Acerca do que Freud infelizmente considerou alheio

Luis Claudio Figueiredo
lclaudio@netpoint.com.br
Publicado el: 13/04/06


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"Igreja e exército são massas artificiais, isto é, se emprega certa compulsão externa para prevenir sua dissolução e impedir alterações em sua estrutura. Em geral, não se pergunta ao indivíduo se quer ingressar em uma massa desta índole, nem se o deixa entregue ao seu arbítrio; e a tentativa de separação costuma ser bloqueada, ou punida com rigor, ou está sujeita a condições muito determinadas."


Acerca do que Freud infelizmente considerou alheio

ao seu interesse naquele momento



Luís Claudio Figueiredo

E-mail: lclaudio@netpoint.com.br


Fonte: http://www.geocities.com/HotSprings/Villa/3170/Figueiredo.htm

Resumo



O presente trabalho focaliza uma dimensão da vida das "massas artificiais" (ou "instituições") que Freud, embora considerasse muito importante, evitou examinar no contexto de seu livro Psicologia das massa e análise do eu. Trata-se da função das "compulsões externas" para garantir a estabilidade e a permanência destas associações muito estruturadas e relativamente duráveis. Recorrendo à leitura do livro publicado um ano antes (Além do princípio de prazer), sugiro que as pulsões sexuais de vida que reúnem e cimentam as massas artificiais podem também gerar efeitos disruptivos e desagregadores. As coerções externas tornam-se necessárias para reduzir os riscos daí provenientes. O texto propõe uma reconsideração do papel das pulsões de morte para a sobrevivência das massas artificiais. Seriam estas as forças responsáveis pela inibição de metas sexuais, pela redução de tensões e pela neutralização afetiva, processos indispensáveis para a consolidação da vida institucional. Em contrapartida, elas reduzem a vitalidade das associações organizadas e podem conduzi-las ao formalismo e à burocratização.



Em Psicologia das massas e análise do eu Freud inicia o capítulo V, em que trata da Igreja e do exército, estabelecendo a diferença entre massas muito efêmeras e desarticuladas (como a multidão, por exemplo) e aquelas, mais duradoura, que contam com alto grau de organização. Hoje em dia, conhecemos estes agrupamentos estruturados e permanentes pelo nome de "instituições". Freud as chamava de "massas artificiais" e afirmava que elas dependem para sua coesão interna, estabilidade e durabilidade de uma certa "compulsão externa". Diz ele:



"Igreja e exército são massas artificiais, isto é, se emprega certa compulsão externa para prevenir sua dissolução e impedir alterações em sua estrutura. Em geral, não se pergunta ao indivíduo se quer ingressar em uma massa desta índole, nem se o deixa entregue ao seu arbítrio; e a tentativa de separação costuma ser bloqueada, ou punida com rigor, ou está sujeita a condições muito determinadas."



Em seguida a afirmativas tão categóricas, Freud nos decepciona quando prossegue dizendo: "Averiguar porque estas associações necessitam de garantias tão particulares é completamente alheio ao nosso presente interesse". Que lástima!



Meu intuito neste pequeno trabalho será o de mobilizar o que Freud desenvolve neste livro e em outro texto publicado no ano anterior - Além do princípio de prazer - para arriscar uma resposta a isto que, naquele exato momento, ficava fora do alcance dos interesses dele, sempre tão amplos, em geral, e, neste caso específico, tão curiosamente estreitados.



Recordemos. Em Psicologia das massas e análise do eu, Freud nos oferece uma interpretação conjunta e articulada de processos sociais e individuais. Esta interpretação pretende se situar exatamente na imbricação essencial destes processos. O que ele deseja é mostrar que os fenômenos e processos de massa estudados pelos psicólogos sociais do começo do século (Le Bon e McDougall) precisavam ser explicados mediante o recurso ao arsenal de conceitos que até então a psicanálise havia criado para tratar de fenômenos e processos individuais, normais e patológicos. Ao mesmo tempo, contudo, os processos individuais passavam a se articular profundamente e de forma essencial (e não contingente e casual) com a dimensão social da existência, ou seja, com o vasto, complexo e variado campo de relações com o "outro", com os outros.



