Entrevista com Sigmund Freud

George Sylvester Viereck
Publicado el: 2014-06-02

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Concedida ao jornalista George Sylvester Viereck

Alpes Austríacos - 1926

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Entrevista com Sigmund Freud

Concedida ao jornalista George Sylvester Viereck

Alpes Austríacos - 1926

O VALOR DA VIDA

UMA ENTREVISTA RARA DE FREUD



Entre as preciosidades encontradas na biblioteca da Sociedade Sigmund Freud

está essa entrevista. Foi concedida ao jornalista americano George Sylvester

Viereck, em 1926. Deve ter sido publicada na imprensa americana da época.

Acreditava-se que estivesse perdida, quando o Boletim da Sigmund Freud Haus

publicou uma versão condensada, em 1976. Na verdade, o texto integral havia

sido publicado no volume Psychoanalysis and the Fut número especial do

"Journal of Psychology", de Nova Iorque, em 1957. É esse texto que aqui

reproduzimos, provavelmente pela primeira vez em português.

Tradução de Paulo César Souza

S. Freud: Setenta anos ensinaram-me a aceitar a vida com serena humildade.

(Quem fala é o professor Sigmund Freud, o grande explorador da alma. O

cenário da nossa conversa foi uma casa de verão no Semmering, uma

Montanha nos Alpes austríacos. Eu havia visto o pai da psicanálise pela última

vez em sua casa modesta na capital austríaca. Os poucos anos entre minha

última visita e a atual multiplicaram as rugas na sua fronte. Intensificaram

a sua palidez de sábio. Sua face estava tensa, como se sentisse dor. Sua

mente estava alerta, seu espírito firme, sua cortesia impecável como sempre,

mas um ligeiro impedimento da fala me perturbou.Parece que um tumor



maligno no maxilar superior necessitou ser operado. Desde então Freud

usa uma prótese, para ele uma causa de constante irritação).

S. Freud: Detesto o meu maxilar mecânico, porque a luta com o aparelho me

consome tanta energia preciosa. Mas prefiro ele a maxilar nenhum. Ainda

prefiro a existência à extinção. Talvez os deuses sejam gentis conosco,

tornando a vida mais desagradável à medida que envelhecemos. Por fim, a

morte nos parece menos intolerável do que os fardos que carregamos.

(Freud se recusa a admitir que o destino lhe reserva algo especial.)

Por que (disse calmamente) deveria eu esperar um tratamento especial? A

velhice, com sua agruras, chega para todos. Eu não me rebelo contra a ordem

universal. Afinal, mais de setenta anos. Tive o bastante para comer.

Apreciei muitas coisas - a companhia de minha mulher, meus filhos, o

pôr-do-sol. Observei as plantas crescerem na primavera. De vez em quando

tive uma mão amiga para apertar. Vez ou outra encontrei um ser humano que

quase me compreendeu. Que mais posso querer?



George Sylvester Viereck** : O senhor teve a fama. Sua obra influi na

literatura de cada país. O homem olha a vida e a si mesmo com outros olhos,

por causa do senhor. E recentemente, no seu septuagésimo aniversário, o

mundo se uniu para homenageá-lo - com exceção da sua própria Universidade.



S. Freud: Se a Universidade de Viena me demonstrasse reconhecimento, eu

ficaria embaraçado. Não há razão em aceitar a mim e a minha obra porque

tenho setenta anos. Eu não atribuo importância insensata aos decimais. A

fama chega apenas quando morremos e, francamente, o que vem depois não me

interessa. Não aspiro à glória póstuma. Minha modéstia não é virtude.



George Sylvester Viereck: Não significa nada o fato de que o seu nome vai

viver?



S. Freud: Absolutamente nada, mesmo que ele viva, o que não é certo. Estou

bem mais preocupado com o destino de meus filhos. Espero que suas vidas não

venham a ser difíceis. Não posso ajudá-los muito. A guerra praticamente

liqüidou com minhas posses, o que havia poupado durante a vida. Mas posso me

dar por satisfeito. O trabalho é minha fortuna.

(Estávamos subindo e descendo uma pequena trilha no jardim da casa. Freud

acariciou ternamente um arbusto que florescia).

S. Freud: Estou muito mais interessado neste botão do que no que possa me

acontecer depois que estiver morto.

George Sylvester Viereck: Então o senhor é, afinal, um profundo pessimista?

S. Freud: Não, não sou. Não permito que nenhuma reflexão filosófica estrague

a minha fruição das coisas simples da vida.

George Sylvester Viereck: O senhor acredita na persistência da personalidade

após a morte, de alguma forma que seja?

