Frederic Jameson defende a reinvenção da utopia

KATARINA PEIXOTO

Publicado el: 2003-12-03


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Crítico de arte norte-americano denuncia homogeneização cultural e idiotia promovidas pela lógica do mercado.







Frederic Jameson defende a reinvenção da utopia



Crítico de arte norte-americano denuncia homogeneização cultural e idiotia promovidas pela lógica do mercado.

KATARINA PEIXOTO

Numa tarde de calor senegalês e sala lotada, o painel Produção Simbólica e Identidade dos Povos trouxe um dos mais renomados críticos de arte contemporâneos. O norte-americano Frederic Jameson, autor, entre outros, de ?A cultura do dinheiro? (Vozes, Coleção Zeroàesquerda) e ?Periodizando os anos 60?, fez um fulgurante diagnóstico da cultura na sociedade contemporânea. Professor na Duke University, na Carolina do Norte, Jameson expôs os limites do discurso e da ação política numa sociedade imersa na ?pobreza de suas formas de vida?. Sua fala foi seguida pelo professor Michael Löwy, que trouxe à baila um dos maiores inspiradores do levante estudantil de maio de 68, em Paris e autor de ?A Sociedade do Espetáculo?, Guy Debord.

Jameson fez sua intervenção em três tópicos: globalização e ?desconexão?, inquietação política e as tarefas para o futuro. ?A história anda rápido demais atualmente. Para compreender a realidade e os desafios que temos pela frente é preciso desacelerar?. Um dos problemas tributários da ?aceleração? que a globalização trouxe, estaria na perda das perspectivas totalizantes da cultura. Isso teria levado ao equívoco das políticas compensatórias. ?Parece que muitas formas políticas atuam para compensar os males do capital. Um exemplo disso é a luta ecológica, hoje?. No lugar de compreender o que causa a destruição do meio ambiente e tratar de confronta-lo, a luta ambiental estaria preocupada em ?preservar o que resta?. Isso se deveria também ao que denomina de ?complexo de inferioridade da esquerda?.

Neste ?complexo? estaria a chave das dificuldades de superação do discurso neoliberal, baseado numa suposta inevitabilidade da história. Isso teria levado ao ?cenário de engaiolamento? das possibilidades de reinvenção política e cultural numa sociedade dominada pelo ?mercado livre?. ?O que muda tudo é, em ultima instância, uma variedade de causas centradas num único mecanismo que, em sua forma econômica, é o mesmo desde o neolítico e que envolve a destruição progressiva da autonomia?. A falta de autonomia teria penetrado de tal maneira as esferas da vida que a ?auto-alimentação? cultural, inclusive dos partidos políticos, teriam sido subjugadas pela lógica da troca que precisa dominar a cultura.

Homogeneização cultural e idiotia

Para o professor norte-americano, a homogeneização cultural, em seu vasto âmbito de atuação, dos alimentos à música, do cinema à publicidade, conduziria a uma idiotia. ?No mundo do mercado livre, mesmo se não há mais pobreza, há uma forma mais pobre de vida?. A subjugação de todas as esferas da vida à condição de mercadoria, levaria ao fato de que ?em vez de falar de nossos próprios valores, termos que falar de novos tipos de consumo?. E a que qualquer perspectiva diferente ?pareça ser uma fantasia utópica?.

Todas as expressões simbólicas, segundo ele, estão conectadas numa forma de vida totalmente interconectada. A alternativa à ?conexão? do mercado poderia ser o que Jameson chama de desconexão. ?Será que um país pode ter sucesso num mundo globalizado se ele romper com a lógica da troca? Se um país anti-capitalista se desconectar e tentar uma outra coisa, será que poderia ter sucesso? Será que a desconexão é conservadora? Será que os movimentos anticapitalistas atuais não podem se alimentar dos serviços da globalização? Não sei responder, mas essa é uma pergunta que precisa ser feita?.

Risco do Pós-Moderno

Essa questão envolve um ponto central no seu discurso: as dificuldades do conformismo diante da tese da inevitabilidade da história. ?A crise do perigo pós-moderno? estaria na redenção a um sistema que não admite o contraditório. ?Mas será que um sistema é tão infalível que não admite questionamento? Então a coisa é ainda mais grave?. As dificuldades trazidas pela dominação cultural penetrariam na linguagem, no conhecimento e no discurso, justificando a noção de que tudo é fragmento e nada tem um elo de sentido que escape ao consumo. Mas essa linguagem fragmentada guarda muitas possibilidades. Jameson defendeu que a função política principal da esquerda hoje está na tentativa de fazer uma arte e uma linguagem mais didáticas, como conseguiu o pós-modernismo. ?As palavras da esquerda estão distantes da vida das pessoas?. Mas o desafio de encontrar uma abordagem contemporânea reside no obstáculo do cinismo que a homogeneização cultural representa.

A Crítica da Razão Cínica

A tese de Jameson é que os obstáculos da ?desconexão? do discurso dominante não estão na falta de cultura. ?A razão cínica não é resultado da ignorância, mas de um conhecimento?. E diz como esse discurso funciona. ?É o sistema que está falando: ele diz: É a ganância que move o mundo?. Ou, de outra forma: ?a natureza humana é má?. Junto a isso, dizem: ?Revoluções são sempre sinônimo de fracasso, dão sempre em violência e sangue?. Para ele, ?acreditar nisso é acreditar na má natureza humana?, o que implica, sobretudo, aceitar o fracasso da ética. Porém, a indignação, para o professor, não pode ficar restrita à denúncia. ?Precisamos pensar formas superiores de indignação?.

Os limites da indignação esbarram na comunicação uniformizada e dominada pela ?conexão? consumista que orienta a ?razão cínica?. Uma das conseqüências disso estaria na certeza de que ?já sabemos tudo?. É aí, diz Jameson, que se apresentam as ?tarefas da esquerda?: ?Mesmo que não haja nada a revelar, a tarefa é fazer a conexão interna entre as notícias, sabendo ligar os fatos ao que os determina. Como se faz isso? ?Com a luta do discurso que supere a linguagem do mercado livre e reinvente a utopia, como diz esse Fórum: um outro mundo é possível?.

Um mundo em que caibam muitos mundos

A frase zapatista, citada pelo sociólogo Michael Löwy, é o ponto de partida para a invenção de uma ?nova universalidade humana, de uma nova civilização, de uma civilização da solidariedade, do reconhecimento?. Löwy defende que sem resistência cultural, não há como enfrentar ?a corrupção geral de um sistema, que alcançou seu desenvolvimento máximo?. Compreendendo essa corrupção de um modo não somente financeiro, mas cultural, ele relembra Guy Debord, que teria revelado como ?o capital transforma os sujeitos em átomos passíveis da mais completa dominação?, lançou um manifesto contra a mercantilização do espetáculo.

Löwy é otimista. A luta contra o fetichismo do espetáculo que, num primeiro momento tem a vertente de resistência das identidades culturais, alcança o sentido de um movimento que já estaria acontecendo. ?A grande mídia dominante insiste que o movimentos internacionais de protestos seriam contra a globalização. Esse é um movimento de movimentos, na verdade alter-mundialista?, do qual depende a luta do discurso que Jameson defendeu. ?Davos é a capital do fetichismo da mercadoria, e Porto Alegre, o caldo de cultura da resistência?. A luta já começou.







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