A Mulher do Alcoolista - Parceira ou Rival

Mila Palombini de Alencar

Publicado el: 2022-07-05


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Diante da complexidade nas escolhas dos laços
amorosos, B. Lecoeur diz que para o alcoolista “o vinho é um parceiro silencioso e conciliador, que não denuncia a castração no amor que o embriagado lhe confere, guardando desta forma, a promessa de um gozo



Diante da complexidade nas escolhas dos laços
amorosos, B. Lecoeur diz que para o alcoolista ?o vinho é
um parceiro silencioso e conciliador, que não denuncia a
castração no amor que o embriagado lhe confere, guardando
desta forma, a promessa de um gozo solicitado?.
Livre das desilusões dos entraves do amor, ele
escolhe o companheiro-álcool na dosagem certa ? tantas
doses quantas forem necessárias. Ligado ao significante
embriaguez, ele encontra aí um porto seguro onde habita em
território comum, estando a lei não ausente. O alcoolista
diferente do toxicômano, não necessita de elaborações na
preparação das substâncias naquilo que vai consumir nem
contudo almeja troca de sua parceria. A fidelidade faz a
marca do alcoolista.
Do seu bem-querer ? álcool ?é segredo, é sagrado,
está sacramentado?, como nos diz a música de Milton
Nascimento. Ele o guarda a sete chaves. Não revela o
segredo, não diz nada, esconde-se nos bares. Ao sentir-se
invadido, não subtraído da cadeia significante e não saindo
da linguagem, faz tentativas para assegurar o seu desejo ao
dizer ?eu paro de beber a hora que eu quiser?. Esconde-se
de que, afinal, e de quem? Parece fugir de sua divisão
subjetiva, da angústia da castração, da impotência e da
injúrias diante da demanda do Outro.
Segundo contribuições de Freud, o amor seria a
repetição ou o reencontro do objeto fundamental prévio à
barreira do incesto. Já J.-A. Miller, em ?Lógicas da Vida
Amorosa?, avança na definição do amor favorecendo uma
vertente mais original em que cita ?o amor é invenção, é
elaboração do saber, é esforço para dar o nome próprio ao a
e encontrar o a na mirada de uma mulher, poder dar a isto
um nome próprio e construir ao redor uma obra de
linguagem?. Ou ainda: ?o amor inventa a fantasia de
seduzir, inventa um paradoxo. A solidão faz parte do amor?.
Essas belas palavras foram articuladas por C. Soler.
No ditos do alcoolista observamos o quanto lhe é
impossível suportar as demandas do Outro e o próprio desejo
que fica camuflado. Uma vez que o alcoolista rompe com a
palavra, mas não se subtrai da cadeia significante,
outrossim, ele se esvaece no outro, muitas vezes, a sua
mulher. Uma vez que o conteúdo de suas questões
permanece ?apagado? do inconsciente, provisoriamente, o
alcoolista encontra no outro um ancoradouro. Construções de
mentiras à mulher e/ou analista são comuns.
Algo é certo: ele não pode desfrutar do gozo outro,
indo em busca de um gozo fora do corpo, descartável, sem
ônus para o seu desejo. Sabemos que o gozo fálico não é
suficiente para todo o ser falante, entretanto o alcoolista
supõe poder unificando-se ao produto, ignorar a inadequação
do gozo fálico, sem deixar de rompê-lo como no toxicômano.
Sendo assim, ele incentiva a ida da sua mulher ao
analista já que ele se esquiva de denúncias quanto a
posição fantasmática que a embriaguez vela, oriunda do
outro. A inibição, a vergonha, a impaciência e a culpa
correlacionada serão imaginariamente solucionadas no bar,
onde através da bebida serão engolidas num próximo trago.
Nas relações dos homens com as mulheres, sabemos
que diferentes posições ocupam uns para os outros. A mulher
busca o falo imaginário para um refúgio na máscara fálica
em troca de sua feminilidade. No Mais Ainda, Lacan nos fala
do homem como lugar de relevo para que a mulher se converta
nesse Outro para si mesma, como ele é para ele.
Se a mulher é um sintoma para o homem, afirma
Lacan, é porque o homem crê nela ? só ela poderá decifrar
seu gozo. Uma verdadeira mulher é aquela que vai além da
posição da mãe, faz ver o homem que a solução pelo lado do
falo é apenas semblante, é enganosa. Assim como no final da
análise, o sujeito lida com seu sintoma de forma relaxada,
como um chiste, também a mulher poderia ocupar esse lugar
para o homem. Na sabedoria popular, há um ditado que
diz: ?Atrás de um grande homem, há uma grande mulher?, ou
seja, só a mulher pode dar um basta à série de
peregrinações em busca da captura do falo que ocorre na