S. Freud: Não penso nisso. Tudo o que vive perece. Por que deveria o homem

constituir uma exceção?

George Sylvester Viereck: Gostaria de retornar em alguma forma, de ser

resgatado do pó? O senhor não tem, em outras palavras, desejo de

imortalidade?

S. Freud: Sinceramente não. Se a gente reconhece os motivos egoístas por

trás de conduta humana, não tem o mínimo desejo de voltar à vida; movendo se -

num círculo, seria ainda a mesma. Além disso, mesmo se o eterno retorno das

coisas, para usar a expressão de Nietzsche, nos dotasse novamente do nosso

invólucro carnal, para que serviria, sem memória? Não haveria elo entre

passado e futuro. Pelo que me toca, estou perfeitamente satisfeito em saber

que o eterno aborrecimento de viver finalmente passará. Nossa vida é

necessariamente uma série de compromissos, uma luta interminável entre o

ego e seu ambiente. O desejo de prolongar a vida excessivamente me parece

absurdo.

George Sylvester Viereck: Bernard Shaw sustenta que vivemos muito pouco. Ele

acha que o homem pode prolongar a vida se assim desejar, levando sua vontade

a atuar sobre as forças da evolução. Ele crê que a humanidade pode reaver a

longevidade dos patriarcas.

S. Freud: É possível que a morte em si não seja uma necessidade biológica.

Talvez morramos porque desejamos morrer. Assim como amor e ódio por uma

pessoa habitam em nosso peito ao mesmo tempo, assim também toda a vida

conjuga o desejo de manter-se e o desejo da própria destruição. Do mesmo

modo como um pequeno elástico esticado tende a assumir a forma original,

assim também toda a matéria viva, consciente ou inconscientemente, busca

readquirir a completa, a absoluta inércia da existência inorgânica. O

impulso de vida e o impulso de morte habitam lado a lado dentro de nós. A

Morte é a companheira do Amor. Juntos eles regem o mundo. Isto é o que diz o

meu livro: Além do Princípio do Prazer. No começo, a psicanálise supôs que o

Amor tinha toda a importância. Agora sabemos que a Morte é igualmente

importante. Biologicamente, todo ser vivo, não importa quão intensamente a

vida queime dentro dele, anseia pelo Nirvana, pela cessação da "febre

chamada viver", anseia pelo seio de Abraão. O desejo pode ser encoberto por

digressões. Não obstante, o objetivo derradeiro da vida é a sua própria

extinção.

George Sylvester Vierneck: Isto é a filosofia da autodestruição. Ela

justifica o auto-extermínio. Levaria logicamente ao suicídio universal

imaginado por Eduard von Hartamann.

S. Freud: A humanidade não escolhe o suicídio porque a lei do seu ser

desaprova a via direta para o seu fim. A vida tem que completar o seu ciclo

de existência. Em todo ser normal, a pulsão de vida é forte o bastante para

contrabalançar a pulsão de morte, embora no final resulte mais forte.

Podemos entreter a fantasia de que a Morte nos vem por nossa própria

vontade. Seria mais possível que pudéssemos vencer a Morte, não fosse por

seu aliado dentro de nós. Neste sentido (acrescentou Freud com um sorriso)

pode ser justificado dizer que toda a morte é suicídio disfarçado.

(Estava ficando frio no jardim. Prosseguimos a conversa no gabinete. Vi uma

pilha de manuscritos sobre a mesa, com a caligrafia clara de Freud).

George Sylvester Viereck: Em que o senhor está trabalhando?

S. Freud: Estou escrevendo uma defesa da análise leiga, da psicanálise

praticada por leigos. Os doutores querem tornar a análise ilegal para os não

médicos. A História, essa velha plagiadora, repete-se após cada descoberta.

Os doutores combatem cada nova verdade no começo. Depois procuram

monopolizá-la.

George Sylvester Viereck: O senhor teve muito apoio dos leigos?

S. Freud: Alguns dos meus melhores discípulos são leigos.

George Sylvester Viereck: O senhor está praticando muito psicanálise?

S. Freud: Certamente. Neste momento estou trabalhando num caso muito

difícil, tentando desatar os conflitos psíquicos de um interessante novo

paciente. Minha filha também é psicanalista, como você vê...

(Nesse ponto apareceu Miss Anna Freud, acompanhada por seu paciente, um

garoto de onze anos, de feições inconfundivelmente anglo-saxônicas).

George Sylvester Viereck: O senhor já analisou a si mesmo?

