“ Die Verwandlung” ou “A Transformação”

Neiza Teixeira
neizateixeira@gmail.com
Publicado el: 19/02/07


       Facebook               Texto en Word 


    


Empreender uma leitura sobre um dos contos mais conhecidos de Kafka (se bem que este é um dos autores, cuja obra não deixa indiferentes os filósofos, os psiquiatras, os literatos, os críticos da literatura e os livres pensadores) poderia iniciar de diferentes maneiras. Então, comecemos pelo princípio, que é onde o conto começa sua revelação.



“ Die Verwandlung” ou “A Transformação”

Neiza Teixeira
Doutora em Filosofia

neizateixeira@gmail.com
http://neizateixeira.blogspot.com

Empreender uma leitura sobre um dos contos mais conhecidos de Kafka (se bem que este é um dos autores, cuja obra não deixa indiferentes os filósofos, os psiquiatras, os literatos, os críticos da literatura e os livres pensadores) poderia iniciar de diferentes maneiras. Então, comecemos pelo princípio, que é onde o conto começa sua revelação. Assim:

Quando Gregor Samsa acordou uma manhã, se encontrou na cama, convertido num inseto gigante (…).

A Transformação de Gregor Samsa num inseto gigante nomeia o extenso relato de Kafka. Com ela se inicia e é sobre a mesma que a sua escrita se deixará levar. Normalmente, as traduções conhecidas sejam elas portuguesas ou espanholas, por exemplo, trazem como título da obra o substantivo A Metamorfose. Deste modo, também a experiência do personagem assim é vista. Porém, numa das minhas buscas na Net, encontrei uma entrevista de um professor espanhol com Jorge Luís Borges, que trata duma tradução da referida obra. No momento em que era entrevistado, o grande escritor argentino revelou que o título correto do conto deveria ser A Transformação, dado que em alemão, a língua na qual Kafka o escreveu, o título é Die Verwandlung e não Die Metamorphose, como também afirma não ser sua a tradução que, agradavelmente, sentimos vontade de ler, por se tratar de tão ilustre tradutor.
Para esclarecimento pessoal, recorri ao Houaiss. Neste dicionário, encontramos que, na língua portuguesa, metamorfose, substantivo feminino, do grego metamórphõsis, eõs “transformação, metamorfose significa: 1) mudança completa de forma, natureza ou de estrutura, transformação, transmutação; 2) na Biologia indica mudança relativamente rápida e intensa de forma, estrutura e hábitos que ocorre durante o ciclo de vida de certos animais; 3) mudança de aparência, caráter, circunstância; 4) mudança completa de uma pessoa ou de uma coisa .
O substantivo feminino transformação, de origem latina, transformatio, õnis, transformação, metamorfose, tem uma enorme aplicabilidade, inclusive, na Física e na Matemática, o que já indica a sua grande complexidade. Aqui, ficamos com ato ou efeito de transformar (se).
Na língua alemã, no dicionário ao qual recorri, que não é um dos melhores, die Metamorphose é metamorfose, porém, die Verwandlung significa transformação, e também possui aplicabilidade na Matemática. Depois do que foi visto, e considerando que, se Kafka quisesse ou se entendesse se tratar da metamorfose de Gregor Samsa, ele teria usado Die Metamorphose e não Die Verwandlung, opto por usar o título A Transformação para a obra em perspectiva.
A leitura do conto remete para este acontecimento, pois em nenhum momento podemos falar da metamorfose de Gregor Samsa, mas da sua transformação num inseto gigante. Aqui, gostaria de remeter para o filme de David Lynch, The Elephant Man, porque ambos sugerem a degeneração da forma, no entanto, a permanência da mais alta sensibilidade humana. Se, quando Gregor Samsa possuía a forma humana não o podíamos compreender além de um trabalhador, sempre às voltas com os trens e com as viagens, após a sua transformação temos a oportunidade de conhecê-lo na sua humanidade e sensibilidade. Por outro lado, apesar de The Elephant Man não ter sido vitimado por uma transformação, este filme poderia, sem problemas, tratar-se de uma leitura de Lynch, da tragédia humana e kafkaniana. O personagem do cineasta americano já se nos apresenta formalmente desumanizado, tornando-se, como o filme revela, praticamente impossível crer que, por debaixo daquela horrenda forma, alberga-se um grandioso e sensível ser.
No que diz respeito a esta leitura, apesar de não serem desconhecidos os inúmeros estudos sobre a obra kafkaniana, por exemplo Deleuze e Guattari e Walter Benjamin, atrevo-me a apresentar uma leitura pessoal, muito mais pelo prazer de ler, escrever e partilhar do que como intuito de que seja necessário para outrem que não eu, escrevê-la. O mesmo se aplica ao cinema de David Lynch. Da parte dos estudiosos de Kafka, elas tanto são convergentes como divergentes, dando a impressão de que sobre a mesma tudo já foi dito. E quanto ao cineasta, porque ele ainda se encontra vivo, muito podemos saber dele por ele mesmo, o que não podemos fazer com Kafka não somente porque está morto, mas também porque não teve uma presença destacada enquanto vivo. A prova vem da publicação das suas obras póstumas e do desejo de que o seu melhor amigo as queimasse, porque entendia que elas para nada serviriam.
