poética em questão, observa-se a intenção consciente do poeta em, do fragmentado, constituir: uma tentativa, evidentemente noutra perspectiva, proposta pelo Renascimento, daí a recorrência constante a Mantegna, por exemplo. É a partir desta necessidade que ele faz um oferecimento a Ângelo de Lima como também recorrerá a Bataille e Sade, sugerindo outras leituras para temas que ainda se vêem como tabus. É mexer num grande depósito que, quando revirado, poderá levar a uma nova queda. Esta, gerando-se desde Hölderlin, fortalecendo-se com Sade, Nerval, Artaud, Rimbaud e, em Portugal, além de Fernando Pessoa, e reconhecido por este, Ângelo de Lima (poderíamos afirmar que também em outros poetas, mas, para o âmbito deste artigo, estes são suficientes). E o que nos interessa enfatizar: na poesia contemporânea de Emílio-Nelson .
No entanto, Emílio-Nelson, mesmo reconhecendo e até agudizando a fragmentação e a decomposição, empenha-se em retirar-lhe tudo o que a poderia sustentar, daí que a única sobrevivência garantida a si mesmo é a de re-constituir o que vem ajudando, desde Polifonia, a conduzir até às últimas consequências. É notável o domínio das ferramentas que manipula: não lhes são desconhecidos Deleuze e Guatarri de L’Anti-Œdipe, pois o desejo não passa despercebido a este poeta que não se atemoriza diante do perigo de entender o corpo como máquina desejante . Para isto, o norteamento proporcionado por Lacan, que nos últimos tempos tem fortalecido a sua poesia , apresenta-se como fundamental. E, indo além, a disposição de utilizar o seu corpo, aguçando os seus sentidos, levaram-no a criar uma Arte Menor. Ainda acrescentando-se a estas marcas, a presença dos fluxos nos indicam a sua compreensão do homem como máquina desejante. Não se pode restringir a sua obra a uma poética do feio e do grotesco, simplesmente, pois a sua compreensão leva a muito mais do que isto. É visível que ela seria melhor agraciada se, nela, fosse visto o homem fragmentado e decomposto dos seus órgãos (o CsO), todavia, conforme entendemos, perspectivando a totalidade, considerando-se que, amiúde, a Arte Menor exige uma Arte Maior. Daí que a necessidade de unidade e a compreensão de processo no que diz respeito ao amor, na compreensão de Lawrence, e estendendo-se à esquizofrenia, conforme a apropriação feita por Deleuze, são importantes .
E para finalizar a obra Polifonia, um grupo de poemas que reforçam a idéia de que ela pode ser vista como um percurso crítico e histórico sobre o Ocidente. A partir de Páginas de Hagiógrafo, assistimos a finalização retumbante de uma peça que se pretende poética, musical, histórica, filosófica, reunindo humanamente um ser que se contorce, se desumaniza, se emproa altivamente em nome de entidades que não lhes são próprias. Deve ser hora de reler Assim falava Zaratustra.
Durante algum tempo, enquanto lemos Polifonia, faz-se a preparação para este final. Pensamos que seria consensual a idéia de que uma partitura se desenvolve na cabeça do poeta e que é preparado, finalmente, o grande momento em que tudo o que foi dito firmou-se solidamente.
Se temos tempo ou se nos interessamos pelo que, no Ocidente, construímos, é obrigatória a paragem na última estação de Polifonia. Falamos de Páginas de Hagiógrafo . Primeiramente porque aí se desenvolve uma agradável brincadeira poética, obviamente, dirigindo e demarcando o olhar do leitor. Consideremos os primeiros versos:

Com aprumo devoto arrasto-me mole (arrasto aprumo, devoto mole)
(arrasto-me devoto, aprumo mole).

