Os diários íntimos na Internet

Paula Sibilia

Publicado el: 27/04/08


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Este artigo aborda uma prática de expressão e comunicação surgida recentemente na
Internet: a dos diários pessoais publicados na Web por usuários do mundo inteiro, seja no
formato dos blogs ou das webcams. Estes fenômenos parecem recriar um hábito cuja
sentença de morte já tinha sido decretada, que teve seu auge nos séculos XVIII e XIX e
estava fortemente vinculado à sensibilidade da época: a paciente e minuciosa “escrita de si”
nos diários íntimos.




Os diários íntimos na Internet
e a crise da interioridade psicológica

Paula Sibilia

Mestre em Comunicação, Imagem e Informação (IACS/UFF) e doutoranda em
Comunicação e Cultura (ECO/UFRJ)

De: http://www.comunica.unisinos.br/tics/textos/2003/GT12TB6.PDF

RESUMO:
Este artigo aborda uma prática de expressão e comunicação surgida recentemente na
Internet: a dos diários pessoais publicados na Web por usuários do mundo inteiro, seja no
formato dos blogs ou das webcams. Estes fenômenos parecem recriar um hábito cuja
sentença de morte já tinha sido decretada, que teve seu auge nos séculos XVIII e XIX e
estava fortemente vinculado à sensibilidade da época: a paciente e minuciosa “escrita de si”
nos diários íntimos. A intenção é focalizar um aspecto especialmente significativo das
novas “narrativas do eu”: sendo expostas aos milhões de olhos que têm acesso à Internet, as
confissões e as imagens cotidianas dos autores revelam uma peculiar inscrição na fronteira
entre o extremamente privado e o absolutamente público. Intui-se uma subversão das
fronteiras que costumavam separar essas duas esferas no mundo moderno, junto a
importantes mutações nos tipos de subjetividades que germinavam nos cenários assim
delimitados, com fortes abalos nas noções de interioridade, intimidade e privacidade.

Rio de Janeiro, Janeiro de 2003

Cara Sophie... eu poderia encher páginas e páginas com tudo o que enche
meu coração, acerca de muitas coisas; mas estou convencida de que este
mundo não é o lugar adequado para verter a alma sem reservas.
Ms. Peabody (em carta à filha, Sophie Hawthorne)

Eu tenho o meu jornal na Rede e o torno público porque, precisamente, não tenho nada
a dizer.
Steven Rubio (blogueiro)

Cara Sophie... nada como a nossa história tem sido escrito... e nem será. Pois
jamais nos sentiríamos inclinados a fazer do público o nosso confidente.
Nathaniel Hawthorne (em carta à esposa Sophie)

Não sei se o que faço é bom. Sei que umas cem pessoas, todos os dias, me perguntam
o que aconteceu ontem, e elas estão realmente interessadas...
Aléxis Massie (blogueiro)

Introdução

O germe deste artigo é uma inquietação, uma tentativa de compreender um
fenômeno aparentemente paradoxal – ou melhor, a confluência problemática de duas
tendências contemporâneas: por um lado, a crescente ênfase biográfica que permeia o
mundo ocidental (com sua voracidade pelas confissões e por tudo que remeta a “vidas
reais”) e, paralelamente, um certo declínio da interioridade psicológica que sempre
caracterizou a subjetividade moderna. Para ancorar tal discussão, escolhemos como objeto
de estudo um tipo de prática que parece sintomática desses processos pois exprime tal
paradoxo e, portanto, cremos que pode ser fértil na sua indagação: o auge das webcams e
dos diários pessoais publicados na Internet, uma modalidade de “escrita íntima” ou de
narração auto-referente conhecida como weblogs ou, simplesmente, blogs.1
Antes de mergulhar nessa problemática de candente atualidade, porém, torna-se
necessário percorrer brevemente a genealogia dos dois fatores aqui considerados – tanto as
“narrativas do eu” como a crença numa “vida interior” –, localizando a sua germinação
conjunta na alvorada dos tempos modernos. Depois de reconstruir a historicidade desse
campo contextual, procuraremos vislumbrar a especificidade de suas reverberações atuais,
focalizando as fortes transformações que estão afetando a subjetividade contemporânea e
que não cessam de reconfigurar a paisagem do mundo.