Assim, o que aqui se apresenta não deverá constituir nenhuma novidade. Portanto, não se propõe uma nova teoria ou algo que ainda não foi dito. Como diz Saramago, escrever pode ser não mais do que uma tentativa de compreender. E compreender o mundo não pode ser praticado sem uma leitura de Kafka. Além do mais, a sua leitura é, desde sempre, um grande desafio.
A Transformação de Gregor Samsa é apresentada de forma brusca, porém, nela própria podemos ver o seu anúncio. Aqui, como poderia remeter para o cinema de Tarkovski, nada é dito ou exposto acidentalmente: Quando Gregor Samsa acordou uma manhã do seu sonho intranquilo…Consideremos três fatores: a transformação decorre durante a noite que, por sua vez, pede o silêncio e o isolamento do mundo; ela ocorre durante o sono, momento em que não temos a consciência de nós mesmos e do mundo, e quando somos invadidos pelos sonhos, que expõem uma abertura que não conhecíamos até Freud, ou, pelo menos, ainda não tinha chegado a hora de fazermos objetivamente a sua aceitação, e que foi esteticamente explorada por Salvador Dalí e pelos Surrealistas; e, finalmente, a inquietação do sonho, que mais não significaria do que a transformação, que se desenrolou durante uma noite.
Estes três fatores revelam a capacidade do autor reunir na escrita muitas possibilidades de leitura, a sintonia do personagem com os meandros da sua história, revelando a excelente estrutura da obra. Com detalhes aparentemente desnecessários, é possível formularmos ou não um bom juízo sobre uma obra, como também é possível desvendarmos um caminho oculto para a sua elucidação, por debaixo das letras que a constroem em apenas uma dimensão. Vendo além dos sinais gráficos, o leitor cria e percorre as três dimensões que melhor lhes permite compreendê-la. É assim que deve ser feito quando este autor é Franz Kafka, pois, neste autor, como já referi acima, nada aparece acidentalmente. E como os grandes autores, a sua linguagem é profética.
Assim, retiramos a idéia de que o que aconteceu a Gregor Samsa foi brutal, sem explicações e sem motivos aparentes. A questão é saber o que concorreu para que se desse tão incrível acontecimento. Obviamente, nós teremos que sair dos limites do livro e das letras e da sua interpretação literal. Há, e não poucos estudiosos, que defendem a idéia de que Gregor Samsa seja o própro Kafka. Eu, depois de ter lido Borges e Pessoa, não me sentiria tão segura, se somente assim conseguisse ver. Então, num primeiro momento, é mais profícua uma leitura pausada, nela mesma, sem qualquer preocupação com algo além dela mesma, quer seja a personalidade de Franz Kafka ou alguma mensagem ou moralismo acobertado pela transformação de Gregor Samsa.
Após um sonho intranquilo, chega a manhã iluminada e iluminadora, e que poderia ser reveladora. A luz, o condicionamento do homem para a vida ativa fazem com que saibamos porque o personagem kafkaniano passou por uma noite tormentosa. A primeira imagem que podemos re-construir se deve a alguém que, ocultamente, sempre esteve observando Gregor Samsa. É esta pessoa, que não gozou de um sono reparador, que se oculta sob a capa de um narrador e que nos descreve a nova imagem do ainda existente caixeiro-viajante. A linguagem é em terceira pessoa. Não há, portanto, a supressão do autor, e nem um distanciamento que permitisse uma fusão.
Do que se apresenta, em primeiro lugar, destaca-se a imagem de um espelho, porque falando de alguém que olha de fora, o narrador descreve imagens e sensações como se as visse ou como se as vivesse, após as mesmas terem passado pelo olhar e pela ânima de Samsa. Assim sendo, há uma invasão do narrador no próprio pensamento do inseto, que continua sendo uma pessoa com uma família e com uma história, portanto, identificável com qualquer um de nós.
Olhar detidamente para várias coisas é importante, por exemplo, compreender porque o personagem se transforma num inseto, como também saber porque ele tem a profissão de caixeiro-viajante. Estas são algumas das coisas que exigem ser compreendidas e que não são fundamentais apenas para quem lê o conto profissionalmente ou como um passageiro casual. Aos poucos, ainda que contra a nossa vontade, a escrita de Kafka nos remete para muitos personagens, para um mundo absolutamente real e para um vazio imenso e para uma necessidade, após um riso sarcástico ou comovido, de buscar ou de construir sentidos.
De imediato, faz-se necessário ressaltar que Gregor Samsa não se sente como o outro de si mesmo. Ainda que ele levantasse um pouco a cabeça e visse algo absolutamente estranho, que não era o que havia sido moldado pela sua consciência, com toda a autoridade ele se questionava sobre o acontecimento que o houvera transformado. Ele está tão atônito como toda pessoa comum, humana.

