A Velhice é a prova de que o inferno existe...

Neiza Teixeira
neizateixeira@gmail.com
Publicado el: 09/11/06


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Normalmente, evitamos falar da velhice não somente por causa da sua imagem ou do seu cheiro (há, inconfundivelmente, um cheiro que caracteriza a velhice e um cheiro que caracteriza a juventude), mas também porque a seu lado a morte nos sorri, mostrando que no combate que desde sempre travamos ela triunfa


A Velhice é a prova de que o inferno existe, ou melhor, é algo
entre o céu e o inferno, vá lá”*.
“Je suis la demeure de la future vieillesse”. (Siddharta)
Afirmar: « Eu sou a morada da futura velhice » significa assumir a totalidade da condição humana, a sua contingência, o seu rápido fulgor. É retirar todos os véus que encobrem o nosso não querer ver o nosso próprio caminho, se não formos surpreendidos antecipadamente pela morte. É estarmos dispostos a presenciar e a viver o momento onde o fim e o começo se encontram.
Normalmente, evitamos falar da velhice não somente por causa da sua imagem ou do seu cheiro (há, inconfundivelmente, um cheiro que caracteriza a velhice e um cheiro que caracteriza a juventude), mas também porque a seu lado a morte nos sorri, mostrando que no combate que desde sempre travamos ela triunfa. Como diz Beauvoir, a América riscou do seu vocabulário a palavra ‘morte’, aí, a gente fala de um ente querido; do mesmo modo, é escusado dizer que ela fechou a página correspondente à velhice (1970:7). Em França, o procedimento não é diferente, esta palavra é interdita. Aliás, pode-se dizer que por todos os lugares do Ocidente ela é silenciada.
Ainda que tenhamos crescido, ouvindo, inadvertidamente, dizer-se “O barro ao barro, o pó ao pó, a terra à terra, nada começa que não tenha de acabar, tudo o que começa nasce do que acabou” (Saramago, 1991:33), a curvatura nos assusta e suscita a recusa. O caminho do encontro é elidido do nosso dia-a-dia.
Saramago, quando rapidamente provoca o encontro que acima afirmamos, nos mostra que ambos, infância e velhice, começo e fim se encontram na mesma caminhada, nas forças que se esvaem, ou porque estão no fim ou porque irrompem instintivamente. O fim significa evasão, dissipação cósmica do que nasceu, floriu e, agora, se despede para re-fortificar a Terra geradora. O início, por sua vez, presentifica o que emerge da Terra fecunda com a finalidade de fazer permanecer o resultado da luta e da conquista dos homens.
Não é necessário definirmos o conceito velhice, assim como não é necessário falarmos do preconceito que a entorna. O que buscamos com a elaboração deste estudo é trazê-la presente não como se se tratasse de uma patologia ou como se se tratasse de um peso que os mais jovens ou o Estado devem carregar, mas como um marco, como o percurso natural de uma vida que se encaminha para o retorno. E como tal, que deve ser encarada com dignidade, primeiro, pelos que envelhecem; segundo, pelos mais jovens; e terceiro, por aqueles que têm a obrigação de zelar por todos os que deram a sua contribuição, ainda que anônima, para que o mundo continue.