O nascimento da intimidade

Em um livro destinado a examinar as diversas formas de narrativas vivenciais, a
socióloga argentina Leonor Arfuch recorre a um estudo de Mijail Bajtin sobre as biografias
e as autobiografias antigas, e cita um trecho referido ao elogio fúnebre de um cidadão da
polis grega:
Não havia ali, não podia haver, nada de íntimo, de privado, de pessoal e secreto, de
introvertido. Nenhuma solidão. Esse homem está aberto por todas partes.
Inteiramente para o exterior, não guarda nada só para si, nada há nele que não seja
da ordem de um controle ou de uma declaração pública e nacional. Tudo ali era
absolutamente público.2
O exemplo é pertinente pois evidencia claramente um fato: a separação entre os
âmbitos público e privado da existência é uma invenção histórica e datada, uma convenção
que em outras culturas inexiste ou é configurada de outras maneiras. É, inclusive, bastante
recente: a esfera da privacidade só ganhou consistência na Europa dos séculos XVIII e
1 No último encontro da COMPOS, organizado pela ECO/UFRJ no Rio de Janeiro, o artigo “A arte da vida.
Diários pessoais e webcams na Internet”, de André Lemos – que, por sua vez, fora relatado por Paulo Vaz –
iniciou a discussão sobre este tipo de práticas comunicativas, assinalando a sua importância na atual
reconfiguração dos espaços público e privado. O presente texto pretende retomar esse convite, esboçando
novas linhas de reflexão sobre o assunto. (Obs: as citações dos blogueiros Steven Rubio e Aléxis Massie,
apresentadas nas epígrafes, foram extraídas do texto de Lemos).
2 BAJTIN, Mijail. Théorie et esthétique du roman. Paris: Gallimard, 1978. p. 280 Apud: ARFUCH, Leonor.
El espacio biográfico: Dilemas de la subjetividad contemporánea. Buenos Aires: FCE, 2002. p. 70.
XIX, quando um certo espaço de “refúgio” para o indivíduo e a família começou a ser
criado no mundo burguês, almejando um território a salvo das exigências e dos perigos do
meio público que começava a adquirir um tom cada vez mais ameaçante. Em seu livro O
declínio do homem público, Richard Sennett analisa esse processo de esvaziamento e
estigmatização da vida pública, e o surgimento concomitante das “tiranias da intimidade”.
Uma dupla tendência que, de acordo com o sociólogo norte-americano, obedeceu a
interesses políticos e econômicos específicos do capitalismo industrial.
Assim, pois, como mostra Witold Rybczynski ao reconstruir a história da casa, a
idéia de intimidade não existia na Idade Média. A necessidade, a sensação e a valorização
de um certo espaço “íntimo” foram surgindo e se constituindo ao longo dos últimos três
séculos da história ocidental. Foi, precisamente, com a paulatina aparição de um “mundo
interno” do indivíduo, do eu e da família, que as pessoas começaram a considerar o lar
como um contexto adequado para acolher essa vida interior que começava a florescer.
Desse modo, as casas foram se tornando lugares privados e, como explica o historiador,
“junto com essa privatização do lar surgiu um sentido cada vez maior de intimidade, de
identificar a casa exclusivamente com a vida familiar”. Em muitos desses lares começaram
a se definir funções específicas e fixas para os diversos cômodos, aparecendo inclusive os
cabinet, “um quarto mais íntimo para atividades privadas como a escrita”. 3 Outro
historiador, o inglês Peter Gay, comenta a importância que começou a ganhar um “sonho de
consumo” do século XIX: a possibilidade de se ter “um quarto próprio”, 4 no qual o mundo
interior do morador podia se expressar – dentre outras formas através da escrita – e ficar à
vontade. Pois, em contraposição aos rituais hostis da vida pública, o lar foi se
transformando no território da autenticidade e da verdade, um refúgio onde era permitido
