Pela antena esquerda de um gafanhoto

Neiza Teixeira
neizateixeira@gmail.com
Publicado el: 15/05/07


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Sobre a poesia, falaremos sempre no decorrer deste trabalho. E mais especificamente na sua segunda parte. Ainda recorrendo a Montaigne, apresento algumas das mais sábias palavras proferidas sobre a Educação da Infância:


Pela antena esquerda de um gafanhoto.

Neiza Teixeira
neizateixeira@gmail.com
Doutora em Filsofia
Porto, Primavera - 2007


No Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, lê-se que artífice é: 1) trabalhador, operário, artesão que produz algum artefato ou que professa alguma das artes; 2) obreiro ou oficial que executa sua arte consoante as encomendas que recebe; 3) fig. Aquele que inventa, cria alguma coisa, autor . O termo provém do latim artifix, mestre numa arte, o que faz algo com arte, artesão, artista, especialista, oficial, criador, inventor, obreiro.
Nas palavras que pretendo proferir, tomo o termo no seu sentido figurado – aquele que inventa, cria alguma coisa; autor. Seguramente, devo calçar-me, como quem coloca cepos, específicos para este uso, nas rodas de um carro enquanto ele é reparado (recordação da minha infância e juventude do meu pai e de outros mecânicos nas ruas da minha casa ou de Parintins).
Assim sendo, primeiramente recorro a Pascal, ao Ensaio “Da Educação das Crianças: à Senhora Condessa de Gurson”, quando diz que apenas leu com afinco Plutarco e Sêneca e que seus grandes interesses são a história e a poesia. Segundo ele, e fundamentado em Cleantes:

(…) assim como o som, prensado no estreito canal de uma trombeta, sai mais agudo e forte, assim se me afigura que o pensamento, constringido pelas regras da poesia, se arremete mais vivamente e me impressiona com maior intensidade .

(…) a maior e mais importante dificuldade da ciência humana parece residir no que concerne à instrução e à educação da criança .

A seguir, e é necessário completar esta assertiva, com a comparação:

(…) O mesmo acontece na agricultura: o que precede à semeadura é certo e fácil; e também plantar. Mas depois de brotar o que se plantou, difíceis e variadas são as maneiras de tratá-lo. Assim os homens, pouco custa semeá-los, mas depois de nascidos, educá-los e instruí-los é tarefa complexa, trabalhosa e temível. O que se revela de suas tendências é tão tênue e obscuro nos primeiros anos, e as promessas tão incertas e enganadoras que se faz difícil assentar juízo seguro .

Estas palavras foram escritas em 1557, mas soam, hoje, como se tivessem sido proferidas neste instante, aqui, e como se não sentissem o peso da sua ancestralidade. Montaigne ajuda-nos a pensar seriamente na educação de uma criança como a maior e mais importante dificuldade da ciência humana. Portanto, aqui estamos nós tratando de um assunto muito sério e que, infelizmente, tem sido desviado do seu eixo, tem saído do seu lugar próprio de debate e tem caído em mãos inábeis e pouco competentes. Daí a nossa responsabilidade, quando nos encontramos para falar da cultura e da língua de um povo que se tornou de muitos povos e da melhor maneira de educar e instruir crianças e adolescentes. Aqui se trata também de falarmos da profissão do professor, do futuro, entendendo como sua principal tarefa a garantia e continuidade do mundo. Com isto quero dizer que, principalmente, somos responsáveis, enquanto adultos, vivos e artífices do saber pelo presente, já que este se encontra sempre em preparação para se tornar futuro, e, tal como diz Montaigne, ao comparar a educação e instrução de uma criança ao que acontece na agricultura, não podemos assentar um juízo seguro, pois ele é construído por pessoas. Esta dúvida e inconstância constituem o incômodo do nosso trabalho.
A primeira dificuldade apresentada por Montaigne serve para chamar a atenção para o substantivo artífice com o qual substituo os usuais professor ou educador. Utilizei este substantivo porque quero aproximar o nosso métier ao de um artista, aquele que transforma a matéria concreta ou abstrata em obra-de-arte. E na tentativa de ver aquele que se entrega a nós com a confiança dos seus como matéria carente de forma ou predisposta à forma. Também quero adiantar com esta substituição o compromisso que temos com o hoje, com o agora, enfim, com a vida.
Antes de prosseguir, quero afastar toda interpretação que estas palavras possam suscitar, dizendo que hoje não nos é mais possível pensar como pensaram os empiristas - que é possível fazer com uma criança tudo o que se possa prever ou querer, pois sabemos da herança genética que sobrevive em nós e das descobertas que se tem feito noutros campos da ciência, da filosofia, da arte, da religião e da liberdade que, em última instância, é o que destina um homem. Ao mesmo tempo, sabemos que não podemos pensar isoladamente, construindo cada um, a seu bel-prazer, a sua mônada. Como também sabemos das mudanças que se têm verificado na educação, e, principalmente, conhecemos as propostas da Escola Nova.
Fundamentados nestas conquistas e embaraços, é que podemos, hoje, com propriedade, apresentar idéias que, ao contrário do que poderíamos pensar, não são novas: são aquelas descobertas ou propostas que foram soterradas pelo tempo e pela força das que conhecemos. Assim sendo, quando recorremos aos mais antigos, sentimos, por exemplo, a atualidade de Plutarco, de Ovídio, de Platão, de Aristóteles, de Montaigne ou de Rousseau. É neste sentido que formas de conhecer que foram olvidadas ou restringidas a pequenos grupos tentam ganhar força.