posição masculina. Em troca, ela faz emergir o objeto a, a
falta, a angústia fundamental. A ela cabe fazer surgir um
novo homem. Tornar-se homem, dessa forma, teria uma nova
vertente ? a vertente feminina?
Sabemos que a histérica não estando enquadrada na
real posição feminina traz para o seu analista indagações
acerca do que é o amor, qual é o seu desejo e as suas
fantasias. Ela se põe, então, no lugar do falo, disposta a
saber sobre o gozo do outro e nada sobre o seu próprio.
Diante das posturas acima, seguiríamos as nossas
reflexões acerca do que poderíamos dizer da mulher do
alcoolista. Seria uma histérica? Teria alguma
particularidade que a diferenciaria das demais? Revendo
definições de Lacan, em que ele introduz a personagem:
mulher com postiço, ou mascarada, poderíamos talvez
construir uma analogia com a mulher do alcoolista.
Uma vez que o sujeito alcoolista e o álcool formam
uma parceria feliz, que lugar ocuparia a parceira do
alcoolista para o alcoolista? Sabemos que, nos povos
antigos, o nome do marido era honrado por ela. O marido
escolhido, muitas vezes, pelo pai tinha uma participação na
formação da mulher ? esposa. Cabia a ela ouvi-lo e acatá-lo
em suas decisões.
Diferentemente do que o homem espera de uma mulher,
a mulher do alcoolista, embora muitas vezes, não faça uso
da bebida, tem no significante álcool uma questão
importante.
Queixa-se dele, porém não vive sem ele. Homem esse
que ela coloca em lugar desqualificado, deslocado de
função, ou melhor, não desejante. Entra em nosso
consultório como alguém que quer ajudar o outro ou até
outros. Não mede sacrifícios, dá tudo que tem ? ?a bolsa e
a vida?. Podendo chamá-la de mulher mascarada ou com
postiço, ela, na verdade, vai em busca da perpetuação de
seu falo imaginário. A cada atitude de altruísmo e
filantropia, ela se restitui ainda mais falicamente.
O falo, documento esse para a histérica, que revela
e vela o que não tem e nunca teve. Assim como a mulher do
alcoolista vagueia sem rumo, ao longo de sua vida, sem
descobrir o enigma da mulher. Seu discurso é da certeza, do
que já lhe é conhecido, e nessa posição supõe estar em
liberdade com a questão.
O que podemos observar através desses fenômenos?
Como lhe foi feita a transmissão da metáfora do nome do
pai. O desejo da mãe atuaria nesse processo?
Em observações na clínica, vimos encontrar a
particularidade na questão da lei para esta mulher. Assim
como sabemos que a questão da lei para o alcoolista só é
digerível no álcool, a mulher do alcoolista também constrói
uma lei particular. Parece-me que a função paterna, para
ela, não funcionou como agente da castração e, mesmo, o seu
pai não teria delimitado bem os papéis na família. A mulher
do alcoolista constrói uma identificação maciça com o pai
imaginário, pai esse incastrável, todo poderoso. O valor
simbólico transmitido pela função materna ocasionou em
barreiras, suturando a falta e desautorizando o seu desejo.
Sabemos que a mulher, diante da demanda do Outro, pode
manter a fantasia que lhe é indispensável.
Assumindo papéis desde ?mãe? e ?enfermeira?,
passando por parceiras ou mesmo rivais da bebida. Enquanto
parceiras, dando tudo o que têm, estariam também se
resguardando de algo. Encarnando esse papel, ela se
descompromissa do seu desejo poupando-se das diferenças, e
com confronto diante do outro. Enquanto rival, há
manifestações de conflitos constantes e disputa de poder ?
um sempre vence e o outro sempre perde. Articulações
incluindo sentimentos de mágoa, fracasso, abandono e de não-
existir são comuns ocorrerem.
Não é incomum na disputa de parcerias que a mulher
do alcoolista se veja substituída por ou outro ? homem,
parceiro, amigo de bar em que o marido alcoolista delega
para suas confidências. Ciúme mútuo ocorre regularmente. O
alcoolista transfere ao suposto amante o falo imaginário.
Culpado, pouco viril, estabelece com a sua mulher uma
relação possessiva e, por muitas vezes, deliróide, e com o
homem, uma relação homossexual. Como parceira, ela adquire
uma posição de gerenciamento do gozo dele que só ela
imagina conhecer. Entretanto, nos avanços da questão sobre
o gozo, Lacan no Mais Ainda, cita que ?não é possível dizer
se a mulher pode dizer alguma coisa ? se ela pode dizer o
que sabe dele?. E ainda, ?Há um gozo dela sobre o qual
talvez ela mesma não saiba nada a não ser que o
experimente ? isto ela sabe?.