O que me aconteceu?

Esta é a primeira e única pergunta que podia formular, quando ele se defrontou com outra imagem, e tentava compreender o que tinha diante de si. Ao olhar em volta percebeu um descompasso entre si próprio e o seu habitat. Nós, leitores do conto, nunca temos dúvidas sobre o homem que se abriga sob a nova aparência, porém, ele começa a se sentir estranho para si mesmo e para o seu universo imediato. Começa por se distanciar a partir das suas coisas mais íntimas: o seu quarto, os instrumentos que identificam o seu trabalho, o quadro de uma mulher, que traduz o seu envolvimento com a sua espécie e com a sua história. Ainda que isto muitas vezes tenha sido dito, não custa nada dizer que reconheço a habilidade do autor em trabalhar as imagens, a sua alta percepção da perspectiva, os seus jogos, que até nos fazem pensar num filme com seus planos e contra-planos, com seus contrastes de luz e com seus essenciais closes up.
Do mais próximo para o mais distante, o personagem, dirigido pelo olhar do narrador, desloca o seu olhar para a janela, para um mundo conhecido, para um tempo meteorológico e para uma temporalidade. Mais uma vez, lembro o cinema de Tarkovski, quando leio a referência sobre o estado atmosférico: o tempo triste, ouvia-se como a chuva repicava contra a chapa da varanda… chegava-lhe a melancolia. O tempo que se emparelha com o estado de espírito de Gregor Samsa e as reflexões que registram o seu passado, o presente e o que poderia ser o futuro, já anunciam o que será sua vida, a partir da transformação.
Primeiramente, Gregor Samsa não se adapta imediatamente à nova forma do seu corpo. Por isso, pensa em dormir, pois ainda não houvera tempo para admitir que não se erguera uma barreira entre o pesadelo e a realidade. Do simples para o complexo, compreende a incompatibilidade entre o seu corpo atual e o seu leito. É desta maneira que Kafka, como um estratega, dirige a nossa leitura para além dos sinais. Ele tece as imagens, focaliza os melhores ângulos e, como um grande esteta, como um grande conhecedor da arte de desvelar, tece imagens com as palavras. O homem somente pode habitar na forma humana. Esta é a primeira revelação.
Do sono, um dos maiores alimentos e um dos instantes em que o homem faz da morte aparente o alimento para a vida, o autor atém-se na locomoção. A forma humana e o movimento lhes são próprios. Por isso, ele faz questão de falar das mais de cem tentativas de Samsa para se locomover. Lentamente e com muito sofrimento ele procura encontrar equilíbrio. A adaptação física vem acompanhada da revisão da sua vida, das angústias e insatisfações. Com isso, a sua transformação começa a oferecer justificativas, pois, à medida em que ele se distancia da sua forma humana, mais nós podemos nos aproximar da sua humanidade. Porém, impõe-se uma questão: como entender o que se passa com este homem que cumpria integralmente com as suas responsabilidades profissionais, com as responsabilidades familiares, e que se transformou num inseto gigante?
Compreender este acontecimento somente é possível acompanhando o personagem, participando nas suas reflexões, e, como ele, fazendo perguntas, indagando o passado e o presente. As suas conclusões também podem ser nossas, por exemplo, compreender com clareza que não há igualdade entre os homens, a não ser a biológica. Esta descoberta pede o seu preço, pois é somente suprimindo todo e qualquer vestígio de aproximação que se restrinja somente à forma que podemos alcançar o homem naquilo que o pode qualificar como homem. Quero com isto entender que o trabalho de Kafka pretende mostrar quem