Ciência e Contemporaneidade.

Maricia Aguiar Ciscato

Publicado el: 2027-05-05


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No presente trabalho, a proposta é analisar algumas colocações de Martin Heiddeger no texto “Serenidade” e de Hannah Arendt em seu prólogo do livro “A condição humana” sobre o avanço técnico-científico.


Introdução

Nas diversas áreas de saber que hoje se propõe a estudar o homem e suas relações com o mundo, fala-se de transformações de nossa época que provocam um novo modo do humano ser no mundo. Este novo momento é marcado pelo avanço e domínio mundial do sistema capitalista e pelo avanço inevitável e evidente do discurso técnico e científico.

Dentre outros, psicanalistas e filósofos lançam-se ao pensamento meditativo e estudo sobre os impactos do avanço da ciência e do capitalismo na subjetividade e nas relações do homem com o mundo.

No meio psicanalítico, afirma-se que há novos sintomas presentes em uma possível ?nova clínica?, na qual o sujeito não se apresenta mais com uma divisão nítida entre consciente e inconsciente. Segundo o psicanalista italiano Massimo Recalcati:



?A clínica dos chamados novos sintomas é uma clínica que parece configurar-se mais além do princípio do desejo ou, em outros termos, é irredutível à clínica do sujeito dividido. De fato, na época contemporânea, o discurso capitalista (?) e o da ciência (promoção do saber especialista como solução pragmática do problema da verdade) realizam uma expulsão-anulação do sujeito do inconsciente.? (RECALCATI, mimeo)



Um exemplo bastante claro que relaciona capital e ciência é o fênomeno da ?toxicomania? (alienação e dependência do sujeito na droga), pois engendra avanço técnico-científico com oferta de mercado (novas drogas sintéticas produzidas de tempos em tempos transformam-se em febre de consumo entre os jovens). As inúmeras novas drogas/medicações lançadas por laboratórios diversos e a grande disseminação, em poucos anos, de propragandas de remédios em meios de comunicação de massa como televisão e rádio também nos permitem visualizar melhor o problema.

A lei atual do mercado leva em conta apenas a necessidade de produção de novos objetos ofertados como solução da angústia inerente ao sujeito. O fim da angústia e o fim do sujeito parecem ser o ponto de apoio do mercado. O movimento deixa de ser a partir da falta, ou seja, não é o sujeito que ao sentir-se angustiado move-se em busca de algo que ele acredite poder suprir sua falta. Hoje, é o mercado com seus avanços e novas descobertas que chega até o sujeito e o impele a comprar, por uma necessidade própria do mercado de manter-se em movimento. Segundo Recalcati, ?o sujeito contemporâneo não vai ao supermercado para procurar o que lhe falta, mas é o supermercado como agência da demanda convulsiva que indica ao sujeito aquilo que lhe falta.? (RECALCATI, mimeo).

No presente trabalho, a proposta é analisar algumas colocações de Martin Heiddeger no texto ?Serenidade? e de Hannah Arendt em seu prólogo do livro ?A condição humana? sobre o avanço técnico-científico. Destacam-se as preocupações de ambos os autores com relação à possibilidade de salvar o humano do avanço ? inevitável - da técnica engendrada pelo capital.


Com Heiddeger

Heiddeger, em ?Serenidade?, texto de 1955, evidencia uma mudança de época marcada pela ausência da maior marca do ser humano, o pensamento meditativo, e por uma supremacia do pensamento calculativo (técnico). Segundo ele: ?A crescente ausência de pensamento deve surgir de um processo que hoje corrói a marca mais íntima do homem: o homem está em fuga do pensamento?. E esclarece: ?há dois tipos de pensamento cada qual justificado e necessário a seu modo: pensamento calculativo e pensamento meditativo. Quando falamos que o homem contemporâneo está em fuga do pensamento, temos em vista o meditar.? (HEIDDEGER, 1955, mimeo).

Para Heiddeger, o florescimento de qualquer obra sólida, de qualquer meditar, depende do seu enraizamento no solo de sua terra natal. A produção de um homem depende das raízes que ele pôde cravar em sua história e em sua geografia. E é exatamente este poder de enraizamento que Heiddeger acredita estar ameaçado na presente época. O homem começa a distanciar-se não apenas de suas raízes, como também da terra - distancia-se da Terra e começa a penetrar o espaço cósmico. Segundo ele: ?Há séculos está em curso uma reviravolta em todas as noções fundamentais. Com isso o homem é deslocado para uma outra realidade. (?) Surge daí uma relação completamente nova do homem com o mundo e seu lugar nele.? (HEIDDEGER, 1955, mimeo). Nesta realidade completamente nova do homem com o mundo e com seu lugar nele, o pensamento meditativo perde, cada vez mais, seu espaço.