Amigo, a obra do poeta
É ver e interpretar os seus sonhos,
Acredita-me, a mais verdadeira ilusão do homem
Desabrocha nos seus sonhos:
Toda a arte do poeta e dos versos
É a interpretação da verdade dos sonhos .

Em Nietzsche, e através da sua filosofia poética, se assim pudermos chamar, ou dos seus famosos aforismos, depois dos Gregos, ouvimos falar dos sonhos e da sua grandiosidade e como dimensão do homem. Depois, com Freud se tornou irreversível a sua importância para o conhecimento do homem e do mundo. Estava descoberta, no século XX, e para questionar muito do que julgávamos que sabíamos, a Psicanálise. Isto significa que a dimensão restrita à imaginação e ao inconsciente perdera o seu sentido pejorativo e primitivo para se tornar uma importante ferramenta de apaziguamento, principalmente, do homem. Estava aberto o saber para a novidade.
Com isto, se ganhamos em liberdade, aumentamos o nosso risco. E isto exige que a criança, o adolescente, enfim, o homem sejam vistos em perspectivas diferentes. No discurso que vimos tecendo, devem ser consideradas as seguintes questões: a criança enquanto matéria ou a criança na sua susceptibilidade e fragilidade para se dobrar e pertencer ao mundo e o nosso compromisso com a vida. Em primeiro lugar, somente assim pode ver uma criança quem compreende o mundo como obra-de-arte, portanto, se vê também como arte e, ao mesmo tempo, como esteta e artista. Logo, está fora desta compreensão quem vê o homem como homo faber e com um saber construído à força, subsidiado pelo medo, pela obrigação e pelo sacrifício. E também vê a criança como obra-de-arte, como artista e como esteta.
Assim sendo, faz-se uma ruptura e, então, é possível a compreensão de nós mesmos e do mundo através da poesia, da música, do cinema, da imaginação e dos sonhos, porque estas linguagens estarão isentas dos seus enigmas, serão possibilitadas a todos, pois todos seremos iniciados. Porém, precisamos reaprender a ser artistas ou, então, não podemos nos permitir deixar de o ser sem o risco de não compreender que Toda a arte do poeta e dos versos/ É a interpretação da verdade dos sonhos. Sabemos nós que as crianças nascem com estas atividades em função e que o estatuto de adulto implica, principalmente, em eliminar as características que, na maioria dos casos, morrem com a infância. Porém, é possível dar outro caráter a esta realidade, tendo em vista que, neste momento, estamos em busca de novos espaços, de novos seres, de respirar os ares dos novos tempos. Conforme Nietzsche,

A aparência plena da beleza dos mundos dos sonhos, em cuja produção o homem é um ser completo, é a condição provável de toda arte plástica, e também certamente, como nós veremos, de uma metade essencial da poesia .

O que o filósofo nos quer dizer com isto é que tudo, primeiramente, se dá à existência através da forma. E que pela forma nada é inútil. E esta dá conta da sua existência, principalmente, através dos sonhos, do mundo que é parceiro do mundo da imaginação. Todavia, não podemos esquecer o embargo que o próprio homem sempre impôs a estas manifestações. São testemunhas desta atitude a nossa tentativa de sempre pautar a nossa vida pela seriedade, pela “serenidade da razão”, pelo sacrifício, pela obediência, ainda que sem justificativas, a determinadas exigências. A história do homem se vê pontuada pela intolerância ao que não é avaliado como sendo produzido pela razão. E, mais recentemente, pelos erros e leituras precipitadas que se fazem da imaginação e dos sonhos e pelo que se tem convencionado chamar “irracional” ou “primitivo”. Acordar para o que permanece adormecido ou sufocado se apresenta como uma das nossas tarefas. O estado de embriaguez ao qual Nietzsche aproxima a manifestação do não racional é constatado em todos os povos e, também, na Natureza. Na música, se pode ouvir na Ode à Alegria de Beethoven, musicalização do poema An die Freud de Schiller, onde toda a Natureza e o homem reconciliado se irmanam. A Nona Sinfonia foi escolhida como a música que representa a Europa. Isto é significativo.

