A PULSÃO

Arturo Blanco

Publicado el: 2022-09-03


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A Pulsão, como toda ideia geral, especulativa, depende inteiramente da épistémè de sua época.





A PULSÃO

Arturo S. Blanco

A Pulsão, como toda ideia geral, especulativa, depende inteiramente da épistémè de sua época. Freud contribuiu de maneira primordial a descentrar, ou melhor a desmistificar, o lugar do homen no cosmos e a criar um novo épistémè pos-iluminista em ciências humanas. Mas, como se pode dizer de maneira alegórica, o descobridor de um novo mundo pertence necessariamente ao velho, e não pode deixar de trabalhar com o material teórico que oferece sua época.Os filosofos têm insistido em que, desde o ponto de vista ético, é muito importante a regulação da vida pulsional por meio da razão
Trieb (Pulsão) significa o broto, uma força germinativa; um impulso, impulsão, propulsão. É a forma originária do querer.

Freud num artigo publicado em 1915 intitulado Trieb und trieb shiksal ?As vicissitudes da pulsão?, diz que há que se destacar 4 momentos da pulsão a saber: O Drang (impulso) força constante que tem sentido em sua relação com a Quelle (fonte) que inscreve na economia da pulsão sua estrutura de borda , O objekt (objeto) indeterminado e o ziel (fim).

Há uma questão singular na pulsão e é o que Freud denomina ?reitz?(excitação) que é diferente de toda excitação exterior , é um reitz interior, então no ?trieb? não se trata em absoluto de uma pressão interior, de uma necessidade tal como a fome, ou a sede. Freud acrescenta que é por excitação da pulsão que certos elementos desse campo são catexiados pulsionalmente e que esse campo está constituido pelo ?real ich ? que está sustentado pelo sistema nervoso. A catexia constitui uma energia e como diz Lacan não é qualquer energia e sim é uma energia potencial, Freud dirá que a pulsão é então uma ?KonstanteKraft? e não uma ?stoss-kraft? segundo Lacan essa ? stoss-Kraft? não é outra coisa que uma forma viva, uma força cinética e na pulsão não se trata de uma força cinética, a descarga é de outro tipo, está situada num outro plano. Fundamentalmente não é de natureza biológica.

Se pensamos na descarga sem dúvida veremos que esta tem a ver com a satisfação ?Befriedigung? da pulsão, mas que quer dizer isto? E aqui Freud é bem explicito e diz que a sublimação é também a satisfação da pulsão quando é inibida em seu fim ?Zielgehmmt? ou seja, quando não o alcança. A sublimação então é a satisfação da pulsão sem repressão.

Esta satisfação pela via do desprazer é segundo Lacan a ?lei do prazer? e que necessita de um ?grande trabalho?.

?. Ao mesmo tempo não podemos dizer que o fim não se alcança enquanto satisfação e mais adiante acrescenta: ? o que temos ante nós na análise é um sistema no qual tudo se acomoda, e que alcança sua própria classe de satisfação. Se nós participamos disso enquanto analistas é na medida em que pensamos que há outras vias mais curtas e que ao nível da pulsão, o estado da satisfação deve ser retificado?.

A pulsão ao aprisionar seu objeto aprende que não é por aí que se satisfaz e é precisamente porque nenhum objeto pode satisfazer a pulsão e aí incorporamos o termo impossível, o impossível da pulsão se satisfazer, e que em última instância este objeto da pulsão não tem nenhuma importância , resulta totalmente indiferente .

A pulsão se parece a uma montagem concebida numa perspectiva referida à finalidade, se apresenta como se não tivesse nem pé nem cabeça diz Lacan ?como uma colagem surealista.

Tudo isso que vimos até agora poderiamos caracterizá-lo como introdução ao tema da pulsão, entraremos agora num segundo momento ?das lieben?, o ato de amor.