ser “si mesmo”. A solidão, que tinha sido um estado raro na Idade Média, permitia o
desdobramento de uma série de prazeres até então inéditos, a resguardo dos olhares intrusos
e sob o império austero do decoro burguês.
Foram se configurando, dessa maneira, no despontar da Modernidade, dois campos
claramente delimitados: o espaço público e o espaço privado, cada um com suas funções,
suas regras e seus rituais próprios. Os escritos íntimos de Ludwig Wittgenstein oferecem
um exemplo particularmente interessante dessa delimitação rígida e precisa, pois seus
Diários secretos (publicados de maneira póstuma, contrariando a vontade explícita do
autor) replicam claramente tal cisão: nas páginas pares, o filósofo vertia suas vivências
pessoais numa linguagem codificada, enquanto nas páginas pares anotava seus
pensamentos públicos em perfeito e claríssimo alemão.
Relato e criação do eu
Os novos ambientes íntimos e privados que começaram a proliferar três séculos
atrás eram um verdadeiro convite à introspecção: nesses espaços impregnados de solidão, o
sujeito moderno podia mergulhar na sua obscura vida interior, embarcando em fascinantes
viagens auto-exploratórias que, muitas vezes, eram vertidas no papel. Como constatam
Alain Corbin e Michelle Perrot na passagem da História da vida privada relativa a esta
3 RYBCZYNSKI, Witold. Lo íntimo y lo privado; La domesticidad. In: La casa. Historia de una idea. Buenos
Aires: Emece, 1991. p. 50.
4 GAY, Peter. Fortificación para el yo. In: La experiencia burguesa, de Victoria a Freud, v. 1: “La educación
de los sentidos”. México: FCE, 1992. p. 374 a 426.
época de intenso “deciframento de si”, o “furor de escrever” tomou conta de homens,
mulheres e crianças, imbuídos tanto pelo espírito iluminista de conhecimento racional como
pelo ímpeto romântico de mergulho nos mistérios mais insondáveis da alma.5 A escrita de
si tornou-se uma prática habitual, dando à luz todo tipo de textos introspectivos nos quais a
auto-reflexão se voltava não tanto para a busca de um certo “universal” do Homem, mas
para a sondagem da natureza fragmentária e contingente da condição humana, plasmada na
particularidade de cada experiência individual. Inaugurada com grande estilo nos Ensaios
de Michel de Montaigne e confirmada, depois, nas paradigmáticas Confissões de Jean
Jacques Rousseau, a nova modalidade foi fazendo da literatura um imenso laboratório “no
qual as formas subjetivas modernas ganharam contorno e visibilidade”, como expressa a
psicanalista Maria Rita Khel em um artigo intitulado “Nós, sujeitos literários”.
As cartas, que também pertencem a esse conjunto difuso de gêneros conhecidos
como narrativas do eu, também foram se desenvolvendo e vivenciaram uma sorte de
apogeu no final do século XVIII, quando Goethe publicou seu romance Os sofrimentos do
jovem Werther, que recorria ao formato epistolar para narrar uma história de amor
romântico e trágico. O livro obteve um sucesso imediato e fulminante: a identificação dos
leitores (e das leitoras) com os personagens foi tão forte, que não motivou apenas a
imitação do estilo em milhares de missivas de enamorados anônimos; além disso, muitos
emularam o malfadado protagonista até as últimas conseqü.ncias: uma onda de suicídios
por amores não correspondidos sacudiu a Europa. Todos os corpos, sem exceção, eram
encontrados junto à imprescindível e arrebatadora carta derradeira. Não por acaso, diz-se
que Goethe ensinou seus contemporâneos a se apaixonar, seguindo a escola do movimento
romântico, bem como a sofrer, a viver e a ser. No mesmo período, outro romance epistolar
partilhava de sucesso semelhante: A Nova Heloisa, de Rousseau. Muitas obras marcantes
exploraram as virtudes do gênero que, como os diários íntimos, possuía um vínculo