Fragmentos de sessões:
Dora, mulher de um alcoolista: ?Deixo o meu marido
embriagado, caído no chão, no mesmo lugar para ele, quando
despertar, ver o que fez?. Essa mesma mulher diz-me: ?Eu já
estou calejada no que diz respeito ao alcoolismo, posso dar
explicações a quem quer que seja?, ou ainda: ?eu não sinto
nada por ele, somente pena?.
Destituída da posição feminina, só lhe resta estar
na posição da mãe fálica para o outro, aquela que procura
fazer do outro uma relação de objeto-dejeto dentro de sua
fantasia. Na posição histérica, Dora necessita do Outro,
porém para apontar a sua falta, já que, imaginariamente,
ela sabe com que o outro goza.

Maria, no decorrer de suas depressões, inquieta-se
ao pensar no falecido marido alcoolista ocasionado por uma
passagem ao ato. Nesse desaparecimento do marido, sob seu
olhar, criaram-se nela diversas formas de posição
subjetiva. Desde posição de ?heroína?, uma vez que ela
havia pedido a separação, até uma posição de ?culpada?, já
que ele, antes de morrer, lhe disse: ?Olha o que fizeram de
mim?. Maria não tolera a separação, a rivalidade para ela
segue um viéis mortífero. Maria não havia percebido,
entretanto, que o desaparecimento total não existe e as
articulações seguintes fazem a sua trilha no processo de
análise.

Fragmento de um outro caso: Diva vem ao
consultório, após marido acusá-la de ?traidora? por mandar
interná-lo à revelia. Sentindo-se acusada, teme que o
marido não mais a queira. Depois de algumas sessões, revela
receios quanto a perder o seu conforto atual proporcionado
por ele.
Amor-ódio entrelaçam-se aí, numa trama perigosa
onde a mulher para esse homem vai além das suas fantasias.
Diva, no auge de seu narcisismo, faz do seu homem alicerce
para construção a que consiste o princípio de prazer.
Na solução, para sua vida, do ter conforto,
arremessa-se para o extremo oposto, ameaçada de tudo
perder. Sentindo-se um pouco mais aliviada, não pode
suportar a continuidade das sessões na intenção de ir em
busca de seu ser, seu desejo.

Vera retorna à análise após casar-se. Depois de
várias tentativas de envolvimentos sem sucesso, insiste no
seu desejo, subvertendo ao imperativo de sua mãe, de
que ?ela não dava para o casamento por causa do seu
temperamento?.
Diante da indagação ?o que me fez unir a este
homem, sendo ele um alcoolista e drogado?? No transcorrer
da análise, Vera pode perceber que havia um traço de
identificação simbólica ? cria marca do excesso e não da
exceção que os unia. Porém, a droga usada por ela não ocupa
o mesmo lugar na economia psíquica do marido. Ela fazia uso
eventualmente, contudo não dosava-a nem esperava para o dia
seguinte. Diz: ?eu vejo que sou mais compulsiva que ele?.
Esse mais-de-gozar manifesta-se também sobre outras formas,
neste caso. Posições de ?mãe?, ?enfermeira?, são
incorporadas ao seu ser, porém frustradas. Procurando a
todo custo responder sobre o gozo do outro, viu que mesmo
sendo parceira de todas as horas, ainda assim, não se
sentia mulher.
Destituindo-se falicamente, bem como distanciando-
se do seu ideal de eu, procura reconstituir-se novamente.
No momento atual de sua análise, busca, incessantemente, o
lugar que a mulher e o homem representam mutuamente.

Mara alcoolista e grávida de seis meses chega à
sessão enraivecida, sentindo-se como uma criança, uma filha
para o marido. Não podendo usufruir do lugar da mulher para
esse homem, pensa em aceitar o convite de sua amiga para
experiências sexuais, como já as experimentara. Encontrando-
se ?carente?, como dizia, mas desistindo do convite, pensou
que, na verdade, uma mulher não poderia ser de fato como um
homem para uma mulher. Na medida em que direciona-se sair
da estrutura de ter o falo no momento atual de sua análise,
poderá talvez se colocar em outra posição no sentido de se
tornar um sintoma para o homem e vir a ser ?simplesmente?
uma mulher.


B I B L I O G R A F I A

LACAN, J. ?O Seminário, Livro 20: Mais, Ainda. RJ., Jorge
Zahar Editor, 1985
p. 100.

____________. ?O Seminário, Livro 20: Mais, Ainda. RJ.,
Jorge Zahar Editor,
1985, p. 119.

LECOEUR, B. ?A Clínica de um Casamento Feliz?: Elementos
para uma
clínica psicanalítica do alcoolista. Em O Homem
Embriagado. Centro
Mineiro de Toxicomania ? FHEMIG. Belo Horizonte,
1992, p. 23.

MILLER, J. A. Lógicas de la Vida Amorosa?. Primeira
Conferência. Jornadas
del Campo Freudiano. Buenos Aires, Ed. Manantial,
1989, p. 17.

SOLER, C. Conferência sobre ?O Dizer do Amor?. Universidade
Estácio de Sá.
Anotações pessoais, RJ., em 15.09.1998.






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