Segundo Freud esse ato de amor não pode ser considerado como a convergência do sexual, pois se assim fosse tudo isto terminaria num ?ganz? ou seja, num todo compreensível, e observamos que isto não satisfaz em absoluto, e que em relação a finalidade biológica da sexualidade ou seja a reprodução, as pulsões são parciais e sempre estão ligadas a um fator econômico e que este fator depende das condições com as que se exerce o princípio do prazer e que o faz sob o termo de ?real ich? (eu real) que funciona como um sistema que assegura uma relativa homeostase das funções internas. Por a existência do sistema homeostático é que as pulsões são sempre parciais. A pulsão então participa na vida psíquica acomodando-se à estrutura de abertura e fechamento que caracteriza o inconsciente.

Se nos colocamos como diz Lacan nos dois extremos da experiência analítica, o reprimido primordial é um significante e o que se organiza nele para constituir um sintoma também são significantes, tanto o reprimido como o sintoma são homogêneos e podem ser reduzidos a um som significante e tudo isto numa sincronia. Num outro extremo esta a interpretação (mântica) como metonímia, assim a interpretação aponta o desejo que de alguma forma é idêntico a ela, sendo assim o desejo é a interpretação mesma e nesse intervalo a sexualidade na forma de pulsões parciais, vai-se constituindo num ?dasein ?(existência) da sexualidade.

Concluimos novamente que a sexualidade só se realiza pelas operação das pulsões enquanto parciais e são parciais em relação à finalidade biológica da sexualidade. Toda essa reflexão nos assinala a intrínseca relação entre nosso corpo e o significante como cultura , da vida e da morte.

Lacan agrega uma referência a Heráclito.Este diz: ?Ao arco lhe foi dado o nome de vida e sua obra é a morte? comprovamos com essa metáfora que o sexo no ser vivente determina a morte.
Freud divide as pulsões em três vozes: a ativa, a passiva e a reflexiva , este é o ponto de vista mais tradicional. Para Lacan isto é sobretudo um recurso linguístico já que o fundamental da pulsão é seu percurso circular e que este ir e voltar ?verkehrung? não se interrompe.
E para ilustrá-la escolhe a ?schauslust? (alegria ? prazer ? gozo de ver).
e ao sadomasoquismo, aclarando que fundamentalmente quando se refere ao masoquismo, diz que não há dois tempos nas pulsões senão três já que se tem que distinguir bem, não só a volta em círculo da pulsão, mas também o ?não aparecer? num terceiro tempo . A saber diz Lacan de ?ein neues subjekt? (um novo sujeito), não que já houvesse um senão que o novo é que apareça um sujeito e que aparecerá quando a pulsão possa completar seu percurso circular e agregará: Só com sua aparição ao nível do outro é que a função da pulsão pode realizar-se. e que não se realiza ? não se satisfaz ? com a união sexual isto gera evidentemente um mistério do ?Zielgehemmt? (destinado) e se este não é o destino da pulsão qual é? É esse retorno em círculo em busca desse objeto que marca esse lugar vazio e que denominamos objeto a que assinala que nenhum alimento satisfará jamais a pulsão oral senão contornando esse objeto eternamente carente.
A passagem da pulsão oral à anal não se dá por um processo de maturação senão pela intervenção da demanda do outro e Lacan agrega :não existe nenhuma metamorfose natural entre a pulsão oral e a anal, ou da anal à fálica. É necessário considerar a pulsão no sentido de uma constante ?kraft? que produz uma tensão estacionária nesse percurso constante de ida e volta contornando o objeto, organizando esta estrutura fechada num movimento perpétuo. Esta idéia nos conduz a converter a manifestação da pulsão como se fosse o modelo de um acéfalo pois, não tem mais relação com o sujeito que a topologiza. Assim então, o inconsciente se articula como situando-se nas iâncias (aberturas) que as catexias significantes originam no sujeito e que se representam com o algorítimo losango que se coloca em toda a relação do inconsciente entre a realidade e o sujeito.
(Realidade ? inconsciente ? sujeito )
Seguindo a Freud como diz Lacan quando este nos fala da ?Schaulust? ver ou ser visto é a mesma coisa? Só se o inscrevermos em termos de significante e que o ?shaulust? também se manifeste nessa estrutura radical, que é a perversão, onde o sujeito não se encontra ainda colocado e que o fundamental é como o sujeito se coloca na estrutura significante. Assim dirá Lacan mais adiante que no voyerismo o sujeito enquanto se trate de ver não está alí ao nível da pulsão de ver, e sim em sua condição de perverso e que o singular de tudo isto é que na perversão o alvo é alcançado, o objeto aqui é a mirada que faz alvo no tiro ao alvo. O sujeito se surpreende como sendo todo ele mirada oculta. A mirada é um objeto perdido e derrepente encontrado e não é a vergonha pela introdução do outro, o que busca com a sua mirada, é esse objeto perdido e nunca encontrado e alí fantasmará qualquer magia de presença, o que busca não é o falo mais justamente a sua ausência. O que se busca com a mirada é o que não se pode ver. Se a estrutura da pulsão se constitui pela aparição do outro só se completa em seu retorno sendo esta a verdadeira pulsão ativa. O desejo verdadeiramente aponta ao outro, a vítima no exibicionismo é vítima enquanto referida a algum outro que a mire. Freud dirá que no princípio da pulsão sadomasoquista a dor não aparece para nada, se trata de uma ?herrshaft? (domínio) de uma ?bewalti-gung? (violência) que o sujeito se faz a si mesmo e alí é que se introduz a dor na medida que o próprio sujeito se transforma no sujeito da pulsão. A dor entra em cena enquanto o sujeito o experimenta do outro e aqui se revela o caminho da pulsão entanto esta se converte na única forma permitida da transgressão para o sujeito em relação ao princípio do prazer.