nós designamos como homem e, ao mesmo tempo, retratar o seu estado atual, assim, talvez, nos apresentar uma saída, coisa que não foi possível oferecer a Samsa. Se afastamos toda a igualdade adquirida no momento do nascimento, chegamos à conclusão de que somos absolutamente desiguais, então, resta-nos tentar compreender esta desigualdade. É, aí, que se torna imprescindível acompanharmos cada movimento do autor, prestarmos atenção a cada detalhe, até mesmo quando ele diz que uma leve brisa entra por uma fresta da janela. Através destes detalhes, chegamos à conclusão da diferença entre os homens, determinada pela sua condição social e até mesmo geográfica. Infelizmente, é somente após a transformação que Gregor Samsa se dá conta de que o homem não é igual nem por natureza e nem por determinação social. E, mais que isto, ele compreende que o homem não nasce livre. Sabemos nós que, ao contrário do que nos disseram os existencialistas, afirmar que somos livres é apenas um inalienável desejo: sem escolha somos destinados a uma prisão particular. Sem recursos, nascemos envolvidos por uma rede, na qual todos os nossos movimentos servem apenas para que as tramas se tornem mais estreitas. Esta é a segunda revelação.
A rede é hierarquizada e mantida pela autoridade, que abusa da sua condição. Um sistema de vigilância está sempre acionado, de modo que nenhuma informação seja desperdiçada. Deste modo, a vida do homem não lhe pertence, pois, na sua imensa solidão, como revela Kafka, ele é sempre vigiado. Como se cada um de nós, ao nascimento, adquiríssemos uma câmera particular que nos acompanha durante toda a nossa vida. As informações que ela, necessariamente, emite não têm um destino certo, qualquer um, conforme os seus interesses, pode obtê-las. Esta é a terceira revelação.
Neste jogo, no qual o homem parece não ter alternativa, tudo é importante, inclusive, um despertador. Considerando a sua presença no conto, e considerando que, para Kafka, tudo desempenha uma função essencial, esta peça tem um grande valor.
Uma das grandes construções do homem, e, por muitos, considerada a sua decadência é a temporalidade. Somente com a sua criação foi-lhe possível conseguir os seus sucessos. É sempre guiada por ela, e pela linear, que, apesar de todas as revoluções atuais, nós nos guiamos. O fato de um despertador não haver tocado na hora programada não é apenas um prejuízo laboral, muito mais do que isto, tendo o processo de Gregor Samsa desencadeado, caminhamos sem retorno par a sua desumanização. Infelizmente, apesar de vivermos reprimidos pelos relógios que nos prendem no mundo e na relação com o outro, não nos conseguimos orientar de outra forma. Por isso, a destruição desta sustentação determina a própria eliminação do homem. Esta é a quarta revelação.
Ainda que para outros homens a vida continue sendo humana, para Gregor Samsa ela é, passo a passo, submetida a um processo de desumanização: a seguir à forma física e à alimentação, pois, como um inseto gigante não mais lhe agradavam os alimentos frescos e saudáveis, é a vez da linguagem ser destituída da sua função humanizadora. É assim que a sua rotina vai se transformando e que seus hábitos vão se desvanecendo. Como nada se transforma num ápice de tempo, há que se acostumar com o volume do corpo, com a quantidade de patas, pequeníssimas para o seu tamanho, e ainda dizer que era necessário desenvolver funções incompatíveis coma a sua antiga forma. Fisicamente e nas funções primárias, Gregor Samsa encerrava sem retorno o seu registro humano. O fim da linguagem ou da comunicação é o fim do homem. É a quinta revelação.