S. Freud: Certamente. O psicanalista deve constantemente analisar a si

mesmo. Analisando a nós mesmos, ficamos mais capacitados a analisar os

outros. O psicanalista é como o bode expiatório dos hebreus. Os outros

descarregam seus pecados sobre ele. Ele deve praticar sua arte à perfeição

para desvencilhar-se do fardo jogado sobre ele.

George Sylvester Viereck: Minha impressão é de que a psicanálise desperta

em todos que a praticam o espírito da caridade cristã. Nada existe na vida

humana que a psicanálise não possa nos fazer compreender. "Tout comprec?est

tout pardonner".

S. Freud: Pelo contrário (bravejou Freud - suas feições assumindo a

severidade de um profeta hebreu), compreender tudo não é perdoar tudo. A

análise nos ensina não apenas o que podemos suportar, mas também o que

podemos evitar. Ela nos diz o que deve ser eliminado. A tolerância com o mal

não é de maneira alguma um corolário do conhecimento.

(Compreendi subitamente porque Freud havia litigado com os seguidores que o

haviam abandonado, porque ele não perdoa a sua dissensão do caminho reto da

ortodoxia psicanalítica. Seu senso do que é direito é herança dos seus

ancestrais. Una herança de que ele se orgulha como se orgulha de sua raça).

Minha língua é o alemão. Minha cultura, minha realização é alemã. Eu me

considero um intelectual alemão, até perceber o crescimento do preconceito

anti-semita na Alemanha e na Áustria. Desde então prefiro me considerar

judeu.

(Fiquei algo desapontado com esta observação. Parecia-me que o espírito de

Freud deveria habitar nas alturas, além de qualquer preconceito de raças,

que ele deveria ser imune a qualquer rancor pessoal. No entanto,

precisamente a sua indignação, a sua honesta ira, tornava-o mais atraente

como ser humano. Aquiles seria intolerável, não fosse por seu calcanhar!)

George Sylvester Viereck: Fico contente, Herr Professor, de que também o

senhor tenha seus complexos, de que também o senhor demonstre que é um

mortal!

S. Freud: Nossos complexos são a fonte de nossa fraqueza; mas, com

freqüência, são também a fonte de nossa força.

George Sylvester Viereck: Imagino, observei, quais seriam os meus complexos!

S. Freud: Uma análise séria dura ao menos um ano. Pode durar mesmo dois ou

três anos. Você está dedicando muitos anos de sua vida à "caça aos leões".

Você procurou sempre as pessoas de destaque para a sua geração: Roosevelt, o

Imperador, Hindenburg, Briand, Foch, Joffre, Georg Bernard Shaw...

George Sylvester Viereck: É parte do meu trabalho.

S. Freud: Mas é também sua preferência. O grande homem é um símbolo. A sua

busca é a busca do seu coração. Você está procurando o grande homem para

tomar o lugar do seu pai. É parte do seu "complexo do pai".

(Neguei veementemente a afirmação de Freud. No entanto, refletindo sobre

isso, parece-me que pode haver uma verdade, ainda não suspeitada por mim, em

sua sugestão casual. Pode ser o mesmo impulso que me levou a ele. Gostaria,

observei após um momento, de poder ficar aqui o bastante para vislumbrar o

meu coração através do seus olhos. Talvez, como a Medusa, eu morresse de

pavor ao ver minha própria imagem! Entretanto, receio ser muito informando

sobre a psicanálise. Eu freqüentemente anteciparia, ou tentaria antecipar

suas intenções).

S. Freud: A inteligência num paciente não é um empecilho. Pelo contrário, às

vezes facilita o trabalho.


(Neste ponto o mestre da psicanálise diverge de muitos dos seus seguidores,

que não gostam de excessiva segurança do paciente sob o seu escrutínio).

George Sylvester Viereck: Ás vezes imagino se não seríamos mais felizes se

soubéssemos menos dos processos que dão forma a nossos pensamentos e

emoções. A psicanálise rouba a vida do seu último encanto, ao relacionar

cada sentimento ao seu original grupo de complexos. Não nos tornamos mais

alegres descobrindo que nós todos abrigamos o criminoso e o animal.

S. Freud: Que objeção pode haver contra os animais? Eu prefiro a companhia

dos animais à companhia humana.

George Sylvester Viereck: Por quê?