Com alegria, como os corpos celestes
Que Ele colocou em seu curso pelo esplendor do
firmamento
Então, irmãos, sigam seus caminhos
Alegres, como um herói rumo à conquista
(…)
Milhões, um abraço a vocês!
Este beijo é para todo o mundo!
Irmãos – acima da cúpula estelar
Deve morar um pai que nos ama.
(…)

O poema de Schiller é um convite a todos para um encontro além da cotidianidade e da compreensão do homem individual. É uma proposta para a união de todos os seres do Cosmo. Como podemos comprovar pelas tentativas das ordens política, científica, filosófica ou religiosa, convites desta ordem não seriam transmitidos e recebidos melhor de outra forma senão através da música e da poesia. Em síntese, o que é necessário dizer é que há formas muito específicas de fazer ver o mundo e sugestões que não são novas, mas que estão por ser experimentadas, para a vida. E mais que isto, estes instrumentos pelo seu próprio caráter de universalidade congraçariam todos os homens, tornando a paz a língua universal, o que é uma reivindicação de todos os homens e de todos os povos.
Para compreendermos a força e propriedade destas manifestações, teríamos que melhor compreender termos como imaginação, sonhos, criatividade. Os aqui citados não nos são estranhos. Todos os dias, pela nossa fala e pelos nossos ouvidos bombardeamos e somos bombardeados com estes conceitos como se fosse um crime não os pronunciar ou não os ouvir. E, ainda que os conheçamos superficialmente, todos sabemos tratar-se de formas de conhecimento ou de manifestações que se distinguem da razão, como também se distinguem da percepção e dos objetos. Neste sentido, quando falamos da imaginação, estamos falando de um universo distinto daquele com o qual nos relacionamos através dos nossos sentidos, assim como o sabemos distinto dos nossos sonhos. Todavia, sabemos da sua leveza, da sua liberdade e da sua novidade. É neste universo que podemos dizer que o centauro está tocando flauta . É nele, porém, sem negar a existência da razão e do seu peso no nosso mundo, que sugerimos aprofundar o nosso trabalho de garantir a continuidade do mundo .
Não se pode garantir a continuidade do mundo senão concentrando a atenção para a cultura de um povo ou dos povos. É interessante pararmos e pensarmos um pouco sobre Haroum e o Mar de Histórias de Salman Rushdie, a sua primeira história nos esconderijos onde ele teve que se refugiar depois de ter sido condenado à morte pelo fundamentalismo islâmico.

Olhou para a água e reparou que ela era feita de milhares e milhares de correntes diferentes, cada uma de uma cor diferente, que se entrelaçavam como uma “tapeçaria líquida”, de uma complexidade de tirar fôlego; e Iff explicou que aqueles eram os Fios da História, e que “cada fio colorido representava e continha uma única narrativa”. Em diferentes áreas do Oceano havia diferentes tipos de histórias e como todas as histórias que já foram contadas e muitas das que ainda estavam sendo inventadas, podiam se encontrar ali, o Mar de Fios de História era, na verdade, a “maior biblioteca do universo”. E como as histórias ficavam guardadas ali em forma fluida, elas conservavam a capacidade de mudar, de se transformar em versões de si mesmas, de se unirem a outras histórias, de modo que, ao contrário de uma biblioteca de livros, o Mar de Histórias era muito mais que um simples depósito de narrativas. Não era um lugar morto, mas cheio de vida .

O subsolo do Mar de Histórias de Salman Rushdie é a cultura. E, conforme podemos acompanhar, quanto mais variada, receptiva e flexível a cultura de um povo mais rica será. Isto abriria esta conversa para falarmos de multiculturalismo, imigração, globalização e os muitos outros temas que têm despertado a nossa atenção e suscitado o nosso compromisso. Todavia, no momento concentremos a nossa atenção na imaginação. Fica claro que a cultura oferece o sedimento e a imaginação é como se fosse o pincel da liberdade com o qual podemos de uma maneira renovada, leve e diferente compreender e fazer os relatos do todo. Também temos que visualizar o seguinte ponto: a imaginação é mais rica, na medida em que a razão não domina a nossa forma de ver o mundo e quanto mais permitimos que a cultura se renove e se mantenha livre. Isto significa, sobretudo, que as crianças são o núcleo de concentração da imaginação e que a cultura não lhes pode ser interdita. Portanto, sem dúvida, é na infância que podemos melhor preparar o estrato do mundo, atentando para um comportamento que permita liberdade para a criação, o invento e o engenho.
Acima, lembramos Ode à Alegria de Beethoven, enfatizando a sua propriedade de congraçar o Cosmo. E temos constantemente referido a importância da música e da poesia na aprendizagem e, principalmente, na infância. Sobretudo, é importante compreender que elas não merecem ser consideradas como instrumentos de aprendizagem, mas como possibilidades do Ser propriamente se revelar . Esta é a lição que retiramos de uma das obras capitais de Heidegger. Ao mesmo tempo, se nós vivemos um período em que cada vez mais assistimos à banalização da violência, do crime e do embrutecimento nada melhor do que voltarmos para um reencontro com as dimensões soterradas pela força do pragmatismo e do individualismo. É este um dos grandes desafios.
José Saramago tem um belo livro com a não menos bela ilustração de João Caetano, chamado A Maior Flor do Mundo. Ele começa a sua história assim:

As histórias para crianças devem ser escritas com palavras muito simples, porque as crianças, sendo pequenas, sabem poucas palavras e não gostam de usá-las complicadas. Quem me dera saber escrever essas histórias, mas nunca fui capaz de aprender, e tenho pena. Além de ser preciso saber escolher as palavras, faz falta um certo jeito de contar, uma maneira muito certa e muito explicada, uma paciência muito grande – e a mim falta-me pelo menos a paciência, do que peço desculpa .