O sujeito diz Lacan perceberá que seu desejo é só um vão rodeio que busca pescar, enganchar o gozo do outro e que ao outro intervir perceberá que há um gozo além do princípio do prazer.
Na estrutura perversa se trata de um efeito inverso ao do fantasma ,o sujeito se determina a si mesmo como objeto em seu encontro com a divisão da subjetividade , na medida que o sujeito se faz o objeto de outra vontade é quando a pulsão sadomasoquista se constitui. Só num segundo tempo, dirá Freud , o desejo sádico é possível em relação a um fantasma.

Lacan em seu texto Kant com Sade dirá que o sádico ocupa o lugar do objeto sem sabê-lo em benefício de um outro para cujo gozo vai exercer sua opção de perverso sádico, sendo então o sadismo uma denegação do masoquismo, mas o objeto do desejo em seu sentido comum, ou é um fantasma que sustenta o desejo ou uma isca.
Trataremos agora de conduzirmo-nos com Lacan desde o amor até a libido, a esta há que pensá-la como um órgão não só como parte do organismo senão também como órgão ? instrumento.
No sujeito só captamos pulsões parciais, a total representação da pulsão sexual Freud disse: não esta aí. O sujeito encontrará seu desejo cada vez mais dividido na metonímia da palavra, o efeito da linguagem sempre esta misturado ao campo do Outro . O sujeito provém de sua sujeição ao campo do Outro , por isso tem que sair dele e compreender que a mesma dificuldade que ele encontrará também aparece no outro.

Lacan introduz o objeto ?a? na pulsão, este objeto ?a? assinala a impossibilidade do significante.
Passível de ser representado por qualquer objeto, o objeto da pulsão
toma as características do objeto ?a?.
Propõe tambem que a pulsão genital se existe não esta em absoluto articulada com outras pulsões e se não existe, só tem que se formar em outra parte , no campo do Outro é onde a pulsão genital se organiza , ou seja, que a pulsão genital esta submetida à situação edípica e às estruturas elementares de parentesco, sendo isso caracterizado como campo da cultura. Freud ao referir-se ao amor, diz que para concebê-lo a que se referir necessariamente a outra classe de estrutura distinta a da pulsão e a essa estrutura a divide em três níveis: o nível do real, do econômico e do biológico. Ao nível do real lhe interessa o que é indiferente; ao nível do econômico o que produz prazer ou desprazer e só no nível biológico, na oposição atividade-passividade se apresenta a posição amar e ser amado. Desta forma Freud considera que o amor em sua essência é paixão sexual do eu total (gesamt ich).