evidente com a sensibilidade da época: de As relações perigosas, de Laclos, e O homem de
areia, de Hoffmann, até os populares Drácula e Frankenstein, para citar apenas alguns
exemplos ainda famosos.
Assim como as trocas epistolares, a escrita do diário íntimo foi uma atividade
burguesa por excelência, que floresceu no século XIX. Por isso, os romances psicológicos –
também fundamentais na construção do imaginário da época – não vampirizaram apenas a
forma epistolar mas também a da confissão íntima e cotidiana, a fim de construir uma rica
série de estratégias literárias de autenticidade e verossimilhança. Assim, uma infinidade de
personagens foi desbordando das páginas dos romances para influenciar fortemente as
subjetividades da época: de Emma Bovary ao jovem Törless, a escrita literária virou um
campo de identificações, uma fonte de roteiros de subjetivação para os indivíduos
modernos. Foi germinando, desse modo, uma forma subjetiva particular, dotada de uma
certa “interioridade psicológica”, na qual fermentavam atributos e sentimentos privados. O
repertório afetivo dessa esfera íntima podia e devia ser valorizado, sondado, cultivado,
protegido e enriquecido. Como afirma outro psicanalista brasileiro, Benilton Bezerra Jr., “o
homo psychologicus aprendeu a organizar sua experiência em torno de um eixo situado no
centro de sua vida interior”. 6
5 CORBIN, Alain; PERROT, Michelle. El secreto del individuo. In: ARIÈS, Philippe; DUBY, Georges.
Historia de la vida privada, v. 8: “Sociedad burguesa: aspectos concretos de la vida privada”. Madri: Taurus,
1991. p. 160.
6 BEZERRA Jr., Benilton. O ocaso da interioridade. In: PLASTINO, C. A. (org.). Transgressões. Rio de
Nos diversos gêneros da escrita íntima, os sujeitos modernos aprenderam a modelar
a própria subjetividade através desse mergulho introspectivo, dessa hermenêutica
incessante de si mesmo: no papel, a partir da matéria caótica e da experiência fragmentária
da vida, era preciso narrar uma história e criar um eu. Nessa atividade criativa, bem como
em qualquer outra modalidade de construção de si, sabe-se, a linguagem é o berço do
sujeito, que somente pode se constituir como tal a partir da interação com os outros e da sua
inserção em um universo simbólico compartilhado através do equipamento lingü.stico. “Eu
é um outro”, reza a famosa frase de Rimbaud, que cai como uma luva para definir os
protagonistas dos relatos autobiográficos e, também, a qualidade sempre fictícia do eu.
Embora seja difícil arriscar definições precisas, contudo, até hoje persiste a
diferenciação entre as narrativas de ficção e aquelas que se apóiam na garantia de uma
existência “real”, inscrevendo tais práticas em outro regime de verdade e suscitando um
horizonte de expectativas diferenciado, apesar da sofisticação das artimanhas retóricas
acumuladas, apesar dos séculos de treinamento dos leitores, e apesar dos abalos sofridos
pela crença numa identidade fixa e estável.7 Em tempos de incertezas, curiosamente, a
mítica singularidade do eu conserva a sua força – nutrida por uma cultura do
individualismo cada vez mais depurada, embora atravessada pelos sedutores ditados
identitários do mercado – e não cessa de convocar os mais sedentos olhares. Cabe lembrar
que os relatos autobiográficos, especialmente as diversas formas do diário íntimo, tiveram a
sua morte anunciada e confirmada efusivamente nas últimas décadas do século XX, sem
que ninguém previsse seu repentino ressurgimento nos novíssimos ambientes virtuais e
globais das redes eletrônicas.8 Resta saber, entretanto, se os sentidos dessas práticas
continuam a serem idênticos aos de seus ancestrais pré-digitais; a fim de indagar tais
questões, orientaremos o foco da análise para o contexto contemporâneo.