(…) Voltou a olhar para a janela, porém, a neblina da manhã, que não deixava ver o outro lado da rua, não podia inspirar ânimo a ninguém. (…)

Esta observação do narrador serve para que entendamos que ainda não se completara a transformação de Gregor Samsa. Mais ainda, ela serve para que não tenhamos ilusões e que não esperemos que tudo não tenha passado de um pesadelo ou que acabe bem.
O autor trata de um processo de desumanização, por isso, tudo o que é mais próximo e que seja sustentação do homem deve ser destruído. Neste sentido, ainda que toda a família do caixeiro-viajante estivesse à distância de uma parede, não seria possível pedir ajuda. Cada transformação é a de uma pessoa singular, por isso ela é solitária, inalienável. E ainda que Kafka não registre isso, fica claro para o leitor que Samsa compreendeu o seu distanciamento. Apesar de sabermos que o homem se torna homem entre outros homens, as suas principais decisões, os seus mais reveladores momentos como os mais obscuros são vividos em solidão. E em se tratando de perecimento da raça ou de decadência do homem, necessariamente, ele não poderá, jamais, contar com o apoio daquela que tem como função primeira introduzi-lo no mundo.
Ainda que tenhamos a certeza de que o que foi dito acima é, na realidade atual, o mais aceitável, convém, aí, registrarmos um paradoxo: em todos os momentos da sua vida ele é solitário, porém, é sempre acompanhado por um vigilante que dele nunca se aparta e que também se dilui à sua volta ou se esconde como as câmeras ocultas dos Shopping Centers, um pastor ou uma central de informação que não lhe permite ser livre. Este grande vigilante, que está em todos os lugares como o anjo da guarda de cada um, tem o controle total sobre a sua vida e é implacável nos seus castigos. É um ditador que não permite deslizes. Se isto acontece, imediatamente é acionado o seu exército de vigilantes. E, no momento em que um servidor cai na armadilha inexplicável e inquestionável, como aconteceu com Gregor Samsa ou com Joseph K., que nunca tiveram o direito de saber o que lhes acontecera fica claro que ele não mais serve ou nunca fôra importante.
É assim que passo a passo o homem vai sendo apartado de tudo o que lho fora conferido no início, e que constituía a sua identificação consigo mesmo. É neste caminho que, no processo contínuo de desumanização, é fundamental que seja desumanizado o trabalho, justamente porque sem o seu trabalho o homem não tem honra e, justamente com o trabalho sistemático, racionalizado é que ele pôde vir a ser homem. Tão importante quanto o trabalho é a família, por isso, é justificável que na duração total do processo ela esteja sempre presente e que todas as esperanças de Samsa advenham dos seus incentivos, ainda que estes sejam apenas percebidos por uma das partes. Por outro lado, podemos apontar algo positivo na perdição completa do personagem kafkaniano: ainda que de maneira brutal e trágica, ele teve a oportunidade de saber quem era ele e onde ele vivia. Daí, podermos compreender porque Gregor Samsa tinha como profissão a de caixeiro-viajante. O homem ligado ao comércio, que lhe permitia um bom salário, porém, que não lhe permitia pensar em si. Assim, conclui-se que é necessário que o homem saiba de si, ainda que não tenha de si a melhor imagem. E neste momento deve ser exigência fundamental que tomemos a consciência do que somos. Esta é a sexta revelação.
No decorrer da leitura, é possível entendermos claramente a opção de Kafka em fazer de Gregor Samsa um inseto gigante. Pois, convenhamos, o que seria mais indigno para um homem do que se ver transformado em um inseto? Justamente ele, o escolhido por Deus para dominar o mundo, e dentre todos os animais o único que é a imagem e a semelhança do seu criador? E mais, deixar de comer alimentos frescos e saudáveis para se alimentar unicamente de alimentos estragados, da podridão do mundo, e deixar por onde rasteja um caminho de gosma e de nojo? Não poderia ser outro o personagem kafkaniano.