S. Freud: Porque são tão mais simples. Não sofrem de uma personalidade

dividida, da desintegração do ego, que resulta da tentativa do homem de

adaptar-se a padrões de civilização demasiado elevados para o seu mecanismo

intelectual e psíquico. O selvagem, como o animal, é cruel, mas não tem a

maldade do homem civilizado. A maldade é a vingança do homem contra a

sociedade, pelas restrições que ela impõe. As mais desagradáveis

características do homem são geradas por esse ajustamento precário a uma

civilização complicada. É o resultado do conflito entre nossos instintos e

nossa cultura. Muito mais desagradáveis são as emoções simples e diretas de

um cão, ao balançar a cauda, ou ao latir expressando seu desprazer. As

emoções do cão (acrescentou Freud pensativamente) lembram-nos os heróis da

Antigüidade. Talvez seja essa a razão por que inconscientemente damos aos

nossos cães nomes de heróis antigos como Aquiles e Heitor.

George Sylvester Viereck: Meu cachorro é um doberman Pinscher chamado Ajax.

S. Freud: (sorrindo) Fico contente de que não possa ler. Ele certamente

seria um membro menos querido da casa, se pudesse latir sua opinião sobre os

traumas psíquicos e o complexo de Édipo!

George Sylvester Viereck: Mesmo o senhor, Professor, sonha a existência

complexa demais. No entanto, parece-me que o senhor seja em parte

responsável pelas complexidades da civilização moderna. Antes que o senhor

inventasse a psicanálise, não sabíamos que nossa personalidade é dominada

por uma hoste beligerante de complexos muito questionáveis. A psicanálise

torna a vida um quebra-cabeças complicado.

S. Freud: De maneira alguma. A psicanálise torna a vida mais simples.

Adquirimos uma nova síntese depois da análise. A psicanálise reordena um

emaranhado de impulsos dispersos, procura enrolá-los em torno do seu

carretel. Ou, modificando a metáfora, ela fornece o fio que conduz a pessoa

fora do labirinto do seu inconsciente.

George Sylvester Viereck: Ao menos na superfície, porém, a vida humana nunca

foi mais complexa. E a cada dia alguma nova idéia proposta pelo senhor ou

por seus discípulos torna o problema da condução humana mais intrigante e

mais contraditório.

S. Freud: A psicanálise, pelo menos, jamais fecha a porta a uma nova

verdade.

George Sylvester Viereck: Alguns dos seus discípulos, mais ortodoxos do que

o senhor, apegando-se a cada pronunciamento que sai da sua boca.

S. Freud: A vida muda. A psicanálise também muda. Estamos apenas no começo

de uma nova ciência.

George Sylvester Viereck: A estrutura científica que o senhor ergueu me

parece ser muito elaborada. Seus fundamentos - a teoria do "deslocamento",

da "sexualidade infantil", do "simbolismo dos sonhos", etc. - parecem

permanentes.

S. Freud: Eu repito, porém, que nós estamos apenas no início. Eu sou

apenas um iniciador. Consegui desencavar monumentos soterrados nos

substratos da mente. Mas ali onde eu descobri alguns templos, outros poderão

descobrir continentes.

George Sylvester Viereck: O senhor ainda coloca a ênfase sobretudo no sexo?

S. Freud: Respondo com as palavras do seu próprio poeta, Walt Whitman: "Mas

tudo faltaria, se faltasse o sexo" ("Yet all were lacking, if sex were

lacking"). Entretanto, já lhe expliquei que agora coloco ênfase quase igual

naquilo que está "além" do prazer - a morte, a negociação da vida. Este

desejo explica por que alguns homens amam a dor - como um passo para o

aniquilamento! Explica por que os poetas agradecem a


Whatever gods there be,

That no life lives forever

And even the weariest river

Winds somewhere safe to sea.


("Quaisquer deuses que existam/ Que a vida nenhuma viva para sempre/ Que os

mortos jamais se levantem** / E também o rio mais cansado/ Deságüe tranqüilo

no mar".)

George Sylvester Viereck: Shaw, como o senhor, não deseja viver para sempre,

mas à diferença do senhor, ele considera o sexo desinteressante.

S. Freud: (sorrindo) Shaw não compreende o sexo. Ele não tem a mais remota

concepção do amor. Não há um verdadeiro caso amoroso em nenhuma de suas

peças. Ele faz brincadeira do amor de Júlio César - talvez a maior paixão da

História. Deliberadamente, talvez maliciosamente, ele despe Cleópatra de

toda grandeza, reduzindo-a uma insignificante garota. A razão para a

estranha atitude de Shaw diante do amor, para a sua negação do móvel de

todas as coisas humanas, que tira de suas peças o apelo universal, apesar do

seu enorme alcance intelectual, é inerente à sua psicologia. Em um de seus

prefácios, ele mesmo enfatiza o traço ascético do seu temperamento. Eu posso

ter errado em muitas coisas, mas estou certo de que não errei ao enfatizar a

importância do instinto sexual. Por ser tão forte, ele se choca sempre com

as convenções e salvaguardas da civilização. A humanidade, em uma espécie de

autodefesa, procura negar sua importância. Se você arranhar um russo, diz o

provérbio, aparece o tártaro sob a pele. Analise qualquer emoção humana, não

importa quão distante esteja da esfera da sexualidade, e você certamente

encontrará esse impulso primordial, ao qual a própria vida deve a

perpetuação.