No centro, tanto de todos os fenômenos e processos sociais como da constituição dos psiquismos individuais, está a libido, o amor, a sexualidade - Eros em suas diversas formas de manifestação. No caso das massas artificiais, as vinculações eróticas se dariam em dois eixos. No eixo vertical, seus membros se ligam ao líder, ao chefe, ao substituto e encarnação atualizada da figura ancestral do chefe da horda, o pai primordial. Para esta elaboração, Freud retoma o texto fundante do seu pensamento cultural, Totem e Tabu, de 1913. Por outro lado, há que se considerar o eixo horizontal, em que os membros da massa se ligam uns aos outros.



Tanto as conexões verticais como as horizontais, para se manterem sólidas e duradouras, precisam de defesas contra os riscos que rondam as ligações pulsionais mais intensas. Efetivamente, quando os indivíduos estão imersos nas massas, as mais poderosas forças dos seus psiquismos parecem ganhar uma desenvoltura que origina muitos riscos para a vida grupal e para a vida de cada um dos membros do grupo. Que riscos seriam estes?



Um dos riscos seria originado da ambivalência afetiva. O amor destinado ao líder, ao chefe, pode ser muitas vezes contrariado e frustrado. Quanto mais o líder seguir como modelo o pai primordial, menos considerativo, menos generoso e mais despótico será o exercício de seu poder, menos pautado por leis e normas ele agirá e mais facilmente infringirá qualquer noção e exigência de justiça e equanimidade. O amor pelo chefe pode e quase certamente irá conviver com frustração, ressentimento, raiva, ódio.



No que concerne aos irmãos, haverá sempre uma experiência de inveja e ciúme semi-adormecida, mascarada pelas formações reativas que se apresentam como discursos a favor da solidariedade, da generosidade fraterna e da coesão. Os sentimentos hostis, contudo, nunca serão totalmente eliminados e, reprimidos para o inconsciente, estarão prontos para eclodir em muitas circunstâncias em que o amor narcisista do indivíduo por si mesmo ganha terreno sobre o amor fraterno e sobre a adesão ao coletivo.



Para explicar esta presença da hostilidade ao lado do amor, Freud, em uma nota de rodapé muito curta, nos remete, quase que de passagem, ao livro sobre a pulsão de morte que acabara de ser publicado. Contudo, como tentei demonstrar meticulosamente em um texto dedicado em grande parte à análise de Além do princípio de prazer, esta equivalência simples entre pulsão de morte e agressividade, embora de forte impacto no pensamento psicanalítico, está longe de ser o melhor desenvolvimento para as elaborações freudianas. No presente trabalho, pretendo sugerir que, para enriquecer o livro sobre as massas e o eu, o recurso ao texto publicado um ano antes poderia ser muito mais decisivo que o desta nota de rodapé, mas iria por uma direção completamente distinta.



Passemos então à outra fonte de riscos que colocam percalços à estabilidade e durabilidade das organizações e massas artificiais. Trata-se aqui, paradoxalmente, do próprio elemento que reúne e sustenta as massas, bem como tudo que se mantém reunido na esfera da vida, a libido.



Toda ligação libidinal é em sua origem sexual. De uma certa forma, continua sendo para todo o sempre, mas as metas sexuais devem ser de alguma forma inibidas para que estes vínculos se estabilizem. Isto, segundo Freud, por duas razões. Em primeiro lugar, deve-se considerar que quando as metas sexuais são rapidamente atingidas e os impulsos satisfeitos, ocorre um desinvestimento libidinal que enfraquece, ao menos provisoriamente, a ligação. É o período de repouso, refratário a novas excitações. Há, contudo, um outro efeito dos vínculos libidinais em que as metas do prazer sexual não são inibidas. Embora este efeito seja de certa forma antagônico ao primeiro, pode ser igualmente pernicioso para a vida societária.