O auto erotismo consistiria no seguinte ? e o próprio Freud o sublinha: que não haveria surgimento dos objetos se não houvesse objetos bons para mim, esse seria o critério. Aqui se constitui então Lust ? ich (prazer do eu) e também o campo do Unlust (desprazer) do objeto como resto, como alheio, o objeto bom por conhecer se vai definir no campo do Unlust, entanto que os objetos do campo do lust ? ich são amáveis. Neste momento as funções pulsionais não aparecem senão as que não são verdadeiras pulsões e que Freud as chama Ich trieb (pulsão do eu). O nível do ich é não pulsional é aí que Freud funda o amor. Tudo o que é definido ao nível do eu não terá o valor sexual. Então a relação atividade ? passividade cobre a relação sexual?. Freud nunca sustentou que psicologicamente a relação masculino ? feminino se possa entender de algum outro modo que não seja da oposição atividade-passividade, enquanto que a oposição masculino-feminino nunca é alcançada.

Voltando à função escópica e em relação à pulsão, do que se trata é de se fazer ver e Freud acrescenta: depois é se fazer ouvir; vai e vem do outro. A pulsão oral organiza fantasma devoradores, fazer-se comer e segundo Lacan se fazer chupador (vampiro) e ao nível da pulsão anal é que se organiza a função da oblatividade.

Consideraremos agora o tema da libido que é caracterizada por Lacan como um orgão lâmina extra plana que passa por todas as partes e que tem as características de não existir e que paradoxalmente é puro instinto de vida., de vida imortal e que é o que se substrai do ser vivo por sua reprodução sexuada. E disto são representantes as formas que podemos conhecer dos objetos ? a ? seio, placenta etc..

A relação com o Outro é o que faz surgir o que representa a lâmina que é o que o sujeito perde ao ter que passar pela reprodução sexuada.
A lâmina tem uma borda que se insere nas zonas erógenas, é a que liga o inconsciente às pulsões orais, anais etc..(br)
Assim as duas caras da pulsão se conciliam, por um lado presentifica a sexualidade no inconsciente e por outro representa em sua essência a morte.

Desta articulação do sujeito no campo da pulsão e do sujeito no campo do Outro, desta busca para unir-se depende que exista um suporte para o total impulso sexual.
Freud ao distinguir o campo pulsional e o campo narcisico a do amor, ao remarcar que ao nível do amor existe reciprocidade de amar a ser amado, e que no campo do outro, se trata de uma pura atividade para minha própria atividade pulsional.





Referencias bibliograficas do tema Pulsâo

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"A teoria das pulsões, é por assim dizer, nossa mitologia. As pulsões são entidades míticas, magníficas em sua imprecisão."

(FREUD, 1933)(br)(br)


Pode-se encontrar, em diferentes artigos de Freud, a definição de pulsão. Em 1911, quando faz um estudo teórico da paranóia, no caso Schreber define a pulsão

"... como sendo o conceito sobre a fronteira entre o somático e o mental (...) o representante psíquico de forças orgânicas. Ademais, aceitamos a distinção popular entre pulsões do ego e pulsão sexual, pois tal distinção parece concordar com a concepção biológica de que o indivíduo possui dupla orientação, visando por um lado a autopreservação e, por outro, a preservação das espécies". (FREUD, 1911, p. 99)


Em 1915, na terceira edição dos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905), Freud faz alguns acréscimos, decorrentes de suas investigações, e entre eles um que se refere à definição de pulsão, onde expressa que:

"Por ?pulsão? deve-se entender provisoriamente o representante psíquico de uma fonte endossomática e contínua de excitação em contraste com um ?estímulo?, que é estabelecido por excitação simples vinda de fora. O conceito de pulsão é assim um dos que se situa na fronteira entre o psíquico e o somático. A mais simples e mais provável suposição sobre a natureza das pulsões pareceria ser que, em si uma pulsão não tem qualidade, e no que concerne à vida psíquica deve ser considerada apenas como uma medida de exigência de trabalho feita à mente. O que distingue as pulsões uma da outra e as dota de qualidades específicas é sua relação com as fontes somáticas e com seus objetivos. A fonte de uma pulsão é um processo de excitação que ocorre num órgão, e o objetivo imediato da pulsão consiste na eliminação deste estímulo orgânico". (FREUD, 1905, p.171)


No que concerne à escolha de um objeto, Freud propõe que "...mesmo após a atividade sexual ter-se desligado da ingestão de alimentos, persiste uma importante parte desta primeira e mais significativa de todas as relações sexuais, a qual ajuda a preparar a escolha de um objeto e assim a restaurar a felicidade que foi perdida. O encontro de um objeto é, na realidade, um reencontro dele".


(FREUD, 1905, p.229)
Retoma o conceito de pulsão nesse artigo. É o terceiro momento em que ele a define: "Se agora nos dedicarmos a considerar a vida mental de um ponto de vista biológico, uma ?pulsão? nos aparecerá como sendo um conceito situado na fronteira entre o mental e o somático, como o representante psíquico dos estímulos que se originam dentro do organismo e alcançam a mente, como uma medida de exigência feita à mente no sentido de trabalhar em conseqüência de sua ligação com o corpo". (FREUD, 1915a, p.142)


Freud (1915) apresenta uma caracterização geral das pulsões sexuais:

"São numerosas, emanam de grande variedade de fontes orgânicas, atuam em princípio independentemente uma da outra e só alcançam uma síntese mais ou menos completa numa etapa posterior. A finalidade pela qual cada uma delas luta é a consecução do ?prazer do órgão?; somente quando a síntese é alcançada é que elas entram a serviço da função reprodutora, tornando-se então identificáveis, de modo geral, como pulsões sexuais. Logo que surgem, estão ligadas às pulsões de autopreservação, das quais só gradativamente se separam; também na sua escolha objetal, seguem os caminhos indicados pelas pulsões do ego". (FREUD, 1915a, p. 146-147)


Quanto às pulsões, Freud descreve: "As mais abundantes fontes dessa excitação interna são aquilo que é descrito como as ?pulsões? do organismo, os representantes de todas as forças que se originam no interior do corpo e são transmitidas ao aparelho mental..." (FREUD, 1920, p.51)


Freud, em 1920, diz que "...uma pulsão é um impulso, inerente à vida orgânica, a restaurar um estado anterior de coisas, impulso que a entidade viva foi obrigada a abandonar sob a pressão de forças perturbadoras externas..." (FREUD, 1920, p. 53-54)



De acordo com Freud:

"Estaria em contradição à natureza conservadora das pulsões que o objetivo da vida fosse um estado de coisas que jamais houvesse sido atingido. Pelo contrário, ele deve ser um estado de coisas antigo, um estado inicial de que a entidade viva, numa ou noutra ocasião, se afastou e ao qual se esforça por retornar através dos tortuosos caminhos ao longo dos quais seu desenvolvimento conduz. Se tomarmos como verdade que não conhece exceção o fato de tudo o que vive, morrer por razões internas, tornar-se mais uma vez inorgânico, seremos então compelidos a dizer que ?o objetivo de toda vida é a morte?, e, voltando o olhar para trás, que ?as coisas inanimadas existiram antes das vivas". (FREUD, 1920, p. 55-56)