Nada como aprender com os grandes mestres. Eles nos dizem como fazer, porque fazer e para quê fazer. É o que Saramago faz. Através das suas palavras, em work in progress, vamos nos inteirando das dificuldades de algo que à primeira vista parece ser tão fácil. Não é preciso acrescentar nada às palavras do escritor. Só quero chamar a atenção para a ilustração de um livro infantil. Isto não é apenas um detalhe. A ilustração de um livro infantil é capital. Ela deve-se oferecer como uma linguagem paralela e, ao mesmo tempo, simultânea e complementar. No livro de Saramago, isto se verifica.
Continuando as palavras acima:

Na história que eu quis escrever, mas não escrevi, havia uma aldeia. (Agora vão começar a aparecer algumas palavras difíceis, mas, quem não souber, deve ir ver no dicionário ou perguntar ao professor).

Antes de prosseguir, um esclarecimento quanto ao ato de escrever histórias para a infância. Eu acredito que somente quem não deixou enfraquecer a criança dentro de si tem a capacidade de as escrever. E Saramago, nesta história que não é, como todas as outras do gênero, apenas para crianças, nos remete para o universo onde reina em plenitude a fantasia, ou seja, a imaginação. É no seu terreno infinito (a imagem é um certo tipo de consciência. A imagem é consciência de alguma coisa ). E na constatação de que há algo diverso da consciência, ou um certo tipo de consciência é que podemos falar da imaginação. E, considerando que é ela que permite afirmar os monstros de Borges, os Pégasos, os Unicórnios e os Centauros vemos, de longe, a sua infinitude. E, assim sendo, imaginemos nós, adultos, o qual seria a possibilidade de criar de alguém que não viu mutilada mas sim estimulada esta capacidade!
Saramago reconhece a dificuldade de se escrever para crianças. Diz sem outras palavras que se tivesse os atributos necessários contaria uma bela história que um dia inventou. Sublinhamos a palavra inventou, o que remete de imediato para o universo da imaginação, de imagens retiradas do real ou do fictício. No caso, fictícias por dois motivos: porque é fruto da imaginação e porque é remissão ou um percurso através da memória. Todavia, não se trata de algo armazenado, mas de um período que se dá conta de que ele existe quando nele não se está mais. As histórias para a infância são criadas por adultos com elementos que foram vividos e que se transformaram e que são vistos de outra maneira. Isto é uma evidência.
Contando com isto, verifica-se uma reticência em Saramago: não conta a história, apenas faz o seu resumo, deixando, desta forma, um espaço para a criação de outras histórias. É um truque. Tudo indica, porém, que não é gratuito. E auxiliados pela ilustração, acompanhamos não apenas uma história, mas várias histórias que se localizam na infância.
O lugar da sua história é uma aldeia. O seu herói, um pequeno herói, é um menino do campo, que olha através da sua janela e concebe um espaço infinito e em branco, como o do velho escritor, e no qual pode caminhar.

Logo na primeira página, sai o menino pelos fundos do quintal, e, de árvore em árvore, como um pintassilgo, desce ao rio e depois por ele abaixo, naquela vagarosa brincadeira que o tempo alto, largo e profundo da infância a todos nós permitiu…