Os membros da massa que passam a investir muita libido uns nos outros e a esperar muito prazer uns dos outros, tendem a se separar da vida coletiva, a se desligar do grupo. Ou seja, um excesso de ligação erótica produz um desligamento do casal. Com isto os outros investimentos libidinais horizontais se enfraquecem, bem como se enfraquece no eixo vertical a submissão ao líder. O casal de amantes, por assim dizer, dá as costas às exigências e compromissos coletivos e altruístas em benefício dos prazeres egoístas da dupla. Quando relações desta natureza envolvem o próprio líder, isto é, quando ele próprio privilegia uma ou um dos outros membros da massa, em detrimento dos demais, é natural que cresçam e proliferem as frustrações, invejas, ressentimentos e demais hostilidades, o que ameaça também, por este outro lado, a coesão do grupo..



É preciso, portanto, inibir as metas sexuais e ao mesmo tempo dar livre curso à circulação libidinal nos dois eixos acima referidos para que haja na massa energia suficiente para mantê-la unida e organizada, mas não tanta energia que produza, ao contrário, sua desagregação, seja pela via do erotismo desenfreado, seja pela via da agressividade incrementada. Esta é, seguramente, uma das maiores dificuldade na vida institucional: manter viva e coesa a "massa organizada", pois que um excesso de vida pode contribuir para a desagregação e, ao revés, como veremos adiante, um excesso de coesão pode comprometer a vitalidade.



Ora, como inibir metas sexuais, como fazer da filiação, da fraternidade e do companheirismo de-sexualizados as bases da estruturação e da estabilidade das massas artificiais, das instituições?



Aqui , ao que parece, tornam-se necessárias as "compulsões externas". Quais os objetivos destas coerções? Creio que podemos imaginar dois tipos de ação para elas. Freud nos fala em impedir alterações na estrutura e limitar as separações, estabelecendo barreiras bastante rígidas e punições para o eventual desertor.



No que toca à estrutura interna, o importante é impedir a formação dentro da massa de núcleos eróticos e campos imantados de energia que tenham como conseqüências subtrair libido do conjunto e separar do coletivo os membros envolvidos nestas relações preferenciais. Ou seja, o grupo, o exército, a igreja, as empresas e demais instituições, e isto os gestores de "recursos humanos" sabem muito bem, sofrem quando se formam dentro delas vínculos eróticos em que a meta sexual não é inibida. Não se vê com bons olhos em uma firma, por exemplo, a formação de casais entre funcionários.

E no entanto, como Freud justamente observa, a convivência na base da libido de-sexualizada pode a todo momento vir a gerar uma erotização excessiva, despertando as metas sexuais inibidas mas preservadas no inconsciente. Paradoxalmente, como será discutido adiante, as mesmas interdições que procuram evitar a sexualização exacerbada de algumas ligações eróticas no seio da instituição contribuem para incrementar o potencial erótico dos vínculos, o que virá a exigir controles ainda mais rígidos.

Mesmo em um casamento, enquadre aparentemente tão propício ao prazer sexual, muitas das tarefas de manutenção do instituído - como a criação de filhos, os trabalhos domésticos e mais ainda os outros (que colocam a família em interação com o resto da sociedade) - requerem uma, às vezes drástica, inibição de metas sexuais. Boa parte da estabilidade de um casamento dependerá da capacidade dos cônjuges renunciarem a um tipo de prazer que, paradoxalmente, pareceria o principal motivo e objetivo da união. Em contrapartida, como tentarei mostrar mais à frente, a manutenção de um potencial erótico mais sexualizado entre os cônjuges dependerá em grande parte das restrições a que eles se submetem.

A outra ação das compulsões externas se faz na direção de impor limites à mobilidade dos membros do grupo. Uma finalidade mais ou menos óbvia destes limites é, sem dúvida, a de exigir e sustentar a lealdade de todos e de cada um em relação ao grupo de pertinência. Esta, contudo é uma explicação que permanece no nível de uma certa psicologia que não envereda pelos meandros mais sutis do fenômeno em exame. Há, na verdade, uma outra função a ser considerada se levarmos a análise a um nível um pouco mais profundo.