Com este jogo inicial, a visita torna-se imprescindível e, mais uma vez, a nossa identidade é revista (ainda que sejamos mestiços). Aí, então, com uma grandiosidade que evoca uma Ode, o poeta não escarnece da fé, mas recorta a sua representação máxima no Ocidente, trá-la das paredes onde inadvertidamente e sutilmente opera seus malefícios e empilha-a num balde, onde se acumula o colorido estuque da sua podridão. No entanto, que não se desfaz, mas que re-faz-se.
Não reivindiquemos o ateísmo para esta obra, pois toda grande obra é sagrada. Todo o herege sacralizou-se, porque é possuído pela fé. Somente uma fé inabalável, incontida, que se revela como vontade de viver pode gerar uma poética tão forte e tão exigente. Não seria correto dizer que esta poesia é um escárnio à fé. Antes pelo contrário, há uma reivindicação ou uma exigência para que ela seja devolvida ao homem; que ela o conduza para a totalidade que desde sempre ele persegue. Páginas de Hagiógrafo apresenta-se como uma exaltação, como um canto sagrado, pois esta é uma das maneiras de se fazer ouvir. E a contemplação garante a existência de uma obra de arte. Por outro lado, atentemos para o novo movimento ou para a nova contorção do Ocidente, marcada sobretudo pelo Seminário de Capri, onde Derrida afirmou que a fé tem a ver com o cerne mesmo da razão. E acrescentando, leiamos atentamente Nietzsche. Em Páginas de Hagiógrafo novas passadas do crítico e novo convite: uma força centrípeta suga-nos para o nosso próprio núcleo. Evidentemente que o chamamento nos empurra para olhar com olhos de bem se ver a religião católica. Não poderia ser outra, pois foi ela que se impôs e se estendeu e fez calar todos os que a questionaram ou não a aceitaram. Ela expulsou os últimos Deuses, que mesmo assim, sabendo o que viria, partiram às gargalhadas. E nos levaram o riso. Contudo, deixaram uma feliz herança: provaram que o humano não se pode confundir com o divino. Em boa hora nos chega A alegria do mal. Ela faz-se necessária num país que mira seu passado como glorioso e que congelou, por isso, seu futuro. Em boa hora a arqueologia das suas crenças precisa ser feita; nas más horas um povo precisa dos seus pensadores.
Nas más horas, um vento forte e uma grande tempestade precisa se abater sobre os povos. Assim foi no início. E a Terra precisa ser purificada. E os véus, negros véus que recobrem as Universidades, escondem obras poéticas, plásticas, musicais, filosóficas, literárias precisam ser varridos dos nossos monumentos. O pensamento precisa higienizar-se; o corpo reclama a sua sujeira, o seu nojo e o seu asco: o seu lugar no mundo, para recuperar os seus antagonismos sujos, porque alguns assim os quiseram.
Nesta sequência, e compondo o final grandioso desta obra, lemos Itinerarium. Como o próprio nome indica, trata-se de um percurso que os românticos e saudosistas teimam em ver como grandioso, mas que, como o Cilício, provoca estragos em qualquer corpo. Aliás, a grande figura deste percurso não retirava as suas vestes negras, praticava extensos jejuns e usava sempre um cilício. Mas, se quisermos, é hora de questionarmos as nossas crenças:

Recomeço, com lisura, na galeria fuselada, aberta por bombardas, a
Oratória no pedestal! /
Coleccionador de cabeças
(Na página untuosa:) “corajoso explorador”.
Portugueses (mole de tentáculos):

Pilhagem

Actínea

(Antes disso, oratória no pedestal!) Aduladores a catalo
Gar rascunhos do desembarque, colecções de cartas, atlas
Minucioso (de pistas incorrectas), roteiro fantasioso (caravelas para sul,
alíseos, o mar undoso), falatórios.

O poeta assume uma postura que merece ser destacada: ele ergue-se como quem viu a verdade, confirmando a sacralidade que vimos afirmando, e demarcando o poeta-profeta, do qual sentimos saudades quando lemos Homero e Hesíodo ou quando sorrimos deslumbrados com a Deusa de Rotterdam. É como senhor da verdade que ele desafia o leitor a segui-lo. Um bom poeta se mede pela sua capacidade de escolher bons métodos, pela sua plasticidade em percorrer caminhos nem sempre generosos. E mais o misticismo da sua escolha, aplicado ao realismo do tema, merece ser visto. Somente nesta roupagem, conferindo dignidade e autoridade à sua voz ele poderá ser ouvido. E mais uma vez, uma elaboração do tempo, melhor dizendo, a quebra do tempo ou a circularidade do mesmo é visada – lendo este poema, o passado, à nossa frente, se faz presente. E nós nos sentimos parte dele. Indissoluvelmente, nele estamos ligados e dele somos dependentes.
A oratória divide-se em duas partes: primeiramente o rei é visto nu: a sua divindade rui diante de nossos olhos e na nossa presença. A sua disformidade é a aproximação não só física da sua imagem como também dos seus atos. A ridicularização do seu trono é a prova do seu engodo. Sem requisitar qualquer moral, é ela que, aqui também, está em causa. Depois, no corredor estreito, escuro, a instalação do catolicismo com seu Deus único e universal, que insiste em banhar-se de luz, após a partida dos Deuses. A aridez se mostra e o humano se contorce no seu deserto de não saber e de não sentir. A violência ao corpo e a falsa moral. As riqueza desperdiçadas e o homem ultrajado, mas, ao mesmo tempo, lutando por ser um verme.
Mais uma aportação a este fantástico poema: a sua visualidade e plasticidade – ninguém não se sentiria caminhando nos escuros e estreitos corredores da fé, dos palácios e das igrejas que se engrandecem e nos diminuem. O poeta é um excelente guia e um excelente maestro. A cada passo, os movimentos de uma música antiga/contemporânea nos dão ritmo.
Em Livros de Linhagem, num crescente estonteante, o Ocidente é remetido para si mesmo. Ao contrário do que ele fez nos lugares onde tiranizou, reduziu e humilhou, é com música que o poeta nos dirige neste percurso. Cai o disfarce. O que esperar? Não sejamos pessimistas! Sigamos em frente! Continuemos no círculo! Nada mais quer o poeta, senão: Persistência, homens de carne e osso! Coragem, homens de pouca fé! Ainda é tempo de pedir perdão a si mesmo e regozijar-se! Ainda é tempo de dançar! Ainda é tempo de levantar a taça a Dyonisos! Ainda é tempo de viver a Divina Comédia, mas de encontrar o paraíso humano! É hora do advento do Super-Homem!
Não é mais momento para se esconder do que se é! Não mais é hora de castidade, de honestidade, de pureza, de igrejas, santos e salvadores! É hora do homem! É hora, também, dentro do cânone que o poeta se inspira, de re-lembrar:

Ó glória de mandar, ó vã cobiça
Desta vaidade a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
C’uma aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!

Ainda que não o diga, subjazem os profetas e os místicos na poética de Emílio-Nelson. Em Adenda, na última voz da Polifonia, desperta uma mulher que clama contra si mesmo; que o poeta não tem pena, e até a trata com asco, porque, de fato, por que ela tanto quer e asseia a sua prisão? Mais uma vez, ressentimo-nos do tempo em que, na Terra, habitavam Deuses, no tempo em que a terra era fértil e dela jorrava leite e mel! Quando o homem não tinha que tirar o alimento com o suor do seu trabalho! Quando não se sabe se sexo era ou não prazer, mas se sabia que a fertilidade (em outros lugares) era no feminino, que a criação era no feminino, que o centro era feminino! Pode ser que não seja esta a via do poeta em questão. Porém, pode ser que esta seja uma maneira de lê-lo, de dignificar a dor e a violência, e de exaltar o asco e o reclame do corpo e do prazer que ele solicita. O que se pode dizer é que ele não pode dizer que está feliz com/ou que são felizes as mulheres de família.
Se sabe, certamente, que Polifonia não é um livro que se possa ler rapidamente e sem compromisso, pois ele exige uma postura e uma recepção dos seus leitores. Não é apenas uma Arte Menor – ele é cruzamento; visualmente é Holzwege; intelectualmente o cânone se faz reconhecer; e no universo desprezado desde Parmênides –, ele propõe re-conhecer o corpo com excrementos, com pruridos, com fluxos e com orifícios de prazer .
É fácil reconhecermos o estilo poético da obra; é fácil (ele próprio enumera) apontar os seus mestres; difícil é compreendê-los. No entanto, Portugal precisa, talvez, mais do que todos os outros Ocidentais fazer o reconhecimento de si mesmo. E, aqui, reconheçamos o trabalho de Heidegger, de Artaud, de Van Gogh e do poeta que aqui se apresenta, dignificando a linguagem, o homem - guardião do ser -, a poesia. Em homenagem final aos que transformam o mundo, (e como não conseguiria fazer de outro jeito):

***

Pode-se falar da boa saúde mental de Van Gogh, que em toda a sua vida apenas assou uma das mãos e, fora isso, limitou-se a cortar a orelha esquerda numa ocasião. Num mundo no qual diariamente comem vagina assada com molho verde ou sexo de recém-nascido flagelado e triturado, assim que sai do sexo materno. E isso não é uma imagem, mas sim um fato abundante e cotidianamente repetido e praticado no mundo todo.
E assim é que a vida atual, por mais delirante que possa parecer esta afirmação, mantém sua velha atmosfera de depravação, anarquia, delírio, perturbação, loucura crônica, inércia burguesa, anomalia psíquica (pois não é o homem, mas sim o mundo que se torna anormal), proposital desonestidade e notória hipocrisia, absoluto desprezo por tudo que tem uma linguagem e reivindicação de uma ordem inteiramente baseada no cumprimento de uma primitiva injustiça, em suma, de crime organizado. Isso vai mal porque a consciência enferma mostra o máximo interesse, nesse momento, em não recuperar-se da sua enfermidade. Por isso, uma sociedade infecta inventou a psiquiatria, para defender-se das investigações feitas por algumas inteligências extraordinariamente lúcidas, cujas faculdades de adivinhação a incomodavam.

(Artaud – Van Gogh, o suicidado pela humanidade)




Obs.: O presente estudo faz sua paragem principal no livro Polifonia. Fica aqui um compromisso de continuidade, de revisão e de crítica para o que nos oferece A Alegria do mal: do que foi feito e do que pretendemos fazer.





Neiza Teixeira
Doutora em Filosofia
neizateixeira@hotmail.com
neizateixeira@gmail.com
neizateixeira.blogspot.com

















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