Passeia o jovem herói pelos campos, desce o rio, contempla, busca… Penetra o velho escritor no terreno profundo da imaginação, no sem fronteiras da criação, na busca do tempo perdido, no que permaneceu algures. O jovem atravessa o espaço real: o dos caminhos, o do rio, o das matas, situadas no espaço de Portugal, até que alcança o fim do finito. Então, tem que mergulhar mais fundo – ir a Marte.
O caminho permanece conhecido: o silêncio que zune, o calor vegetal, a seiva dos vegetais, o cheiro da nossa natureza. Mas, a partir de agora ele está sozinho. Terminados os campos, os cheiros conhecidos, mais ainda só ele se encontra, no meio de um grande descampado. A visão de uma montanha, numa planura. Resta subi-la para, ao final, encontrar uma flor moribunda. Impõe-se a tarefa de salvá-la, porém, não há água. Para isso, é necessário fazer o sacrifício, aquilo que distingue o herói dos demais homens. Este trabalho é invulgar uma vez que, nesta montanha, não há leis para salvar o mundo. Todavia, o pequeno herói tem uma tarefa inalienável. Ele sobe e desce, fazendo uma ligação necessária do Cosmo: da Terra para Marte, de Marte para a Terra, até que sacie a sede e faça retornar à vida a Maior Flor do Mundo.
Com as águas do Nilo, famoso pela sua capacidade fertilizadora, portanto providencial e presente na história dos povos, é que o pequeno herói salva a Maior Flor do Mundo, que, imediatamente, se enrijece e fortalece, assumindo a força de um carvalho. O mundo sente o seu perfume, ou seja, está limpo. Ele foi purificado após o sacrifício do herói. Esgotado pelo trabalho salvífico e ecumênico, o menino descansa à sombra da flor e adormece. Gentilmente, Ela cobre-o com uma das suas belas pétalas, da cor do arco-íris. É hora do retorno. A família desespera-se sem saber onde ele se encontra. Ele houvera salvado o mundo e foi recebido na sua aldeia com as honras de herói. Este é o resumo do resumo da Maior Flor do Mundo, de Saramago.
Temas clássicos que podemos encontrar nesta história. Primeiramente, façamos um reconhecimento: esta é uma história não só para crianças. Nela, detectamos um mito salvífico. Trata-se da salvação do mundo por um pequeno herói, que não o salvou de um dilúvio ou, conforme o previsto, de um incêndio universal, mas do descaso para com uma flor, que somente a sensibilidade apurada poderia compreender como fundamental. O mito do herói, como um Davi, na sua proeza ao vencer o gigante, segundo Saramago, uma história mal contada, mas em todo caso, uma frágil figura, que trouxe para si sem o saber a tarefa de nos salvar. Uma salvação sem leis, sem coerção, mas um pequeno gesto humano criado pela imaginação. Podemos, desta história, dentre outras coisas, compreender a fragilidade do mundo, do homem e a grandiosidade de pequenos gestos. Estes elementos podem ser um a um trabalhados em sala de aula: a montanha ou o centro do mundo, um herói salvador, o sacrifício, o reconhecimento do ato salvífico como elementos para a fomentação da consciência ecológica. Também se pode trabalhar esta história de outra maneira, como o sugere seu próprio autor – permitindo a construção de outra ou outras histórias.
Ainda enfatizando que o ato criativo não é espontêneo, mas despertado e mantido através do trabalho e da disciplina, recorro a Carlos Drummond de Andrade, aos seus deliciosos Contos Plausíveis. Estes contos, embora escritos em forma de prosa, se aproximam – pela densidade de imagens e pelo rigor da expressão – do que é poesia.
Para fazer uma introdução dos mesmos, cito-o:

Só um dos meus contos me acompanha por toda a parte, ao jeito de gato fiel, sem que o faça para pedir alimento. É um continho bobo, anão, contente da vida. Vai no meu bolso. Não o leio para ninguém. Seu calor me agasalha, já não me lembro o que diz, pois nunca o releio, mas sei que é raríssimo o texto que seja amigo do autor, e, quanto a este, não duvido. Meu melhor amigo é um continho em branco, de enredo singelo, passando todo ele na antena esquerda de um gafanhoto .

Primeiramente, Drummond diz que, para o poeta ou para o escritor não há outra saída senão escrever, por isso, seu companheiro é um conto em branco, ou seja, a folha vazia que, a princípio, será a morada de quaisquer palavras. É evidente a susceptibilidade, fragilidade e até misticismo da folha em branco, já que ela foi passada na antena esquerda de um gafanhoto, pequeno inseto conhecido pelos seus longos saltos, por ser de migração e pelo seu poder de devastar plantações inteiras. Mas também pode ser verde, a cor da esperança, saltar sempre para a frente, rumo ao futuro sem se deter por pouco que seja no presente e muito menos no passado, salta a longas distâncias e suas antenas são delicadas e quase invisíveis. Ao mesmo tempo, antena significa conexão com o mundo que, por sua vez, é uma condição para se ser poeta ou escritor. É um símbolo que representa a imaginação – a matéria-prima de qualquer criador e da infância.
Além deste, consideremos o conto A incapacidade de ser verdadeiro:

Paulo tinha fama de ser mentiroso. Um dia chegou em casa dizendo que vira no campo dois dragões-da-independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas.
A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte ele veio contando que caíra no pátio da escola um pedaço de lua, todo cheio de buraquinhos, feito queijo e ele provou e tinha gosto de queijo. Desta vez Paulo não só ficou sem sobremesa como foi proibido de jogar futebol durante quinze dias
Quando o menino voltou falando que todas as borboletas da Terra passaram pela chácara de Siá Elpídia e queriam formar um tapete voador para transportá-lo ao sétimo céu, a mãe decidiu levá-lo ao médico. Após o exame, o Dr. Epaminondas abanou a cabeça:
- Não há nada a fazer, Dona Coló. Este menino é mesmo um caso de poesia .