O processo de identificação que deve se desenvolver entre os membros do grupo, tanto no eixo vertical como no horizontal, tende a criar semelhanças, tende a eliminar ou esmaecer diferenças entre eles. Ora, a inibição das metas sexuais torna-se muito mais fácil quando as diferenças são atenuadas e gera-se um ambiente propício à fusão indiferenciada. O erotismo, em uma de suas vertentes, é estimulado pelo encontro de diferentes. Freud em seu texto expõe com toda a clareza a questão:

"Nas grandes massas artificiais, Igreja e exército, não há lugar para a mulher como objeto sexual. A relação amorosa entre homem e mulher fica excluída destas organizações. Mesmo onde se formam massas mistas de homens e mulheres, a diferença entre os sexos não desempenha nenhum papel. Mal tem sentido perguntar-se se a libido que dá coesão à massa é de natureza homossexual ou heterossexual , pois não se encontra diferenciada segundo os sexos e prescinde, em particular, das metas da organização genital da libido" (grifo meu)

Em Além do princípio de prazer, Freud elaborara um duplo pensamento acerca do erotismo. Na vertente que aqui nos interessa, ele privilegia o encontro de diferentes capaz de gerar uma excitação, de incrementar tensões, de potencializar as próprias diferenças, de vitalizar os elementos que se encontram dando-lhes mais tempo e mais vida. A ligação erótica, neste caso, contraria a tendência a reduzir tensões e procurar o repouso, opõe-se, enfim, à tendência de retorno ao inorgânico, à morte. Este caráter nômade, criativo e aventuroso da libido em sua procura de alteridade, de diferença, é muito bem delineado por Radmila Zygouris:

"Ela (a libido) é solicitada, estimulada, reanimada pelo outro, pelos outros, pelos barulhos do mundo. Barulho e furor da vida, do exterior vivo... Sem esta tensão entre si e os outros, entre si e o mundo, a libido se esvai". Que a excitação erótica e o poder de atração erótica são aumentados quando diferentes se encontram está presente em um sem número de histórias e fábulas. Romeo e Julieta ou os personagens de Westside Story não se amariam tanto se fossem primos; menos ainda se fossem irmãos. Que provenham de famílias distintas ou de grupos rivais é decisivo para gerar estes amores tão erotizados. Por outro lado, a precária durabilidade destes vínculos é igualmente bem expressa no desenrolar das histórias em que a morte é o único destino possível para os amantes.

A partir desta visão da vida erótica, pode-se apontar uma razão para o fato dos limites e barreiras à deserção libidinal deverem ser impostos e defendidos com rigor. À medida que uma certa igualdade se instala dentro da massa artificial e que uma certa "assemelhação" se vai constituindo entre os irmãos, que uma irmandade se cria entre, por exemplo, os cônjuges no seio de uma família, pode aumentar excessivamente o potencial de atração do "outro lado", do lado dos que ficaram de fora, dos diferentes.

Este "lado de fora", Freud nos ensina, é de imensa importância para a manutenção do grupo. Para "fora" são expelidos os maus sentimentos, o ressentimento, o ódio gerados pelo amor frustrado e pela ambivalência, pela inveja e pelos ciúmes. Mas, e embora isto não seja dito por Freud, ele nos dá elementos para pensar, é também para lá que podem ir os mais intensos e não sublimáveis impulsos eróticos. Ao que está "lá fora" a libido pode ser endereçada sem ter suas metas inibidas.

Cria-se então uma dinâmica curiosa e muito complexa. Há, necessariamente, uma tendência á homogeneização, à anulação das diferenças (inclusive as diferenças entre gêneros) dentro da massa artificial. Esta homogeneização, indispensável para a coesão da massa, deve ser entendida em parte como efeito de impulsos libidinais sob a forma de identificações verticais com o líder e horizontais com os outros membros do grupo. As identificações produzem a homogeneidade e contribuem para a constituição e manutenção de uma unidade na massa.