Beauvoir diz-nos que quando resolveu abordar o tema da velhice, levantou-se contra ela um brado de indignação. Afinal, admitir que estava no limiar da velhice era afirmar que esta espreitava todas as mulheres, que, nelas, ela já havia sido bem sucedida e já as habitava (Idem, Ibidem). Isto comprova que as mulheres, e não só, preferem afirmar que a velhice não existe, ou que velhos são os trapos, o que denota que, para a sociedade de um modo geral, a velhice é um segredo vergonhoso do qual é indecente falar. Ainda que, agora, se tenha despertado para o fato de que as populações estão envelhecendo, portanto, que é necessário encontrar soluções para muitos problemas, certamente que não é a velhice, verdadeiramente, que está sendo vista de outra forma, liberada do preconceito, do medo, enfim, dos seus estigmas. Não podemos dizer que é a sua dimensão existencial que é perspectivada. De uma maneira geral, este reconhecimento pertence a um meio marginal: o dos pesquisadores, dos filósofos, dos artistas, de algumas entidades autônomas e dos literatos.
Muitas vezes somos levados a pensar que a velhice é um tema tabu apenas nas sociedades ocidentais. Porém, isto não é verdadeiro, e neste trabalho mostramos que nas sociedades não-ocidentais, por exemplo, entre os Wayana ela é temida e rejeitada. Para os wayana, o “traje” apreciado é o da juventude. O que é próprio aos rapazes é referido como Imiatáman iwonó; e o que é destinado às moças chama-se warurmáman iwonó. A velhice é compreendida como a vestimenta que se evita, que não se deseja envergar, e assim, um homem se refere a ela como tamuximan iwonomná e a mulher como kunumuximan iwonomná, expressões que significam literalmente “não quero a veste da velhice (masculina ou feminina” (Van Velthem, 2003:273).
Afirmamos que a velhice impõe a companhia da morte e que este pode ser um dos motivos pelos quais ela é abordada com receios. Além do seu aspecto, numa sociedade que ensina todos os dias que o belo é jovem, fresco, o que se encontra em plenitude, a velhice é a revelação do que desde sempre se escondeu, e que sempre foi esquivado: que os corpos jovens abrigam a sua contradição, a sua negação e a sua decadência, e que pouco importa os esforços da ciência em retardar o envelhecimento ou em encontrar a fonte da juventude, porque ele sempre chega; porque o próprio corpo exige a sua chegada; porque a finitude é exigência da condição humana.
Conforme os exemplos citados, falar sobre a velhice não nos permite estar descomprometidos, ao mesmo tempo, implica em apresentar algo que possa contribuir para que tenhamos uma visão diferente deste fenômeno. É assim que não nos podemos esquivar de fazer uma abordagem sobre a morte. Ainda que tenhamos promessas de além-mundo, a morte é um dos maiores temores do homem ocidental. A questão é especular porque uma sociedade que prega a vida eterna como prêmio tanto se incomoda com este assunto. E também especular sobre o que sabemos sobre a morte. É o que faz Derrida na despedida de alguns dos seus grandes amigos. É também o que faz Beauvoir na narrativa de despedida de Françoise de Beauvoir. Ambos fazem uma revista na vida de pessoas que lhes foram fundamentais. No primeiro caso, de amigos; no segundo, da mãe.
Após estas considerações, buscamos abordar a velhice sob três perspectivas: através de Simone de Beauvoir e de outros escritores, pretendemos fazer um ligeiro perfil da velhice na literatura; através de alguns estudos sobre povos não-ocidentais, pretendemos mostrar que este tema não é tabu apenas nas sociedades ocidentais; e, finalmente, a partir de algumas peças cinematográficas, pretendemos fazer uma associação entre cinema e literatura, no que diz respeito ao mesmo. Ao final, pretendemos, sucintamente, expor uma visão da dimensão existencial da velhice na sociedade Ocidental, adotando a filosofia como re-unificador das várias linhas de análise.
Citamos Derrida, no momento em que expressou seu sofrimento, aquando da despedida de Barthes, um dos seus grandes amigos:

(…) Dado que antes do acontecimento inqualificável que chamamos morte, a interioridade (do outro em mim, em vós, em nós) tinha já encetado a sua obra. (Derrida;2003:75)

Em primeiro lugar, não nos é possível falar para um morto; em segundo lugar, somente falamos para nós mesmos e para os que compartilham conosco o acontecimento, como diz Derrida, inqualificável. Assim sendo, a morte de alguém nos afeta existencialmente, e com toda a sua tragicidade quando já temos em nós a sua interioridade. Neste sentido, a morte de outros mais distantes não nos abala, dado que a sua interioridade não foi elaborada em nós. Aponta Derrida para a inevitabilidade do grande evento, como também para o luto daquele que profere palavras de adeus, daí que a obra Chaque fois unique, la fin du monde seja entendida como uma politique du deuil, e que aquele que profere palavras de adeus ou que expressa o seu sofrimento, já não fala para o amigo que jaz, porque ele não está no corpo jazido, como sombra do que fora, mas para si próprio, para os que o ouvem e para os que juntamente com ele se ressentem da perda.
Derrida define o dia derradeiro como o grande dia, a cada morte de um amigo, ao discurso que deve proferir a evocação de…

(…) um outro fim do mundo, o mesmo, um outro, e que cada vez este não é nada menos do que uma origem do mundo, cada vez só, cada vez o único mundo que no seu fim nos aparece como o que ele foi na origem, só, único, e o que ele deve à origem, quer dizer, o que ele teria sido, além de todo futuro anterior (Derrida, 2003:125).

De uma maneira poética e sofrida, Derrida aproxima o fim do começo, provoca uma vergadura onde ambos geram as mesmas coisas. O nascimento e a morte, o pli original. O momento onde os extremos se encontram e silenciam, onde fim e começo se tornam um e o que foram na origem e o que devem à origem, o que ele terá sido, além de todo futuro anterior. É possível unicamente neste momento ver o outro na sua totalidade, reunir o que foi. Foi por isto que Derrida, no momento em que Barthes morreu, coincidentemente, leu os livros, da autoria do amigo, que não lera: o primeiro, Le degré zero de l’écriture e o último La chambre claire.
O filósofo, através dos estudos dos amigos aos quais dirige as palavras finais, dá-nos a compreensão da morte. É a partir da ausência dos mesmos que, também, sente a força deste evento, pois, conforme suas palavras, “ter um amigo é ter a certeza inesquecível de que verá outro morrer” (Idem:137). É esta certeza que encerra a tragicidade da vida: presenciar a morte do outro.
Ainda que a morte não seja um acontecimento que se verifique somente na velhice, é neste momento, se não formos afetados por um acontecimento precoce, que ela atua. É a partir deste instante que somos encurralados na parede, que, para nós, não há mais nem tempo nem espaço percorríveis. Mas ela não é um evento com dia e hora marcada, ela entrega-se ao acaso e se torna um acidente, por isso, como diz Beauvoir, não existe morte natural. Como acidente, qualquer um, em qualquer lugar pode ser alcançado, e ainda enquanto acidente, cada morte é única e irremediável e sempre põe o mundo em questão.
É na perspectiva de que a morte é a companheira inseparável da velhice que ela é temida. É também no universo de uma sociedade de consumo que os velhos são rejeitados, pois o homem ativo é aquele que realmente tem valor, inclusive, porque não se transforma em encargo para os mais jovens e porque não espelha na sua face, no seu corpo e nos seus movimentos a decadência e a morte.
Ela apoiou-se entre as orelhas, olhou-me dentro dos olhos e me disse decididamente: Vê tu, eu abusei; eu me sinto muito cansada; eu esgotei todos os meus recursos. Eu não quis admitir que estava velha. Mas é necessário encarar as coisas de frente; dentro de alguns dias, eu tenho 78 anos, é uma grande idade. Eu devo me organizar, como consequência. Eu vou virar uma página. (Beauvoir:2005;23)

O não-reconhecimento de que se envelheceu é um dos principais entraves para o gozo de uma velhice saudável. Ainda que o corpo registre a passagem do tempo, a fadiga dos anos vividos e das experiências, o indivíduo reluta em se considerar velho. Françoise de Bauvoir, durante largo tempo se recusou a aceitar que já havia transposto o momento em que seu corpo atendia prontamente as suas solicitações. Há, incontestavelmente, um descompasso entre o corpo e a consciência. Há a teimosia de um e a intolerância de outro. Porém, se esta aceitação foi difícil para Françoise, do mesmo modo o foi para Simone de Beauvoir. O mesmo se diga, de um modo geral, para os filhos em ralação aos pais.