(…) Se distinguia claramente uma porção do enorme casarão negro e cinza – era um hospital – do outro lado da rua. (…)

Um enorme casarão negro e cinza – um hospital. No caso de Samsa, é fácil saber porque ele era negro e cinza, mas, por quê um hospital tem que ser nestas cores? E por quê o negro e o cinza têm que representar dor, abandono e sofrimento? O tempo, a chuva, o negro e o cinza são anunciantes do que se desenrola. O hospital ao longe também mostra que o mal sofrido por Samsa não pode mais ser tratado pelos homens.
Lá fora, coincidentemente como hoje (11/02/07 – 20:03 - Porto), a chuva cai, com a seguinte diferença, aqui, não é uma metáfora, ela é real. No conto, é um recurso. As mãos de Kafka, manejadas pelo narrador, nos conduzem, nos aproximam da chuva, nos fazem ver que, gota a gota, ela molha a terra. Nos seus planos e contra-planos promove-se contrastes. Sabemos nós da necessidade da chuva, sabemos nós que ela deve molhar a Terra no tempo certo, e que, por isso, podemos ter colheitas fastas ou nefastas. Assim como sabemos que ela é a faxineira do mundo. É ela que nos faz sentir o inesquecível cheiro de terra molhada, é ela que penetra na Terra e que permite que tenhamos boas plantações, riquezas minerais e boas águas e boa saúde, dado que a sua pureza é remetida para nós mesmos, que possuímos uma grande quantidade de água no nosso organismo, porém, como sempre queriam os gregos, se tudo for na justa medida, tudo é pleno de vitórias. No conto, a chuva que goteja é signo da tristeza e do sofrimento de Gregor Samsa. Ela é premonitória. Sua função é anunciar que a transformação anda está em desenvolvimento e que não terá um feliz desenlace.
Do lado de dentro da casa, a ação humana continua. O personagem kafkaniano nos atrai para mais uma fase da sua desumanização: a visão de uma fotografia – um homem metido numa farda reluzente, uma espada e um sorriso. Este é Gregor Samsa, lembrando-se de si… Com este planos e contra-planos, vemos desvanecer tudo o que foi de si. Desta vez, é afetada a sua história como defensor do Império: na fotografia o registro de um bravo militar, que defendeu, no momento necessário, a sua pátria. Paralelamente a esta recordação, o Procurador, seu chefe imediato, está à frente da sua família, pedindo justificativas pelo incumprimento do seu funcionário. Como já havia sido dito antes, como trabalhador dedicado ele já houvera perdido o seu registro. Aqui, como aconteceu com a sua história militar e com a sua trajetória de homem digno, nada mais resta que permita fazermos o seu ajustamento no nosso mundo. Isto faz com que seja difícil que aceitemos que justamente as pessoas mais fiéis aos sistemas e a elas próprias, porque é neles que elas constituem a sua personalidade, são as mais fragilizadas e são aquelas que servem como bodes expiatórios da humanidade. Por outro lado, a transformação de Samsa pode ser vista como a recusa de aceitar o que o oprime ou um aviso para o que poderá ser de todos, caso não acordemos do nosso sono dogmático. O círculo vai se fechando em torno do debilitado Gregor Samsa. Só resta esperar pelo golpe final, que não poderia vir de outros senão da sua própria família. O algoz é seu pai, que o fere fortemente. Ferido, ele dorme…
Ao acordar, dá-se conta dos seus prejuízos físicos: o lado esquerdo tornou-se numa imensa ferida, por isso coxeava; uma pata estava gravemente lesionada e sem vida. Sentia muita fome, e sentindo o cheiro de leite, a sua bebida favorita, aproximou-se de uma tigela posta perto de si pela sua irmã. Meteu a cabeça, até os olhos para o beber, porém, o sabor o desagradou. Observou os bens e a tranquilidade da sua família que ele promovera. Sentiu-se orgulhoso. E também viu que os hábitos dos seus pais e da sua irmã se tinham alterado depois da sua transformação. A rotina da casa estava em suspensão.