O imperativo da visibilidade

Uma vez relembrados os percursos que delinearam o fortaleceram o “mito do eu”
como protagonista dos relatos autobiográficos ao longo dos últimos séculos no mundo
ocidental, cabe perguntar: o que está acontecendo hoje em dia nessas arenas? Cada vez
mais, a mídia reconhece e explora o forte apelo implícito no fato de que aquilo que se diz e
se mostra é um testemunho vivencial: a ancoragem na “vida real” torna-se irresistível,
mesmo que tal vida seja absolutamente banal – ou melhor: especialmente se ela for banal.
Do mesmo modo, na Internet, pessoas desconhecidas costumam acompanhar com fruição o
relato minucioso de uma vida qualquer, com todas as suas peripécias registradas pelo
próprio protagonista enquanto elas vão ocorrendo, dia após dia, de hora em hora, minuto a
Janeiro: Contracapa, 2002.
7 Uma definição canônica é a do crítico francês Philippe LEJEUNE, que nos anos ‘70 propôs a noção de
“pacto autobiográfico” para diferenciar tais gêneros, desconsiderando as eventuais características próprias
desse tipo de textos (em virtude das coincidências formais com o romance autobiográfico e com outros
escritos de ficção, por exemplo) para localizar a sua especificidade num contrato de leitura peculiar, que
presume a crença – por parte do leitor – na identidade coincidente do autor e do protagonista desse tipo de
textos. Recentemente, LEJEUNE publicou Chér écran: Journal personnel, ordinateur, Internet, um estudo
sobre a escrita de relatos auto-referenciais em computadores, contemplando inclusive a prática do diário
íntimo publicado na Internet.
8 Uma das especialistas mas reconhecidas da área, Elizabeth W. BRUSS, autora de Autobiographical Acts:
The changing of a literary genre, escreveu no início dos anos 80 acerca da iminente desaparição do gênero,
diante das profundas transformações com relação à época que experimentou seu apogeu.
minuto, com o imediatismo do tempo real, por meio de torrentes de palavras que de
maneira instantânea podem aparecer nas telas de todos os cantos do planeta – textos que,
muitas vezes, são complementados com fotografias e, inclusive, com imagens de vídeo
transmitidas ao vivo e sem interrupção. Desdobra-se, assim, nas telas interconectadas pelas
redes digitais, todo o fascínio e toda a irrelevância de “a vida como ela é”.
É grande a tentação de compreender essas novas modalidades de auto-reflexão, de
expressão e de comunicação escrita (ou hipermídia) em torno do eu como um
ressurgimento da antiga prática introspectiva de exploração e de conhecimento de si, porém
adaptada ao contexto contemporâneo e aproveitando as possibilidades que as novas
tecnologias oferecem, dentre elas a interessante “liberação do pólo de emissão”. Como
ressaltou André Lemos em seu artigo sobre o tema, tal característica permite que qualquer
pessoa possa publicar o que quiser, concedendo aos diários íntimos contemporâneos uma
projeção que seus ancestrais pré-digitais jamais poderiam conseguir – embora convenha
acrescentar que, provavelmente, na maioria dos casos estes nem almejariam atingi-la, pois
tais textos cresciam envolvidos na mística do secreto e eram tratados como cartas dirigidas
ao remetente e somente a ele, de acordo com a célebre e feliz expressão de Jürgen
Habermas. Numa operação semelhante à anterior, então, os seguidores dos blogs e os fãs
das webcams poderiam ser comparados aos leitores ávidos de antanho, que se identificavam
com os personagens literários e construíam suas subjetividades a partir desses jogos de
espelhos. Os computadores e as redes digitais surgiriam, assim, como mais um cenário para
a colocação em prática da antiga “técnica da confissão”, essa modalidade de construção da
verdade sobre os sujeitos que há séculos vigora em Ocidente e cuja genealogia fora traçada
por Michel Foucault em seu livro A vontade de saber. É, sem dúvida, uma explicação
possível.Consideramos que se trata, no entanto, de um fenômeno muito complexo e rico,
cujas variedade e diversidade já são deslumbrantes, que se apresenta também como uma
inovadora prática comunicativa e de criação intersubjetiva, e que sem dúvida merece um
estudo aprofundado que vise a compreendê-lo de maneira ampla e detalhada.9 Neste artigo,
porém, iremos focalizar apenas um de seus traços, por considerá-lo significativo para captar
seu sentido como uma prática cultural característica da nossa época: a sua peculiar
inscrição na fronteira entre o extremamente íntimo e o absolutamente público. Como
explicar o curioso fato de que as novas modalidades de diários “íntimos” sejam expostas