A quimioterapeuta aproxima-se do leito, retira o lençol, agarra a perna esquerda de mamãe: sua camisa de noite aberta exibe com indiferença seu ventre amarfahado, pregueado de rugas minúsculas e sua púbis calva. (…) Mas eu me virei e me concentrei no jardim. Ver o sexo de mamãe: isto tinha me chocado. Nenhum corpo existia menos, para mim, - não existia mais tempo. (Idem:27).

Consideremos dois fatos reveladores: primeiramente, o choque da autora ao defrontar-se com um corpo envelhecido. É a aparência de um corpo que se nega à juventude que lhe causa mal-estar, e considerando-se que é o corpo da sua mãe; em segundo lugar, a negação da sexualidade do outro, simplesmente porque este outro é a sua mãe. Além de tudo isto, entendo que o impacto maior de Simone de Beauvoir foi deparar-se com a velhice real e não com um conceito num corpo que lhe foi muito próximo, vigoroso, amado e reconhecido. Mas que, naquele momento, se apresentava doente, enfraquecido e envelhecido, anunciando a morte, ou seja, prestes a pôr o mundo em questão. Por outro lado, vale a pena considerar que, na maioria dos casos, a proximidade propicia o distanciamento, dado que é maior o impacto de se saber da brevidade da vida, por isso, talvez, o abandono de idosos pelos próprios filhos nos asilos ou mesmo nas suas próprias casas. Talvez esta atitude não seja uma rejeição à velhice, mas à dificuldade em reconhecer que alguém que amamos atingiu um estado onde seu corpo pede descanso ou obriga-se ao descanso, e que este é o futuro que aguarda a todos. Fazer o reconhecimento de que o corpo exige outro tipo de cuidados, que a vida ativa cede lugar a uma vida moderada e que outras propriedades são, a partir de então ativadas, é reconhecer a vida em completude. Se assim se faz, é possível que tenhamos a capacidade de ver a velhice noutra dimensão, que não se circunscreveria ao consumo de corpos como força de trabalho, e assim, nesta sociedade, os velhos não seriam um peso a ser carregado com sacrifícios e dispêndios. Porém, não podemos deixar de considerar o mundo no qual vivemos. Então, convém centrarmos a nossa atenção no mundo da informática, que é o presente, e que retira dos velhos um papel que lhes dava o protagonismo.
Nesta sociedade, que, infelizmente, trocou a memória humana pela memória artificial ou que amplia a comunicação a ponto de ela se auto-anular não poderia ser dado outro tratamento aos velhos. Aqui, recusa-se a aceitar a memória humana, uma herança que devemos aos gregos; aqui, desafortunadamente, é cultivada a sua exiguidade. Portanto, tratar bem os nossos anciãos, devolver-lhes um papel que outrora foi seu não é uma decisão individual: é uma questão, acima de tudo, política. O tratamento dado aos anciãos, nesta sociedade, não é uma atitude isolada. E podemos ir mais além, afirmando que uma velhice saudável começa a ser preparada na infância. Portanto, temos que educar com outros valores.
Todavia, nem todas as sociedades são como a nossa. Para muitas sociedades ainda vivas, os anciãos são cuidados porque são os guardiães da memória. A memória é uma evocação do passado. É a capacidade humana para reter e guardar o tempo que se foi, salvando-o da perda total. A lembrança conserva aquilo que se foi e não retornará jamais. É nossa primeira e mais fundamental experiência do tempo. Neste sentido, a humanidade corre o risco de perder-se ou mesmo de aniquilar-se se não resguardarmos a memória, que não se deve restringir aos documentos, aos monumentos, aos museus ou ser substituída por uma máquina.

Se desistir, a humanidade perde o seu narrador, e perdendo o seu narrador perde a inocência da infância.