O fosso entre Gregor Samsa, um inseto gigante, e o universo humano, a cada momento mais aumentava, e o mais chocante da sua transformação é que, a cada passo, se acentua a sua humanidade. Ele continuou sendo o mesmo sob outra imagem. Dormindo debaixo do sofá ou arrastando-se pelo quarto, para ouvir o que falavam além das suas paredes, era o filho ou irmão e provedor dos recursos desfrutados pela sua família que se sentia identificado com aquelas pessoas que andavam nas pontas dos pés, para não o incomodarem ou por não compreenderem o que se passava. Mas, sabemos nós que numa sociedade, na qual hoje nos encontramos, e que foi prevista por Kafka quando ainda se esboçava, a aparência física prevalece sobre os valores considerados mais nobres. A beleza fabricada e idolatrada escolhe no princípio os que são bem vindos e os que são mau vindos. É por isso que houve tanta relutância dos seus pais em ver o que se passava com o filho. A mãe, como é atribuído a todos as mulheres, por causa da sua fragilidade, vinha sendo poupada pela filha, o pai, em nenhum momento se preocupou verdadeiramente com a situação, senão quando fazia contas às economias e quando pensava que não poderia mais ser sustentado e levar a vida sentado numa cadeira, informando-se sobre os acontecimentos banais do dia a dia, através dos jornais. Este abandono determinará o final de Gregor Samsa.
A fome continuava a incomodá-lo. Ainda que o leite, alimento primordial, permanecesse ao seu alcance, ele não poderia sorvê-lo, porque se tornou, para ele, indigesto. Kafka faz-nos ver que a transformação é radical. O leite é o alimento primordial para o homem e para muitos animais. Lembramos do momento cantado pelos poetas em que da Terra jorrava leite e mel. Como também se faz presente a lembrança nietzscheana de um momento, que lamentavelmente perdemos, em que da Terra jorrava leite e mel. Estes tempos pertencem ao período de ouro da humanidade, quando o homem ainda não tinha conhecimento da sua decadência. Simbolizado pela recusa do leite, o autor nos mostra o distanciamento do homem de si mesmo e do mundo. Por outro lado, podemos dizer que ele anuncia o futuro das grandes cidades, dos seus péssimos sistemas de urbanização, da pobreza e decadência do homem, da fome e da miséria. É a sexta revelação.
Tudo isto dá conta da radicalidade do estranhamento que não é só de Gregor Samsa, mas de todos nós. A confusão de não mais nos reconhecermos e de fazermos tudo para que isto seja a nossa marca, o distanciamento das famílias, a insondável solidão e perplexidade. Se por um lado isto significa autonomia, liberdade, isto também conduz ao abandono. É o reconhecimento da solidão irreprimível do homem que vemos surgir a cada letra das mãos de Kafka. Também quero crer que tudo tem o seu preço, e este é o preço pago por quem comeu da árvore do conhecimento. Se, no início, o homem para viver teria que retirar o alimento do suor do seu rosto, agora, o que vemos é que não é mais o trabalho quem garante o seu alimento, basta que olhemos a nossa volta e vejamos o desemprego de jovens e de adultos, os subsídios incentivando o homem a não mais tirar da terra o seu alimento, da sua família e do seus iguais, a destruição do ambiente. Tudo isto é prova de que outro castigo deverá ser criado. É a sétima revelação.
Aristóteles nos disse que a visão é o mais importante dos órgãos dos sentidos, e este é o último órgão a ser afetado no inseto gigente. A partir de então, para ele não há mais distinção entre o céu e a terra. Tudo à sua volta assumiu a cor do hospital, localizado à frente da sua casa.
Um mês de transformação é o tempo necessário para que tenhamos a noção da velocidade em que o mundo e homem se podem transformar. Se durante muito tempo tivemos a sensação de que o tempo corria muito lentamente, hoje, é o contrário o que se verifica. Só podemos pensar que, apesar de Kafka não poder compartilhar conosco, em vida, o que comprovamos, ele pôde anunciar, até mesmo tentando nos preparar para o que, hoje, perdeu a capacidade de nos surpreender.
O seu inseto gigante, quase ao fim da sua vida, já tinha a capacidade de escalar os tetos e as paredes. Assim, nada mais do que foi reconhecido e amado por Gregor Samsa lhe era útil. Retirar os móveis, a fim de que ele tivesse mais liberdade de movimento, foi o que se apresentou como racional para a sua irmã, que não demonstra sofrer pela perda do irmão. É neste momento, e numa última tentativa de retornar ao mundo humano em plenitude que ele espera reencontrar a sua mãe. Por sua vez, ela também espera ver o retorno do filho tal como era: como um ser humano consciente de que a forma determina o conteúdo, ela espera que o filho volte a ser reconhecido pela visão e não pelo sentimento. Neste momento tudo se revela para Samsa: a mãe não tem condições para aceitar o filho como ele se apresenta, o que é natural: a rejeição do homem pelo homem e o nojo do homem pelo próprio homem são sentimentos dos nossos tempos, já pressentidos pelo autor da obra; o pai não é mais um velho decrépito, que ele deixava e encontrava em casa quando saía ou quando chegava do trabalho, mas um homem em pleno vigor e saúde suficientes para que seja autônomo. Gregor Samsa percebe que foi vitimado por uma farsa. Além de ativo, o pai se revelou autoritário e não deixou de revelar o desejo de que o filho deixasse a casa.