aos milhões de olhos que têm acesso à Internet? A lente incansável de uma webcam, por
exemplo, que registra permanentemente cada detalhe de uma vida particular, nada mais é
do que um upgrade tecnológico do velho costume de anotar toda a minúcia cotidiana em
um caderninho de folhas amareladas? Essa exposição pública é apenas um detalhe sem
importância das novas práticas, que deixa intactas as características fundamentais dos
antigos diários íntimos? Ou se trata, pelo contrário, de algo radicalmente novo?
Neste ponto do caminho, duas atitudes intelectuais se apresentam como possíveis:
escolher a tese da continuidade e demonstrar que as novas modalidades “nada mais são” do
que simples adaptações contemporâneas das velhas práticas; ou, então, sublinhar a
9 Tal é a intenção do meu projeto de doutorado, “Cartas e diários. Do manuscrito à Internet: reconfigurações
da intimidade e da privacidade”, em desenvolvimento na ECO/UFRJ. Apesar da novidade da prática, já houve
aproximações ao tema e várias tentativas de sistematizá-lo, inclusive no Brasil, como a seguinte dissertação
de mestrado: ARAÚJO SCHITTINE, Denise. “Blogs: Comunicação e escrita íntima na Internet”. ECO/UFRJ,
12/09/02.
descontinuidade e tentar desvelar a especificidade das novas formas, de modo a captar tudo
o que elas trazem de novo e a perceber as implicações de sua introdução na presente
formação histórica. Esta segunda estratégia parece a mais promissora e instigante. Não
carece de interesse, porém, a comparação com as modalidades que podem ser consideradas
seus “ancestrais”, de algum modo, pois elas proporcionam um pano de fundo contra o qual
é mais fácil enxergar as inovações. Embora alguns hábitos pareçam sobreviver ao longo de
períodos históricos diversos, ganhando certa auréola de eternidade, convém ao pesquisador
se manter alerta e desconfiar dessas permanências: muitas vezes, as práticas persistem mas
seus sentidos mudam, como alertou Foucault ao sentar as bases do método genealógico de
pesquisa histórico-filosófica. Do contrário, corre-se o perigo de naturalizar aquilo que é
uma mera invenção, perdendo a ocasião de compreender toda a riqueza da sua
especificidade histórica e do seu sentido na formação social particular que a acolhe.
Sustentaremos aqui, então, que o fato dos novos diários íntimos serem publicados
na Internet não é um detalhe menor, pois o principal objetivo de tais estilizações do eu
parece ser, precisamente, a visibilidade – em perfeita sintonia, aliás, com outros fenômenos
contemporâneos que se propõem a escancarar a minúcia mais “privada” de todas as vidas
ou de uma vida qualquer: dos reality-show decalcados no modelo Big Brother às revistas
no estilo Caras, dos programas de TV que se inscrevem na linhagem do Ratinho livre à
proliferação de documentários em primeira pessoa, do sucesso editorial das biografias à
crescente importância da imagem nos políticos e em outras figuras públicas, etc. Nada mais
privado, porém, vale lembrar, que um diário íntimo à moda antiga. Estes eram furtados à
curiosidade alheia, guardados em gavetas e esconderijos secretos, muitas vezes protegidos
por meio de chaves e senhas ocultas – chegando a se converter, inclusive, em práticas
seriamente proibidas e perseguidas por maridos e pais, por exemplo. Enquanto isso, o
universo dos computadores e da Internet, essa autêntica “rede de intrigas” cheia de “pontos
de fuga”, não parece propício à preservação do segredo.
Todas essas tendências de exposição da intimidade que proliferam hoje em dia,
portanto, vão ao encontro e prometem satisfazer uma vontade geral do público: a avidez de
bisbilhotar e “consumir” vidas alheias. Nesse contexto, os muros que costumavam proteger
a privacidade individual sofrem sérios abalos; cada vez mais, essas paredes outrora sólidas
são infiltradas por olhares tecnicamente mediados que flexibilizam e alargam os limites do
dizível e do mostrável. Como entender tais processos? Podemos dizer, simplesmente, que
hoje o privado se torna público? A resposta intui-se mais complexa, sugerindo uma
imbricação e interpenetração de ambos os espaços (capaz de reconfigurá-los até tornar
obsoleta a distinção) e um certo do declínio da interioridade que costumava definir o homo
psychologicus, em proveito de outras construções identitárias baseadas em novos regimes
de constituição das imagens do corpo e do eu. Por tal motivo, as tentativas de explicação
que aludem a um mero aprofundamento quantitativo do narcisismo e do voyeurismo, por
exemplo, também são insuficientes; tratar-se-ia, pelo contrário, de expressões de uma