Esta é uma das mais belas homenagens já feitas aos criadores, e deverá ser uma das mais belas e poéticas descrições do ato criativo. Como poeta, Drummond é conciso. E como extraordinário poeta, ele serve-se da prosa para fazer poesia, criando uma defesa para a imaginação e, ao mesmo tempo, fazendo uma distinção que não estamos preparados para fazer: distinguir a mentira da poesia. Paulo é o grande visionário e não é por acaso que ele é uma criança. E que isto sirva para refletirmos. Pois em nome da seriedade não estabelecemos as criações próprias da infância e da imaginação, cerceando, desta feita, a capacidade criativa do homem. Não há dúvidas de que todos nós temos capacidades imaginativas. Mas também não há dúvidas de que uns são mais imaginativos do que outros e que a falta de preparação de pais, professores e da sociedade é responsável pela aridez da maior parte das pessoas. Isto porque é consensual educar para o mundo do trabalho e da produção, para o glamour e para a superficialidade, esquecendo o outro, a finitude e o desgaste da própria existência. Entretanto, na crise que nos envolve e devasta os valores cultivados e reconhecidos não são suficientes, o que significa que é o momento adequado para uma mudança radical, até porque já se configura um novo homem, se assim quisermos compreender. Talvez seja este o momento mais propício para ver o mundo poeticamente. Talvez esta seja a hora de as nossas crianças se tornarem casos de poesia e de nós termos o bom senso do Dr. Epaminondas.
De outra maneira, é momento de ouvirmos o romurejar do silêncio ou de apreciarmos o movimento da noite (o que se esconde por de trás do que se evidencia). É por isto que a obra da Sophia de Mello Breyner Andresen é interessante. Convido a todos a seguirem as páginas de O Rapaz de Bronze, com a ilustração de Júlio Resende.
Em Nota do Autor, ao final do livro, ela traz presente a intrínseca relação entre o mundo que vemos, sentimos, cheiramos e nos locomovemos e aquele que é fruto da imaginação, lugar de possibilidades, onde é possível se criar outra realidade não menos verdadeira do que a que experimentamos no dia a dia.

Muitos dos meus contos para crianças foram inspirados por praias, casas, jardins, parques e pinhais da minha infância. Assim, o “Rapaz de Bronze” foi pela quinta da minha avó e pelos feéricos jardins, bosques, avenidas, parques e pinhais que rodeavam a casa .

Mas não só as lembranças da “quinta da sua avó”, pois ela nos diz também que nele há reminiscências de um conto de Maurice Baring. Aqui como em toda a literatura ou em toda a linguagem que se pretende reveladora, é evidente a existência de um mundo que se insinua pelas frestas da realidade, todavia, podemos sem susto dizer que este universo que se insinua a ultrapassa e garante a sua existência para além dela, tornando-se autônoma.

Era uma vez um jardim maravilhoso, cheio de grandes tílias, bétulas, carvalhos, magnólias e plátanos.
Havia nele roseirais, jardins de buxo e pomares. E ruas muito compridas, entre muros de camélias talhadas.
E havia nele uma estufa cheia de avencas onde cresciam plantas extraordinárias que tinham, atado ao pé, uma placa de metal onde o seu nome estava escrito em latim.
E havia um grande parque com plátanos altíssimos, lagos, grutas e morangos selvagens. E havia um campo com trigo e papoilas, e um pinhal onde entre mimosas e pinheiros cresciam urzes e fetos .

Aqui, não temos dificuldade em reconhecer que este espaço está resguardado pela memória e que ele é real. Até nos é possível imaginar a escritora passeando pela sua infância. Com certeza, é possível acompanharmos os seus passos, sentirmos o vento soprar os seus cabelos, ver o encantamento do seu rosto diante do belo espetáculo promovido pela reunião de flores, que repartem entre si um espaço somente delas. A quinta da avó de Sophia, talvez até mesmo ainda exista. Porém, levemente, vemos insinuar-se um outro espaço que vai tomando conta do espaço memorial da escritora. O espaço visível permite o aparecimento do espaço invisível, que possui uma realidade de outra ordem. É esta abertura que, de fato, nos interessa. Ele coabita com um espaço comum ao da memória, porém, não se pode com esta confundir. Do mesmo modo, não ocupa o espaço dos objetos apreendidos pelos sentidos, ou seja, pelo que apreendemos no já, no agora, e referimos como esta mesa ou esta cadeira. O espaço do qual vimos falando aglutina todos os espaços e os ultrapassa, tanto o espaço objetivo como o espaço subjetivo e se estende para além dos mesmos. E quando se manifesta é na figura de um brincalhão, zombador, que garante vida a tudo o que julgamos inerte, amorfo e morto. É nele, todavia, que se juntam o conhecimento, o devaneio, o sonho e que impulsiona a linguagem a vivificar o que, de outra forma, julgaríamos inexistente. Daí podermos dizer:

Os gladíolos admiravam secretamente as camélias, mas não tinham muita consideração por elas: achavam que elas eram esquisitas e irritantes. As camélias são muito diferentes dos gladíolos: são vagas, sonhadoras, distantes e pouco mundanas. Estão sempre escondidas entre as suas folhas duras e polidas. Mas os gladíolos admiravam as camélias por elas não terem perfume, pois, entre as flores, não ter perfume é uma grande originalidade .