George Sylvester Viereck: O senhor, sem dúvida, foi bem sucedido em

transmitir esse ponto de vista aos escritores modernos. A psicanálise deu

novas intensidades à literatura.

S. Freud: Também recebeu muito da literatura e da filosofia. Nietzsche foi

um dos primeiros psicanalistas. É surpreendente até que ponto a sua intuição

prenuncia as novas descobertas. Ninguém se apercebeu mais profundamente dos

motivos duais da conduta humana, e da insistência do princípio do prazer em

predominar indefinidamente. O Zaratustra diz: "A dor grita: Vai! Mas o

prazer quer eternidade Pura, profundamente eternidade". A psicanálise pode

ser menos amplamente discutida na Áustria e na Alemanha do que nos Estados

Unidos, a sua influência na literatura é imensa, porém. Thomas Mann e Hugo

von Hofmannsthak muito devem a nós. Schnitzler percorre uma via que é, em

larga medida, paralela ao meu próprio desenvolvimento. Ele expressa

poeticamente o que eu tento comunicar cientificamente. Mas o Dr. Schnitzler

não é apenas um poeta, é também um cientista.

George Sylvester Viereck: O senhor não é apenas um cientista, mas também um

poeta. A literatura americana está impregnada da psicanálise. Hupert Hughes

Harvrey O?Higgins e outros fazem-se de seus intérpretes. É quase impossível

abrir um novo romance sem encontrar referência à psicanálise. Entre os

dramaturgos, Eugene O?Neill e Sydney Howard têm profunda dívida para com o

senhor. A The Silver Cord, por exemplo, é simplesmente uma dramatização do

complexo de Édipo.

S. Freud: Eu sei e apresento o cumprimento que há nessa constatação. Mas

tenho receio da minha popularidade nos Estados Unidos. O interesse americano

pela psicanálise não se aprofunda. A popularização leva à aceitação

superficial sem estudo sério. As pessoas apenas repetem as frases que

aprendem no teatro ou na imprensa. Pensam compreender algo da psicanálise

porque brincam com seu jargão! Eu prefiro a ocupação intensa com a

psicanálise, tal como ocorre nos centros europeus. A América foi o primeiro

país a reconhecer-me oficialmente. A Clark University concedeu-me um diploma

honorário quando eu ainda era ignorado na Europa. Entretanto, a América fez

poucas contribuições originais à psicanálise. Os americanos são julgadores

inteligentes, raramente pensadores criativos. Os médicos nos Estados Unidos,

e ocasionalmente também na Europa, procuram monopolizar para si a

psicanálise. Mas seria um perigo para a psicanálise deixá-la exclusivamente

nas mãos dos médicos, pois uma formação estritamente médica é, com

freqüência, um empecilho para o psicanalista. É sempre um empecilho, quando

certas concepções científicas tradicionais ficam arraigadas no cérebro

estudioso.

(Freud tem que dizer a verdade a qualquer preço! Ele não pode obrigar a si

mesmo a agradar a América, onde está a maioria de seus admiradores. Apesar

da sua intransigente integridade, Freud é a urbanidade em pessoa. Ele ouve

pacientemente cada intervenção, não procurando jamais intimidar o

entrevistador. Raro é o visitante que deixa sua presença sem algum presente,

algum sinal de hospitalidade! Havia escurecido. Era tempo de eu tomar o trem

de volta à cidade que uma vez abrigara o esplendor imperial dos Habsburgos.

Acompanhado da esposa e da filha, Freud desceu os degraus que levavam do seu

refúgio na montanha à rua, para me ver partir. Ele me pareceu cansado e

triste, ao dar o seu adeus).

S. Freud: Não me faça parecer um pessimista (disse ele após o aperto de

mão). Eu não tenho desprezo pelo mundo. Expressar desdém pelo mundo é apenas

outra forma de cortejá-lo, de ganhar audiência e aplauso. Não, eu não sou um

pessimista, não, enquanto tiver meus filhos, minha mulher e minhas flores!

Não sou infeliz - ao menos não mais infeliz que os outros.

(O apito de meu trem soou na noite. O automóvel me conduzia rapidamente para

a estação. Aos poucos o vulto ligeiramente curvado e a cabeça grisalha de

Sigmund Freud desapareceram na distância).



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