É assim que um dos personagens de Win Wenders, em Wings of desire, resiste ao esquecimento, permanece lembrando ativamente das coisas que registrou na sua memória. Revivendo Homero, o grande Aedo, que nos deixou um dos mais belos e grandes registros da humanidade, o ancião passeia pela Berlin destruída, por causa do sangue frio e maldade do homem, esforçando-se por manter a humanidade, fazendo encontrarem-se o passado e o presente, pelo menos nos dando a oportunidade de pensar sobre o que fazemos e a pôr, ainda que na penumbra, em suspeição o que queremos. Por outro lado, Wenders, neste filme, que é um chamamento do homem para o homem, mostra o cotidiano das nossas vidas, despertando a nossa curiosidade para a grandeza ou pequenez de cada um dos nossos gestos.
Conforme referi anteriormente, a consideração maior à memória devemos aos Gregos, de onde herdamos uma boa parte das raízes do nosso pensamento. Aos Aedos Homero e Hesíodo, devemos os maiores registros das nossas origens. Consideremos Hesíodo (1992:v.22-35):

Elas um dia a Hesíodo ensinaram belo canto
Quando pastoreava ovelhas ao pé do Helicón divino.
Estas palavras primeiras disseram-me as Deusas
Musas Olimpíades, virgens de Zeus porta-égide:
‘Pastores agrestes, vis infâmias e ventres só,
sabemos muitas mentiras dizer símeis aos fatos
e sabemos, se queremos, dar a ouvir revelações’.
Assim falaram as virgens do grande Zeus verídicas,
Por cetro deram-me um ramo, a um louro viçoso
Colhendo-o admirável e inspiraram-me um canto
Divino para que eu glorie o futuro e o passado,
Impeliram-me a hinear o ser dos venturosos sempre vivos
E a elas primeiro e por último sempre cantar.
Mas porque me vem isto de carvalho e de pedra?

Na Teogonia, onde Hesíodo narra as origens através das palavras cantadas (após ser escolhido pelas Musas, ele deixa de ser pastor para se tornar Aedo), a sua função é preservar a memória em função de todos e, além disso, a poesia assume uma função profética. Hesíodo narra o passado mas também prediz o futuro. A ele cabe conservar e transmitir as histórias primordiais, a história do nascimento dos Deuses, assim sendo, da origem do mundo. Como diz Jatobá (2001;61), ele é um “cultor da Memória e, por isso mesmo, ele possui o poder de tornar presentes o passado e o futuro. Poder esse que lhe é conferido por Mnemosine através de suas filhas, as Palavras Cantadas (Musas)”.
A mesma função, a de cantar para sempre as origens, foi dada a Homero. Assim ele começa a Ilíada (2002:Canto 1;V):

Canta, Deusa, a cólera de Aquiles, o filho de Peleu; detestável cólera, que aos Aqueus trouxe sofrimentos sem conta e joga, como pasto, ao Hades, tantas almas de heróis fiéis, e fazia destes mesmos heróis presa dos cães e de todos os pássaros do céu – por conclusão dos desígnios de Zeus.

O tema da obra de Homero é uma dissenção – a guerra entre os gregos e os troianos – aí, ele define o comportamento dos homens e dos deuses. Esta obra ganha a sua importância tanto por ser a primeira obra de literatura narrativa, como pela precisão com que define o universo humano e o universo que cabe aos deuses. O seu aparecimento neste artigo deve-se à evidência de que ela é resultante de um empreendimento devido à memória. Homero foi mais um Aedo, a quem coube celebrar os Deuses e precisar para o homem a sua dimensão humana. Quando o Aedo remete para a Deusa a responsabilidade de cantar a cólera de Aquiles é um apelo à Memória que é feito. A ele coube narrar para todo o sempre os Gregos da Antiguidade.
Ainda como um trabalho que envolve a memória e todo o esforço de uma vida, iniciado aos seis anos de idade, e estendido até a morte, pois, segundo Goethe, tudo começou quando viu, aos seis anos de idade, no teatro de fantoches, uma encenação de Fausto, remetemo-nos para outro monumento do pensamento ocidental. É assim que começa o Fausto, de Goethe:

Surgis de novo, figuras fugidias
Que ao turvo olhar vos mostrastes outrora.
Cabem em meu coração tais fantasias?
Serei capaz de vos reter, agora?
Quereis entrar! Seja, reinai sem peias,
Vós, que subis das brumas da memória;
A minha alma renasce, emocionada
Pelo sopro mágico da vossa cavalgada.