Pulsões parciais que têm como função "...garantir que o organismo seguirá seu próprio caminho para a morte, e afastar todos os modos possíveis de retornar à existência inorgânica que não sejam os imanentes ao próprio organismo. (...) o organismo deseja morrer apenas do seu próprio modo. Assim, originalmente, esses guardiães de vida eram também os lacaios da morte". (FREUD, 1920, p.57)


Freud propõe que:

"... a união de uma série de células numa associação vital (...) se tornou um meio de prolongar a sua vida. Uma célula ajuda a conservar a vida de outra, e a comunidade de células pode sobreviver mesmo que as células individuais tenham de morrer. [E, numa tentativa de aplicar a teoria da libido à relação mútua das células, supõe que] (...) as pulsões de vida ou pulsões sexuais ativas em cada célula tomam as outras células como seu objeto, que parcialmente neutralizam as pulsões de morte (isto é, os processos estabelecidos por estas) nessas células, preservando assim sua vida, ao passo que as outras células fazem o mesmo para elas e outras ainda se sacrificam no desempenho dessa função libidinal. As próprias células germinais se comportariam de maneira completamente ?narcisista? (...). As células germinais exigem sua libido, a atividade de suas pulsões de vida, para si mesmas, como uma reserva para sua posterior e momentosa atividade construtiva". (FREUD, 1920, p. 69-70)
´

Freud esclarece sua terminologia assinalando que a pulsão sexual foi transformada em Eros que visa "... reunir e manter juntas as partes da substância viva. [Sugere que] ...Eros opera desde o início da vida e aparece como uma ?pulsão de vida? em oposição à ?pulsão de morte?, criada pela animação da substância inorgânica". (FREUD, 1920, p. 82n)






"A oposição entre as pulsões do ego e as pulsões sexuais transformou-se numa oposição entre as pulsões do ego e as pulsões de objeto, ambas de natureza libidinal. Em seu lugar, porém, surgiu uma nova oposição entre as pulsões libidinais (do ego e de objetos) e outras pulsões, quanto às quais há que se supor que se achem presentes no ego e que talvez possam ser realmente observadas nas pulsões destrutivas." (FREUD, 1920, p. 82n)


E, quanto à comunicação interna das pulsões, segundo Freud "...as pulsões de vida têm muito mais contato com (...) a percepção interna, surgindo como rompedoras da paz e constantemente produzindo tensões cujo alívio é sentido como prazer, ao passo que as pulsões de morte parecem efetuar seu trabalho discretamente".(FREUD, 1920, p. 84-85)



Freud mantém a idéia de que "...as pulsões de morte são, por sua natureza, mudas, e que o clamor da vida procede, na maior parte, de Eros". (FREUD, 1923, p .62)


"As forças que presumimos existir por trás das tensões causadas pelas necessidades do id são chamadas de pulsões. Representam as exigências somáticas que são feitas à mente". (FREUD, 1940, p.173)


"Nas funções biológicas, as duas pulsões básicas operam uma contra a outra ou combinam-se mutuamente. Assim, o ato de comer é uma destruição do objeto com o objetivo final de incorporá-lo, e o ato sexual é um ato de agressão com o intuito da mais íntima união. Esta ação concorrente e mutuamente oposta das duas pulsões fundamentais dá origem a toda a variedade dos fenômenos da vida. A analogia de nossas duas pulsões básicas estende-se da esfera das coisas vivas até o par de forças opostas - atração e repulsão - que governa o mundo inorgânico". (FREUD, 1940, p. 174)



"Uma porção de autodestrutividade permanece interna, quaisquer que sejam as circunstâncias, até que, por fim, consegue matar o indivíduo, talvez não antes de sua libido ter sido usada ou fixada de uma maneira desvantajosa. Assim, é possível suspeitar que, de uma maneira geral, o indivíduo morre de seus conflitos internos, mas que a espécie morre de sua luta mal sucedida contra o mundo externo se este mudar a ponto de as adaptações adquiridas pela espécie não serem suficientes para lidarem com as dificuldades surgidas". (FREUD, 1940, p. 175)






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