A própria linguagem ? acreditamos ser a linguagem o único meio pelo qual o pensamento meditativo pode ocorrer ? que nos últimos séculos apresentava-se carregada de possibilidades lingüísticas nas próprias trocas cotidianas, empobrece cada vez mais. O uso, cada vez mais comum, pela linguagem escrita ou falada, de sinais e chavões demonstra que uma transformação nas relações entre os homens está presente.

A perda da qualidade da linguagem, do enraizamento e do pensamento meditativo limitam e lançam o homem às restrições do pensamento calculativo. Heiddeger é enfático ao afirmar que a força do avanço técnico, a força do pensamento que calcula e inventa, é tamanha que resta muito pouco ao homem para barrar o efeito mortífero que ela pode carregar.



?o avanço técnico será cada vez mais rápido sem que nada possa detê-lo.(?) Há muito tempo esses poderes que, em todos os lugares e a cada instante pressionam o homem, limitam-no e arrastam ? há muito tempo esses poderes ultrapassaram a sua vontade e a sua capacidade de decisão?(HEIDDEGER, 1955, mimeo).



Frente aos poderes técnicos que limitam e arrastam, trata-se, para Heiddeger, de salvar o ser do homem. Ou seja, trata-se de salvar a possibilidade de o homem continuar a ser um ser meditativo, característica considerada por Heiddeger a mais própria do ser humano. Para tanto é preciso abrir espaço para o avanço da técnica, sem abrir mão do pensamento meditativo. Segundo ele, é afirmar e negar ao mesmo tempo, um sim e um não simultâneos. A ?serenidade? de que trata neste texto é exatamente esta, serenidade para aceitar e negar simultaneamente: serenidade para com as coisas.

O sentido do avanço galopante do saber técnico-científico ainda estaria oculto para Heiddeger e, além da serenidade para com as coisas, ele propôs uma abertura aos mistérios que estariam guardados neste avanço. A serenidade para com as coisas e a abertura para o mistério seriam válidas apenas como meio para permitir que, apesar do avanço do discurso científico e do pensamento calculativo, o pensamento meditativo mantenha um lugar no mundo. ?Trata-se de manter acordado o pensamento meditiativo.? (HEIDDEGER, 1955, mimeo).

Com Arendt

A partir desta breve leitura de alguns trechos do texto de Heiddeger, podemos acompanhar o raciocínio de Hannah Arendt em seu prólogo do livro ?A condição humana?. Assim como Heiddeger difere pensamento calculativo de pensamento meditativo, Arendt apresenta uma diferença entre conhecimento (know-how) e pensamento e expõe sua clara preocupação com o futuro do humano se ele se deixar escravizar pelo conhecimento e abandonar sua capacidade de pensar.

A partir do momento em que o primeiro satélite foi lançado no espaço cósmico, evidenciou-se o desejo tanto científico como popular de ?libertar? o homem de ?sua prisão na Terra?. Arendt afirma que é a Terra a ?quintessência? da condição humana e, aponta que um desejo de desenraizamento, para fazermos uso das palavras de Heiddeger, ou seja, que um desejo de cortar os laços que fazem do homem um filho da natureza está presente no avanço científico. E continua:



O mesmo desejo de fugir da prisão terrena manisfesta-se na tentativa de criar a vida numa proveta, no desejo de misturar, ?sob o microscópio, o plasma seminal congelado de pessoas comprovadamente capazes a fim de produzir seres humanos superiores? e ?alterar-(lhes) o tamanho, a forma e a função?; e talvez o desejo de fugir à condição humana esteja presente na esperança de prolongar a duração da vida para além do limite dos cem anos. (ARENDT, 2004, p.11)



Para Arendt, assim como para Heidegger, uma espécie do que chamaremos aqui de empuxo ao avanço científico apresenta-se com uma força que supera a simples vontade do homem de limitar certas pesquisas e usos de descobertas. O pensamento deveria coordenar o uso do conhecimento, mas constata-se que não é capaz de fazê-lo.