Mas, em parte, esta homogeneização deve ser entendida também como efeito das coerções externas. Estas coerções, entre outras coisas, limitam a possibilidade de formação de vínculos privilegiados, ou seja, de ligações eróticas plenas, sem que as metas sexuais tenham sido inibidas. Sem estas compulsões, certamente, se criariam os vínculos preferenciais, ou seja, se desenvolveria uma erotização excessivamente sexualizada entre alguns membros da massa. Como Freud assinalou , a convivência nas instituições tende a despertar as metas sexuais inibidas e os conteúdos libidinais reprimidos que sempre jazem adormecidos no fundo das mais inocentes ligações fraternas.

Os efeitos das restrições são, na verdade, duplos e contraditórios. De um lado, como se viu, tendem a nivelar, a homogeneizar e, assim, ajudam a dessexualizar as ligações eróticas. De outro lado, porém, as interdições separam, criam espaços e intervalos entre os membros do grupo, estruturam e hierarquizam e, nesta medida, geram forças de atração (e transgressão) muito fortes. Torna-se necessário, portanto, exercer uma rigorosa fiscalização contra estas emergências libidinais desagregadoras e a recente atenção que se dá aos episódios de assédio sexual revelam pelo negativo a força destas atrações, bem como o seu potencial de risco.

O interessante, contudo, é observar que a homogeneização no seio da massa artificial, independentemente de sua proveniência, contribui ela mesma para a inibição das metas sexuais já que o erotismo, conforme vimos nas palavras de Radmila Zygouris, perde força quando as diferenças são amortecidas. Nesta medida, seria possível considerar que tanto a libido investida nas identificações como as medidas de controle destinadas a impedir a formação de vínculos muito sexualizados estão a serviço da pulsão de morte, entendida aqui não como agressividade, mas como impulso na direção de um certo retorno ao inorgânico, como impulso regressivo na direção da morte, na direção da redução das tensões.

Que as massas artificiais tendam a uma certa "burocratização", a um certo formalismo rígido e mecânico, que elas tendam a perder vitalidade e a "vegetar" mais que a "viver", que tendam a se fechar em si mesmas e a se defender contra "estranhos", me parece a decorrência natural do que se poderia esperar dos efeitos da pulsão de morte assim entendida. Trata-se, enfim, de um processo que deve ser compreendido no plano de um narcisismo institucional, compreendendo o narcisismo nos termos que André Green se refere à tendência ao Um indiferenciado. Trata-se do narcisismo absoluto, o que persegue o zero, o neutro.

No entanto e em contrapartida, a intervenção das coerções externas acaba produzindo, na contramão do processo de resfriamento, um renovado impulso erótico, seja na direção do outro externo ao grupo, seja na direção do outro interno à associação mas interditado. Contra esta transgressão, porém, as mesmas coerções externas costumam ser implacáveis.

Será, então, de preferência "lá fora" e, quem sabe, lá longe que a vida há de ser novamente buscada. Lá, para onde foram projetados os mais terríveis ódios, e , em consequência, de onde provém (se pensarmos a partir de Melanie Klein) as mais terríveis fantasias persecutórias, irão também as maiores esperanças de vida e prazer, prazer que se obtém apenas no encontro com os diferentes. Também contra esta deserção da libido as barreiras deverão ser fortalecidas, em defesa da unidade do grupo, da homogeneidade dentro da massa, da conservação dos vínculos promovidos pelo erotismo moderado, quando destituído de suas metas sexuais; vínculos que, embora relativamente desvitalizados, são estáveis e duráveis.

Descobrimos novamente aqui a força das pulsões de morte na sua incansável tarefa regressiva de fazer toda a libido retornar ao próprio, ao estado de um narcisismo primário absoluto em que os encontros com a diferença, com a alteridade, são abolidos e em que o repouso na unidade do neutro é procurado por todas as vias, até pelas vias do amor. Neste caso, já não se trataria do Eros que busca e promove diferenças, mas do Eros platônico, que procura uma suposta unidade perdida.