É mais um drama humano que, em forma de poema, nos chegou. Uma obra que perseguiu seu autor até a sua morte e, por isso, podemos acompanhar todo o percurso de um gênio e de um homem que existiu como testemunho para a humanidade. A importância desta obra não advém somente do fato de ser a elaboração de uma existência, mas o tributo a uma existência, onde a infância, a juventude, a adultez e a velhez se imbricam, mostrando a unidade que é a existência humana e a capacidade de cada um, conforme as condições sociais e a estrutura que lhe é possibilitada, levar uma vida digna, importante e essencial para o indivíduo e para a humanidade. Isto revela que uma boa educação, que uma sociedade preocupada com os seus indivíduos pode lhes promover uma existência diferente.
Porém, se por um lado a velhice é apresentada como um momento grandioso e intelectualmente criativo, vejamos o exemplo oferecido por Beauvoir, quando analisa a velhice nas sociedades históricas. Segundo ela, este é o primeiro texto conhecido no Ocidente, consagrado à velhice (Beauvoir:1970;100).

Como é penoso o fim de um velho! Ele se enfraquece a cada dia; sua visão diminui, suas orelhas se tornam surdas; sua força declina; seu coração não mais tem repouso; sua boca se torna silenciosa e nada mais fala. Suas faculdades intelectuais diminuem e é impossível aproximá-lo, hoje, do que foi ontem. Todos os seus ossos doem. As ocupações que desempenhava com prazer não se fazem mais sem sofrimento e seu sentido de gosto desaparece. A velhice é o pior dos infortúnios que pode afligir um homem. O nariz se fecha e nada mais se pode sentir.