mutação mais radical na subjetividade contemporânea.
Acompanhando as mudanças que estão acontecendo em todos os âmbitos –
marcados pela aceleração, a virtualização, a globalização, a digitalização – as narrativas do
eu também atravessam profundas transformações. Hoje é possível detectar, por exemplo,
uma certa queda da psicanálise tradicional, respondendo à expansão das explicações
biológicas do comportamento físico e da vida psíquica. Estaríamos vivenciando, então, um
paulatino desbalanceamento na organização subjetiva, uma passagem do mundo abissal dos
sentimentos e do conflito inerente ao sentido trágico da vida (com seu tecido de regras
interiorizadas, transgressões e desejos reprimidos), para uma preeminência da
sensorialidade e da visibilidade instantânea, da lógica do impacto nervoso e efêmero, do
imperativo do gozo constante e do sucesso, da fruição do consumo imediatista, do bemestar
tecnicamente controlado, da performance eficaz no curto prazo, das identidades
descartáveis e da gestão empresarial dos capitais vitais. Como explica, novamente, Benilton
Bezerra Jr.: “Se na cultura do psicológico e da intimidade o sofrimento era experimentado
como conflito interior, ou como choque entre aspirações e desejos reprimidos e as regras
rígidas das convenções sociais, hoje o quadro é outro: na cultura das sensações e do
espetáculo, o mal-estar tende a se situar no campo da performance física ou mental que
falha, muito mais do que numa interioridade enigmática que causa estranheza”. 10 O
fenômeno dos diários publicados na Web, com toda a sua parafernália de confissões
multimídia e, especialmente, as webcams que transmitem “cenas da vida privada” ao vivo
durante as 24 horas do dia, fornecem um prisma privilegiado para examinar este
desvanecimento dessa interioridade clássica e as novas tendências exibicionistas e
performáticas que alimentam os atuais processos de identificação.
Os novos mecanismos de construção e consumo identitário encenam uma
espetacularização do eu por meio de recursos performáticos, que visa ao reconhecimento
nos olhos do outro e, sobre tudo, ao cobiçado fato de “ser visto”. Não parece se tratar,
portanto, de uma introspecção à moda antiga, ou seja: uma sondagem absolutamente
privada nas profundezas enigmáticas do eu com objetivos de conhecimento de si, dos
outros, da vida e do mundo. Mais do que uma carta remetida a si mesmo,
fundamentalmente secreta e introspectiva, então, os “diários íntimos” da Internet
constituem verdadeiras cartas-abertas com vocação exteriorizante.
Algumas conclusões
Longe de toda e qualquer nostalgia por um modelo subjetivo que marcou uma época
e caracterizou uma determinada formação histórica, com seus méritos e suas muitas
tiranias, a intenção deste trabalho é chamar a atenção para certas mutações em curso,
reivindicando a atualidade da pergunta pelo sentido e, também, a relevância do prisma
político para enxergar o que está acontecendo ao nosso redor. Ao esfacelar as dicotomias
que delineavam um mundo exterior hostil e perfeitamente diferenciado dos refúgios
privados para eu e a família, as novas práticas comunicativas que florescem nos cenários
digitais podem inaugurar interessantes trocas intersubjetivas. Do mesmo modo, nesses
cenários podem fermentar – e provavelmente já estejam fermentando – outras formas de
subjetivação. O fenômeno conhecido como “crise das identidades” foi largamente
denunciado nos últimos anos como um “mal de época”; entretanto, o esmaecimento de um
sentido de identidade que outrora parecia fixo e estável não é, necessariamente, uma má
notícia. Certas frestas promissoras podem se abrir nessa desestruturação do recalcado eu
ocidental, e a Internet se apresenta como uma arena especialmente propícia para a
emergência de novas configurações. O estímulo permanente do mercado na conformação
de subjetividades descartáveis, porém, não parece estimular a criação de territórios
existenciais realmente inovadores e formas menos sujeitadas de ser. Pois, como explica
Suely Rolnik em seu instigante artigo “Toxicômanos de identidade”, a dinâmica do
10 BEZERRA Jr., op. cit.
capitalismo contemporâneo detém uma ferocidade inusitada, e uma capacidade jamais vista
de capturar, copiar e vender “modos de ser” que ficam rapidamente obsoletos e, como tais,
após serem consumidos devem ser descartados e substituídos a toda velocidade por outros,
sempre desenhados sob o imperativo do gozo constante, da fruição e do sucesso
eminentemente visíveis.
Se no século XIX, em plena efervescência dos diários, das cartas, dos romances e