No mundo da imaginação não há lugar para coisas mortas. Tanto isto é verdade que A Bela Adormecida apenas esperava o seu Príncipe Encantado, por exemplo. Também é neste mundo especial que o gladíolo tem opinião e que as camélias são tímidas e sonhadoras. Sem motivos para dúvidas, posso afirmar que o finito não é plenamente conhecido e que nós temos receio de conhecê-lo, em nós. O Mundo liderado pelo Rapaz de Bronze nos permite informações que mostram a contiguidade das esferas do espírito, da sua pertença e existência no e com o corpo e, por outro lado, trazem conteúdos que podem ser trabalhados em sala de aula ou para uma visita de estudo, durante a Primavera, a um dos parques da cidade ou ao Jardim Botânico. Nas visitas, seriam apresentadas às crianças as flores e as árvores com o maior número possível de informações. Também seria um momento adequado para se falar das alterações ambientais e dos nossos compromissos com a preservação do ambiente, utilizando, para este fim, não só os dados científicos como também a imaginação.
Do mesmo modo, a festa das flores organizada pelo gladíolo seria um momento conveniente para se falar de solidariedade, amizade, espírito de grupo e da alegria. Também não se pode deixar de mostrar às crianças que há em todas as sociedades a necessidade de ordem, disciplina e de respeito para com o outro, inclusive, se pode preparar as crianças para compreender o multiculturalismo.
Ouçamos, novamente, a voz de Sophia Andresen:

Porque a noite é diferente do dia.
E durante o dia as flores estão presas à terra e não se podem mexer. E de noite as flores dançam e passeiam. E naquele jardim durante o dia mandavam a dona da casa e o jardineiro. Mas durante a noite mandava o Rapaz de Bronze .

O dia é do poder dos homens, e, conforme Bachelard, é da soberania da razão e a noite é o império da poesia, ou seja, da imaginação. É por isso que, na história de Sophia Andresen, o dia é da dona da casa e do jardineiro e a noite é do Rapaz de Bronze. São manifestações do mesmo ser que somos: razão e imaginação. Isto indica que ao longo dos tempos vem-se fazendo uma escolha, ou seja, nós temos escolhido ser dirigidos pela razão, porém, poderíamos ou poderemos construir um mundo dirigido pela imaginação. Todavia, não é momento para extremos, mas sim para equilíbrios.
Agora, estabeleço uma relação entre Sophia Andresen e uma proposta de Savater:

(…) Para condenar o mundo por ser como é o “realismo” basta: para o absorvermos e nos congratularmos por estarmos nele, necessitamos sem dúvida de “imaginação”. Suponhamos que a imaginação humana é o ponto de partida de toda a alegria e também do nosso inverosímil propósito de felicidade. Não se trata de uma imaginação em que nos refugiamos naquilo que não é, pois também isso é triste, mas da imaginação alegre que se deleita afirmando sem condições nem escrúpulos “aquilo que é”. Porque a alegria, apesar de todas os maus agouros, permanece intacta .

Estabelecendo a relação:

Uma festa igual à dos homens? Mas para quê? Nós não precisamos de mais festas. Para nós tudo é uma festa: é uma festa o orvalho da manhã, é uma festa a luz do sol, é uma festa a brisa da tarde, é uma festa a sombra da noite. As flores não precisam de outras festas. E eu também não .

Savater propõe uma imaginação alegre, um suplemento subjetivo que torna a vida desejável. Pela própria relação estabelecida entre os dois textos, vê-se que o seu terreno comum é a imaginação e que ambos assumem o compromisso com a vida, com o que é. Assim sendo, o comprometimento com o presente implica em não buscar o tempo perdido, ou um fim para além da vida, onde a felicidade fosse um fato.
A seguir, cito Georges Jan, que insiste na evidência de que a poesia se vincula à oralidade através de uma performance corporal, negada à medida que restringimos o texto à fixidez do escrito. Isto significa que, ao contrário do que comumente se ouve, a poesia não é um amontoado de palavras mortas e sem relação com o homem e com o mundo. E, em acréscimo, a concisão das palavras é um pretexto para que o corpo responda, para que ele se agite e compreenda-se na sua relação com o que o rodeia.
Como exemplo, atentemos para alguns poemas de Cecília Meireles:

Com seu colar de coral,
Carolina
corre por entre as colunas
da colina.

O colar de Carolina
colore o colo de cal,
torna corada a menina.

E o sol, vendo aquela cor
do colar de Carolina,
põe coroas de coral

Nas colunas da colina .

Recorrendo a figuras de estilo como a anáfora, a assonância e a aliteração Cecília Meireles presta a sua homenagem à infância através da poesia. Pela imaginação, ela povoa o mundo com as cores, a jovialidade, pureza e beleza do olhar para um mundo novo, ainda pouco preenchido pela palavra ou pela idéia.
A poesia pode ser trabalhada de várias maneiras: na leitura individual, pelos grupos ou aos pares e através da encenação. O som pode ser a atracão principal. A brincadeira com os mesmos pode levar à descoberta.

Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se isto ou aquilo .

Por intermédio deste poema, Cecília Meireles traduz uma das maiores inquietações das crianças e de muitos adultos. A pergunta é: por que temos que dirigir, sempre, a nossa vida pelo princípio da não contradição? Por que não podemos ter coisas diferentes, ao mesmo tempo? As respostas dos adultos às crianças a estas questões são fundamentais para um homem saudável.
Da mesma forma, este poema pode ser trabalhado a partir dos sons, e enfatizando-se as palavras escolhidas pela autora, conseguimos detectar os elementos mais importantes.
Estabeleçamos, agora, uma conexão entre Cecília Meireles e Fernando Pessoa.
Como se sabe, Cecília Meireles publicou poemas para a infância, coisa que, diretamente, Fernando Pessoa não o fez, porém, na sua obra não se pode dizer que problemáticas permitidas à infância não se evidenciem. Eu, muitas vezes me pergunto, até que ponto podemos classificar uma obra poética ou literária, pois é possível que o seu lugar somente seja permitido pela sensibilidade, habilidade e disposição dos ouvintes, e isto está intimamente ligado à maneira como os temas, os sons, a própria grafia das palavras e a sua visualização são feitos.
Vejamos Fernando Pessoa:

Saudades, só portugueses
Conseguem senti-las bem.
Porque têm essa palavra
Para dizer que as têm .