Principalmente o aspecto físico, expressão maior da decadência são, aqui, exaltados. É inegável que a velhice apresenta como característica principal o enfraquecimento do corpo, como também firma a intolerância do espírito que não aceita que seu “parceiro” não lhe corresponda. Muitas vezes, podemos até dizer que a insanidade psicológica auxilia o velho a fazer o equilíbrio. Da decadência, diz Jankélevitch (200;34) que são susceptíveis os indivíduos, as civilizações, a espécie. Portanto, nada escapa à ação do tempo, à contingência da vida, à vergadura que obriga o fim a retornar ao começo. Todavia, como aponta o filósofo, é necessário que assim seja. Portanto, não lamentemos este evento.
Mais uma obra documental se faz necessária neste estudo. Trata-se do filme Vou para casa, de Manoel de Oliveira. Como sempre, este cineasta se mostra grandioso. E neste filme, que poderemos ver como um espelho dele próprio, vários temas se misturam: a rotina das nossas vidas (que faz com que muitos pensem que apenas o seu fardo é pesado), a velhice, a decrepitude, a insanidade e a coragem de alguns que transporta, eleva, dignifica e chama para a vida. Considerando o filme, que conta com o grande desempenho de Piccoli, é fácil aproximá-lo do próprio diretor, um senhor de 97 anos, que, como fez Kurosawa, faz do cinema a sua rotina de vida.
É importante considerar a peça encenada no início do filme (um empréstimo de grandes textos da nossa literatura). O registro da decrepitude, na figura do rei, que deseja ser chamado Bebê, e que se pergunta: Por quê nasci, se não era para viver para sempre? Malditos pais! Esta é a pergunta de qualquer um que tem a consciência de que é um ser para a morte. E esta é uma das grandes causas de todos os homens que passaram por esta vida - o desejo de se imortalizar. Porém, não é a resignação ou o lamento a resposta de Oliveira. Algumas cenas são capitais para a sua compreensão, por exemplo, um belo par de sapatos amarelos, que numa das cenas capitais é longamente filmado, enquanto se desenrola o diálogo sobre a cotidianidade do ator de teatro Gilbert Valence, após a perda de quase toda a sua família num acidente de carro. Como também é uma rede de significações a cena final, após a decisão de Gilbert, simplesmente de voltar para casa, em plena filmagem de uma adaptação da obra Ulisses, de Joyce, para o cinema. Após várias tentativas, ele não consegue lembrar o diálogo de um texto, que marca sua pequena participação no filme, então, num horário que altera a sua rotina, ele chega em casa sem uma palavra, sem um olhar, após vaguear por Paris, repetindo o diálogo que houvera esquecido no set de filmagem. A última cena é o olhar sem ver do seu neto Serge, encostado na parede, anunciando que alguma coisa alteraria, mais uma vez, a sua vida e a de seu avô.
Continuando o percurso sobre a velhice, ouvimos constantemente dizer-se que nas sociedades tradicionais os velhos gozam de um elevado reconhecimento, pois, nas suas mãos está depositada a continuidade do seu povo. Todavia, o estudo de Beauvoir mostra que nem sempre é assim. Aqui, nós nos detemos, seguindo Eliade, nas sociedades que ainda mantêm o mito vivo, ou seja, sociedades que ainda são norteadas pelos seus mitos de origem. Para o povo Wayana, a velhice é um estado no qual os mais jovens não se querem ver, por isso, tudo o que é uma manifestação desta idade é rejeitada. Os Wayana concebem a epiderme construída pelos pais como vestimenta que o indivíduo enverga por toda a vida e que retira ao morrer. Por isso, cada indivíduo deve ter cuidado com a sua pele, pois, além de individualizá-lo, ela é parte complementar do processo de fabricação estética e social. A pele é, portanto, uma vestimenta. Enquanto vestimenta, é considerada nova ou usada e assim ser apreciada ou depreciada, inclusive, sob o ponto de vista estético. Neste sentido, a juventude é a fase mais apreciada pelo Wayana. A pele lisa, firme e sem rugas aproxima-se da serpente, cuja capacidade de mudar de pele lhe concede eternamente o não envelhecimento e a imortalidade.
Todavia, aos velhos é concedido o poder ritual. As velhas, após ultrapassarem a fase reprodutiva, estão aptas a “tecer”, às avessas, a pele dos jovens. Os homens idosos são os que conhecem o canto Karaí, a fala do japim. Os velhos intermedeiam o diálogo com o mundo transcendente (Van Velthen:2003;275), sendo, por isso, fundamentais nesta cultura.