dos folhetins, tinha-se a sensação de que tudo existia para ser contado em um livro – para
lembrar a célebre expressão de Stéphane Mallarmé –, hoje a impressão é de que só acontece
aquilo que é exibido em uma tela. Contudo, como vimos, as diferencias não são apenas
sutis, ou concernentes a meras atualizações de suportes tecnológicos: o médio é a
mensagem, sabe-se, e além disso o mundo mudou e continua a mudar. Nesse sentido, a
liberação do pólo da emissão possibilitada por meios eletrônicos como a Internet, que
permite a “qualquer um” ser visto, lido e ouvido por milhões de pessoas – mesmo que não
tenha nada específico a dizer – talvez esteja dando conta dessa falta de sentido que marca as
experiências subjetivas contemporâneas: uma carência que consegue dotar de valor ao mero
fato de se exibir, de ser visível mesmo que seja na fugacidade de um instante de luz virtual.
Como o jovem protagonista do filme de Todd Solondz, Storytelling, para quem a única
possibilidade de fugir da abulia em que se encontrava imerso era a excitante promessa de
“ser famoso” e “aparecer na TV”, sem importar e sem poder sequer imaginar uma razão ou
um sentido para essa visibilidade.
Claramente, os “quinze minutos de fama” previstos por Andy Warhol como um
direito de qualquer mortal na era midiática, exprimem uma intuição visionária porém ainda
atrelada a outro paradigma: aquele inteiramente dominado pela televisão e pelos meios de
comunicação de massa no esquema broadcasting. É possível arriscar, então, que as redes
informáticas estariam cumprindo – do seu jeito e, talvez, de um modo mais radical daquele
que Warhol jamais poderia ter previsto – essa promessa que a TV não pôde satisfazer. No
entanto, o resultado de tamanha conquista pode ser desapontador, como bem constata
André Lemos nas conclusões do seu ensaio sobre o tema:
A vida comum transforma-se em algo espetacular, compartilhada por milhões de
olhos potenciais. E não se trata de nenhum evento emocionante. Não há histórias,
aventuras, enredos complexos ou desfechos maravilhosos. Na realidade, nada
acontece, a não ser a vida banal, elevada ao estado de arte pura. A vida privada,
revelada pelas webcams e diários pessoais, é transformada em um espetáculo para
olhos curiosos, e este espetáculo é a vida vivida na sua banalidade radical. A
máxima é: “minha vida é como a sua, logo tranqüilize-se, estamos todos na
banalidade do quotidiano”.11
Vale lembrar que essa tranqüilidade conformista, porém, que reconhece na
banalidade da vida alheia a própria mediocridade e, com isso, apazigua toda incômoda
inquietação e permite “suportar melhor a existência”, nem sempre foi um valor
incontestável. O forte interesse que essas histórias pequenas conseguem despertar, o raro
fascínio desses micro-relatos vivenciais, talvez seja a outra face de um fenômeno bem
debatido em anos recentes: a decadência dos grandes relatos que organizavam a vida
moderna, tanto em nível coletivo como individual, e a queda do peso inerte das figuras
ilustres e exemplares plasmadas nos relatos biográficos canônicos. Por isso, convém não
11 LEMOS, op. cit. p. 50.
esquecer que se trata de uma questão fortemente política, que contradiz de modo fragrante
outras propostas históricas às quais parece homenagear: basta lembrar que a bandeira da
“vida como obra de arte”, por exemplo, fora levantada de maneira inflamada e entusiasta
pelas vanguardas estéticas e por certas correntes filosóficas que marcaram a Modernidade,
em luta ativa contra a banalidade da vida cotidiana e contra o conformismo da
“sensibilidade burguesa”, e em prol da criação de novas formas de ser e de novos mundos
para sermos. Parece evidente, entretanto, que tais modos de subjetivação e tais vontades
políticas pertencem a outras épocas, tempos idos que instavam à escrita minuciosa de
diários íntimos na solidão do “quarto próprio” e ao estabelecimento de densos diálogos
epistolares, alimentados pela distância e pelos ritmos cadenciados de outrora. Textos
íntimos, enfim, nos quais as interioridades dos autores eram pacientemente vertidas,
zelosamente cultivadas e, também, pudicamente protegidas. Apesar de seu evidente
parentesco com tais práticas, porém, os blogs e as webcams que hoje inundam a Internet
(bem como os e-mails e os chats que os atravessam e sustentam) assinalam outros
processos e inauguram outras tendências, revelando a emergência de novos modos de ser:
subjetividades afinadas com uma formação histórica cada vez mais distante do tempo em
que fomos e devíamos ser absolutamente modernos.

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