É hora de revelar, de fato, o estado atual das coisas. O homem forte e autoritário que, ainda que sisfarçado, sufocou em todos os momentos o próprio filho lhe promove uma furiosa perseguição, porém, sem sucesso. Não o podendo esmagar, simbolicamente, ele usa maçãs como armas. A maçã é, para o homem do Ocidente, o símbolo da sua decadência. Foi o seu belo aspecto e a curiosidade de desvelar o oculto que levaram a mulher a aceitá-la da serpente e a oferecê-la ao homem. No momento em que foi sentido o seu sabor, juntos, fomos expulsos do paraíso, da Terra deixou de jorrar leite e mel, o prazer do sexo foi descoberto mas logo interditado, a procriação foi determinada como castigo e a mulher vaticinada como encargo para o homem. A queda do homem não poderia deixar de ser promovida por uma bela maçã, daí, o golpe final a Gregor Samsa provir de um arremesso.
E, finalmente, outra similitude com The Elephant Man. Este morreu no momento em que terminou a reprodução da torre que se localizava em frente ao seu quarto. O último feito de Gregor Samsa foi a audição de uma música, tocada pela irmã, promissora violinista. Ele experimentou uma indizível sensação quando ouviu as notas, esquecendo-se mesmo que não a poderia partilhar com outros homens. É neste sentido que entendo que a obra cinematográfica de David Lynch poderia ser uma leitura da obra de Kafka. Tanto o personagem de Lynch como o de Kafka passaram por situações semelhantes, e para ambos o mundo não poderia ser reconhecido. Para ambos, a arte é realização e promotoras de prazer e embevecimento, o que não ocorre com a maior parte dos homens.
O momento final para o personagem kafkaniano é o do rompimento com a família. Se ela o recebeu para agraciar o mundo, dela ele esperava acolhimento e compreensão. Talvez, tolerância não dele, como ele chegou a requerer, mas do pai, da mãe e da irmã Greta. Todas as humilhações possíveis, ele sofreu. Então, não mais havia solução, ainda que decidisse abandonar a sua casa, pois, no universo humano, só há lugares para humanos, sem contar com o enorme processo de seleção, na maior parte dos casos, injusto.
Vitimado no corpo e na alma, ferido mortalmente, no seu quarto, passa a noite em agonia. Às três horas da madrugada, ouve soar o relógio da torre, vê chegarem as primeiras luzes da manhã. É neste cenário, o único que se fez presente, que Gregor Samsa, debaixo do sofá, deu seu último suspiro. Era Primavera.
A família viu a sua morte como libertação. Ao amanhecer do dia, constatando-se que o filho provedor houvera dado o último suspiro, o pai, a mulher e a filha saíram para um passeio no campo. Aí ficou decidido o futuro e o novo investimento: um bom casamento para a filha, uma bela jovem, ainda adolescente. Quanto ao filho, já não mais se pensaria que aquela família guardaria sua memória. Ele passou como um anônimo e morreu como um inseto. Joseph K. morreu como um cachorro e Samsa não passou de um homem que se transformou num inseto gigante. Uma história lastimosa para quem espera do mundo o fausto e a riqueza. Como na vida do personagem de David Lynch, não houve saída para Gregor Samsa. A questão é saber se, para nós, depois de tantos avisos ainda continuaremos cegos e surdos, por isso, não compreenderemos o que alguns, além de extraordinários escritores, artistas, filósofos, cientista e homens do povo viram além do que nós, apenas viventes, não vimos.



Neiza Teixeira
Doutora em Filosofia
neizateixeira@gmail.com
http://neizateixeira.blogspot.com



Opiniones sobre este texto:




Condiciones de uso de los contenidos según licencia Creative Commons

Director: Arturo Blanco desde Marzo de 2000.
Antroposmoderno.com © Copyright 2000-2017. Política de uso de Antroposmoderno