Viveiros de Castro, em Araweté: o povo do Ipixuna (2000;153) afirma que os anciãos araweté não dispõem de poder especial, mas tampouco são menosprezados. Conforme este autor, em 1982 os dois homens mais velhos da aldeia ainda caçavam, tinham grandes roças e famílias que os apoiavam. E cabe-lhes, juntamente com os deficientes físicos, a função de “criar” meninas entre os 7 e os 11 anos, iniciando-as sexualmente. As velhas têm uma enorme influência na vida cotidiana: um setor residencial gira em torno da mulher mais velha e é normalmente identificado por seu nome. Também a escolha de um nome é de inteira responsabilidade dos mais velhos, pois esta é uma das maiores preocupações da tribo.
Por sua vez, conforme Moreira (2001:15), os pais, na tribo dos índios Tariano, reuniam os seus filhos e outros meninos, durante o dia, para trocar idéias sobre as histórias que eles ouviam. As crianças que se destacavam, contando melhor as histórias, iam se tornando líderes dos grupos de crianças e, ao crescer, participavam dos círculos de velhos, contando com eles as histórias das tribos para os meninos. Os adolescentes tornam-se participantes do ritual dos velhos e vão fazendo a sua parte na preservação da cultura, substituindo-os ao longo do tempo.
Os índios Tariano, residentes na região da Cabeça do Cachorro, no estado do Amazonas, concedem um papel fundamental aos seus anciãos, inclusive, no mito de origem os personagens principais são os Avós e três netos. Aos velhos cabe o zelo pela alma do povo – a sua cultura. Os Tariano têm a consciência de que viverão somente enquanto permanecerem Tarianos.
Ainda na Amazônia, os índios Desana têm como Demiurga Yebá Buró, a Avó do Mundo. A Demiurga, enquanto aparecia, cobriu-se com os seus enfeites. Primeiramente, construiu um Quarto – o Quarto de quartzo branco, após, os Deuses que a ajudaram a construir o mundo e a humanidade (Pãrõkumu;Kehíri:1995;14). Nesta tribo, o velho e a mulher ocupam um lugar privilegiado. Ao lermos a obra Antes o mundo não existia, ouvimos os sons da oralidade, e sabemos que ela somente é possível, na medida em que um povo preserva a memória.
Após este breve estudo, pois muitos caminhos ainda poderiam ser trilhados, chegamos a conclusão, corroborando a ideia de Beauvoir, que uma sociedade determina o tratamento e o lugar que, nela, os velhos ocupam. Assim, infelizmente, dado que a nossa sociedade é uma sociedade, principalmente caracterizada pelo consumo, o homem é visto como ser produtivo. Desta forma, quando ele não mais contribui materialmente para a mesma, é visto como um fardo que dolorosamente deverá ser carregado pela família ou pelo Estado. Por outro lado, como a nossa sociedade é também caracterizada pela comunicação e pelo poder da máquina, onde o homem é apenas o receptor, naturalmente que os velhos são destituídos de um papel que outrora lhes foi concedido pelos gregos, e ainda hoje, pelas sociedades não-tradicionais. Se alguma coisa poderia ser preservada ao atingir-se a idade que corresponde à velhice, seria a memória, porém, sabemos que no tipo de sociedade que vivemos ela perdeu a sua importância. Então, o que cabe, na sociedade de hoje, aos velhos? A pergunta chama a todos que participam neste Congresso ao debate. Tenho certeza que ninguém a trouxe pronta, como tenho a certeza que este é apenas um dos inúmeros fóruns de debate que se realizarão para que, após muitas reflexões, ponderações e propostas, tenhamos pelo menos uma pequena visão do problema que enfrentamos, que não é de alguém longe ou fora de nós. Ele é de cada um aqui presente e dos outros que esperam de nós respostas. De minha parte, trago uma proposta, que deverá ser pensada para as nossas salas de aula. Ela, aqui, é lançada: começar a educar as nossas crianças para a velhice, não para a aceitação da velhice do outro, mas para a sua própria. Complementando esta idéia, educar, também, para a morte, a morte de cada um. Por este caminho, chegaremos, talvez, algum dia à aceitação, compreensão e respeito aos que envelhecem.

Als das Kinder Kinder war
Quando a criança era criança
Era tempo para estas perguntas:
Porque estou aqui, e não ali?
Quando começa o tempo, e onde termina o espaço?
Não será a vida sob o sol apenas um sonho?
Não será aquilo que eu vejo, ouço e cheiro apenas ilusão de um mundo anterior ao mundo?
O mal existe realmente, e há pessoas que são realmente más?
Como pode ser que eu que sou eu,
Não existisse antes de me tornar eu
E que um dia
Aquele que sou eu
Vá deixar de ser aquele que eu sou?
(Wings of desire, Win Wenders)

BIBLIOGRAFIA

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ROUSSEAU, Jean-Jacques, Les rêveries du promeneur solitaire, Paris: Éditions Classique Garnier, 1998.
Filmografia :
OLIVEIRA; Manoel de, Vou para casa, Co-Produção Madragoa Filmes, Portugal; Gemini Films, França (França 2), 2001.
WENDERS, Wim, As asas do desejo, Produção: ROAD MOVIES; ARGOS FILMS, 1987.
Neiza Teixeira
Doutora em Filosofia
Professora – ISCE-Felgueiras
neizateixeira@gmail.com
http://neizateixeira.blogspot.com



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