Nesta quadra, um tema de grande importância para a compreensão do povo e da cultura portuguesa se faz presente. Em forma de jogo, do encantamento poético, de perguntas e respostas, as crianças podem entrar em contacto com os pilares do seu ser e estar no mundo, com destaque para um povo particular e para uma cultura particular, o que é de vital importância para este mundo em transformação.
Atentemos mais uma vez para a poesia de Fernando Pessoa:

Havia um menino,
que tinha um chapéu
para pôr na cabeça
por causa do sol.

Em vez de um gatinho
tinha um caracol.
Tinha o caracol
dentro de um chapéu;
fazia-lhe cócegas no alto da cabeça.

Por isso ele andava
depressa, depressa
p’ra ver se chegava
a casa e tirava
o tal caracol
do chapéu, saindo
de lá e caindo
o tal caracol.

Mas era, afinal,
impossível tal,
nem fazia mal
nem vê-lo, nem tê-lo,
porque o caracol
era do cabelo .

O poema, que não foi escrito com a intenção de ser um poema para a infância, pode, todavia, ser levado à sala de aula, tendo em vista que a sua estética é compatível com os interesses da criança. Mais uma vez, a sonoridade pode ser o caminho mais confortável. E, como é visível, há harmonia na convivência do real e do imaginário, quando o primeiro cede lugar ao segundo, e este exulta no jogo poético.
Nos dois poetas é importante que se veja que, acima de tudo, se trata de uma poesia da mais alta qualidade. Como também não se pode negligenciar o jogo poético que se estabelece entre o real e o imaginário. Esta propriedade que está de posse, principalmente, das crianças, deveria ser preservada. É lamentável que não pugnemos por isto. Todavia, este é um momento de construção e, se o mundo já foi visto pelo prisma do mito, da religião, da técnica, será que não é hora de pensarmos numa síntese?
Depois do exposto, apresento uma proposta que entendo poder ser trabalhada em sala de aula:

Roda de Leitura: Primeiramente, deve-se criar um ambiente para que a mesma seja feita com garantia de sucesso. É fundamental, por exemplo, que seja criado um cenário ou vários no espaço da sala de aula, a fim de que as crianças ou os adolescentes sintam que será vivido algo novo naquele dia.
Depois da leitura um bate papo sobre o que foi lido e sentido, espalha-se por sobre o “mar de histórias”, os livros escolhidos para aquela semana. Nenhum livro deve estar ali sem motivo, o “artífice” deve comentar um a um, indicando possíveis leitores, dando dicas da obra, autor e outras que desejar. Então, as crianças escolhem aqueles que desejarem ler para casa.

A Roda de Leitura pode ser de:
- suspense;
- de humor;
- de poesia;
- de música;
- de quadrinhos;
- de imagens;
- de artigos de jornais, etc.

Momento da poesia:
- construção do cenário;
- leitura em pares, em grupos, individual;
- comentários das crianças;
- memorização.

BIBLIOGRAFIA

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HOUAISS, Antônio, Dicionário Houaiss da língua portuguesa, Rio de Janeiro: Instituto Antônio Houaiss de Lexicografia, 2004.
MEIRELES, Cecília, “Colar de Carolina”, In: ou isto ou aquilo, Ilustração de Thais Linhares, 6ª Ed., Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2002.
MONTAIGNE, Michel Eyquem, Ensaios, Vol. I, Tradução de Sérgio Milliet, precedido de Montaigne – o homem e a obra, de Pierre Moreau, 2ª Ed., Brasília: Editora Universidade de Brasília; HUCITEC, 1987.
NIETZSCHE, Friedrich, « La naissance de la tragédie ou Hellénisme et pessimisme », in Œuvres, Éditions dirigée par Jean Lacoste e Jacques Le Rider, Tradução de Jean Lacoste e Jacques Le Rider, Prefácio de Jacques Le Rider, Paris: Éditions Robert Laffond, S.A. 1993.
NEVES, João Alves das, (org.), Fernando Pessoa. Comboio, saudades, caracóis, São Paulo: FTD, 1988.
SARAMAGO, José, A maior flor do mundo, Ilustração de João Caetano, Lisboa: Editorial Caminho, S.A, 2001.
SAVATER, Fernando, “A Imaginação alegre”, In: Do mundo da imaginação à imaginação do mundo, Tradução de Miguel Serras Pereira, Lisboa: Fim do Século Edições, 1999.

Neiza Teixeira
neizateixeira@gmail.com
Doutora em Filsofia
Porto, Primavera - 2007





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