se realmente for comprovado esse divórcio definitivo entre o conhecimento (no sentido mordeno de know-how) e o pensamento, então passaremos, sem dúvida, à condição de escravos indefesos, não tanto de nossas máquinas, mas de nosso know-how , criaturas desprovidas de raciocíonio, à mercê de qualquer engenhoca tecnicamente possível, por mais mortífera que seja.(ARENDT, 2004, p.11)



A questão do avanço da ciência e da tecnologia passa a ser, portanto, uma questão política. Não apenas porque entra em jogo o futuro da humanidade e a possibilidade de viver subjugada às descobertas científicas, por mais mortífera que sejam, como afirma Arendt, mas também porque entra em questão o discurso. A linguagem técnico-científica impossibilita a potência crítica e criativa do discurso e não possui meios para pensar seu próprio conhecimento.

Segundo Arendt, o motivo pelo qual se deve duvidar do julgamento político dos cientistas deve-se ao fato ?de que habitam um mundo no qual as palavras perderam o seu poder. E tudo o que os homens fazem, sabem ou experimentam só tem sentido na medida em que pode ser discutido.? (ARENDT, 2004, p.12).

A proposta maior de seu livro ?A condição humana? é a de realizar uma reflexão sobre ?o que estamos fazendo?. A linguagem entra aqui como o meio através do qual se faz o político, que só pode se dar no mundo na relação entre os homens. Para Arendt, portanto, o político não é próprio do homem, mas do entre os homens. E a questão do avanço técnico científico torna-se uma situação política uma vez que ?sempre que a relevância do discurso entra em jogo, a questão torna-se política por definição, pois é o discurso que faz do homem um ser político.? (ARENDT, 2004, p.). Arendt justamente coloca em discussão o que estamos fazendo neste ?advento de uma era nova e desconhecida.? (p.14)


Conclusão

Após esta breve passagem pelos autores trabalhados, podemos destacar um ponto em comum entre eles: a preocupação com possíveis formas de fazer barreira a um avanço do discurso técnico-científico capaz de eliminar algo próprio do humano (pelo menos do humano tal como conhecido na era moderna).

Para a psicanálise, apresentou-se como ponto essencial manter aberta a possibilidade de fazer emergir o sujeito do inconsciente, o sujeito dividido, frente ao homem chapado apresentado e moldado pelo discurso científico agenciado pelo discurso capitalista, ou seja, não deixar sucumbir o sujeito desejante do inconsciente frente às demandas criadas pelo mercado.

Para Heiddeger, o fundamental aparece como possibilidade de manter acordado o pensamento meditativo, não permitindo que o pensamento calculativo (técnico) expulse definitivamente a capacidade de meditar do âmago humano.

Para Arendt, a tomada da questão científica como uma questão política e, portanto, própria do campo do discurso, da linguagem e do pensamento ? para além do conhecimento, do know-how ? constitui a única forma de poder impedir que o homem se torne escravo de um uso mortífero do avanço científico.

As três linhas de reflexão concordam que há uma espécie de empuxo ao avanço de um caminho, pela via da ciência, que mortifica algo do humano e que é necessário uma barreira para que uma certa ?quantidade de humanidade? não seja perdida. A diferença fundamental está nos pontos selecionados por cada uma das linhas como ponto-chave pelo qual se deve lutar, a saber, sujeito do inconsciente, pensamento meditativo e discussão política.

Para finalizar, é interessante notar que a linguagem surge como ponto fundamental para as três linhas vistas, embora não tenha sido diretamente trabalhada pelos autores. Em nosso entender, ela se apresenta como o meio que possibilita que seja sustentado o ponto-chave de cada linha. Não há pensamento meditativo sem linguagem. Não há discussão política sem linguagem. E não há formas de acessar o real do sujeito do inconsciente que não seja através da linguagem. É, portanto, através da linguagem que se apresentam as possibilidades de luta para evitar que o humano seja todo mortificado. É ela quem abre caminho para o acesso daquilo que (ainda?) pulsa no homem ? a discussão no campo político para Arendt, o saber meditativo para Heidegger e o real do inconsciente para a psicanálise.



REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

ARENDT, H. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004.

HEIDDEGER, M. Serenidade. Tradução de Tito Marques Palmeiro. Mimeo [1955].

RECALCATI, M. A questão preliminar na época do Outro que não existe. Tradução de Anna Maria Lambert. Mimeo.



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