Longe de mim, porém, a pretensão de abrir um processo contra as pulsões de morte e contra a homogeneização que ela persegue, seja pela via do amor moderado, filial, fraterno ou platônico, seja pela via da força e da violência destrutivas. Que uma certa estabilidade dos vínculos é necessária não resta dúvida. E que a produção desta estabilidade não pode depender apenas das forças da libido, no meu entender, também é indiscutível. Ou seja, a estruturação interna e os limites da massa organizada, vale dizer, a organização e a durabilidade das instituições sociais dependem inevitavelmente da ação das pulsões de morte na sua pertinaz tentativa de reduzir tensões e abolir diferenças, de desvitalizar e neutralizar, de produzir o retorno à unidade indiferenciada da morte.

Por outro lado, são estas mesmas coerções externas que, embora a serviço da homogeneização, produzem inevitavelmente diferenças, seja as diferenças entre "fora" e "dentro", seja as diferenças internas ao grupo e que se expressam em sua estrutura e em suas interdições. Em consequência, a libido é potencializada e relançada no circuito e a estabilidade obtida será sempre mais precária do que o intencionado.

Minha única intenção inicialmente era a de sugerir que uma resposta para a questão que Freud deixara em aberto estava ali perto, nas mãos dele, no grandioso texto publicado no ano anterior ao da publicação do livro sobre as massas e que, no entanto, fora usado com tanta economia quando, naquele exato momento, tantos serviços poderia ter prestado a seu autor.

Emerge nesse momento, contudo, outra questão: porque Freud preferiu deixar inexplorada esta possibilidade de dar uma resposta ao problema de explicar a necessidade de coerções externas para dar estabilidade e durabilidade às massas artificiais? Não creio que a elaboração da resposta a este problema fosse irrelevante para a compreensão do fenômeno a que ele estava se dedicando e não é do seu feitio deixar em suspenso aspectos essenciais dos fenômenos e processos que analisa.

É claro que esta questão já não nos remete aos textos, mas à "psicologia" do Autor e, nesta medida, ela ultrapassa o limite confiável da análise até aqui encetada. Mesmo assim, arrisco.

Embora o pensamento freudiano sobre a dualidade pulsional nos obrigue a ir muito além do dualismo simples (o que procurei demonstrar nas análises de Palavras cruzadas), Freud reiteradamente retorna ao dualismo como única forma de se defender das posições monistas de Jung. Nesta medida, pulsões de vida tendem a se identificar com o que mantém juntas todas as coisas vivas e complexas e pulsões de morte passam a se identificar com o que separa e destrói o orgânico. Contudo, tanto no texto sobre as massas e o eu, como no texto sobre o mal estar na civilização, há elementos suficientes para contestar esta simplificação.

As pulsões de vida, a libido, a sexualidade, tanto reúnem diferentes na formação de unidades maiores e mais complexas, como podem gerar efeitos disruptivos e desligamentos elevando excessivamente a tensão dentro destas unidades. Aqui poderia haver morte explosiva ou implosiva, "morte a quente". Em contrapartida, as pulsões de morte podem ser importantes, como vimos na análise anterior, para "refreando a vitalidade", "amortecendo" as pulsões libidinais, dar aos organismos estabilidade e durabilidade ao impor a eles formas externas e internas - limites e estruturas - tecidos "mortos" que são imprescindíveis para a defesa da vida ameaçada pelos "excessos de vida".

De outro lado, naturalmente, a redução das tensões, da variabilidade e das diferenças promovidas pelas pulsões de morte levariam em última instância a uma perda completa de vitalidade. Aqui poderia haver "morte a frio". O vivo, contudo, pode circular entre os dois extremos pois cada um dos pólos desdobra-se em fonte e garantia de vida, de um lado, e risco de morte, de outro.

Para assumir plenamente estas descobertas, porém, é preciso aposentar a lógica identitária que, vigorando também sob o dualismo, torna cada pólo da dualidade idêntico a si mesmo. Penso que Freud exige uma ultrapassagem desta lógica para que o alcance de sua teoria seja mais amplamente apreciado. Que ele nos tenha legado esta ultrapassagem como uma exigência é mais que o bastante para nos deixar infinitamente agradecidos à sua genialidade.

Luiz Claudio Figueiredo

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