A cegueira humana x negritude x auto-estima

*Simone Teixeira Barrios
simonebarrios@bol.com.br
Publicado el: 16/09/06


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O presente trabalho tem como objetivo fazer uma reflexão sobre alguns aspectos considerados essenciais para o entendimento da auto- estima do ser humano, com ênfase no povo negro, frente a um mundo que se encontra cego de emoção, de paz,




A cegueira humana x negritude x auto-estima

*Simone Teixeira Barrios



RESUMO
O presente trabalho tem como objetivo fazer uma reflexão sobre alguns aspectos considerados essenciais para o entendimento da auto- estima do ser humano, com ênfase no povo negro, frente a um mundo que se encontra cego de emoção, de paz, de visão interior, de compaixão, de humanidade, que nos leva ao preconceito, à discriminação, à exclusão, à desigualdade, enfim a uma cegueira humana generalizada. A auto- estima é percebida na perspectiva de um modo-de-ser cuidado que, como diz Boff, revela a maneira concreta como é o ser humano, isto é, a forma como a pessoa humana se estrutura e se realiza no mundo com os outros. É um modo- de -ser no mundo que funda as relações que se estabelecem com todas as coisas.

Palavras-chaves: auto- estima, negritude, cegueira humana, humanidade.


O filme “Janela da alma” é um convite a uma reflexão muito mais profunda sobre as diferenças de sermos humanos e/ ou as diferenças humanas.
Nesse sentido, comecei uma leitura interior, enquanto professora de Fundamentos da Educação, sobre as percepções (visuais) que temos do “outro”. E, alguns questionamentos foram inevitáveis.
O que vemos nas pessoas:
- O seu colorido ou a sua cor?
- A sua essência ou o seu exterior?
- A sua história ou o seu presente temporal?
Pensando num contexto maior Leonardo Boff(1999,p.12) nos questiona também:
“O tipo de sociedade do conhecimento e da comunicação que temos desenvolvido nas últimas décadas ameaça a essência humana. Porventura, não descartou as pessoas concretas com as feições de seus rostos, com o desenho de suas mãos, com a irradiação de sua presença, com suas biografias marcadas por buscas, lutas, perplexidades, fracassos e conquistas? Não colocou sob suspeita e até difamou como obstáculo ao conhecimento objetivo, o cuidado, a sensibilidade e o enternecimento, realidades tão necessárias sem as quais ninguém vive e sobrevive com sentido? Na medida em que avança tecnologicamente na produção e serviço de bens materiais, será que não produz mais empobrecidos e excluídos, quase dois terços da humanidade, condenados a morrer antes do tempo?”
Todas essas questões levantam profundas reflexões e outros questionamentos, embora grávidos muitas vezes, de pré- conceitos que nos parecem naturais, inerentes ao ser humano. Quero dizer então que temos certa capacidade de “engravidar” as palavras de significados pré- concebidos de nosso campo visual, de preconceitos, de idéias verdadeiras e absolutas e, por vezes, de uma forma incompreensivelmente discriminatória. Parece-me que nos acostumamos a perceber o “outro” da forma que mais nos interessa ou pelo menos que interessa aos nossos olhos, ao nosso foco visual, como se fosse um campo único de conhecimento humano e não nascido da multiplicidade de olhares que podemos usar e ousar. Essas questões podem apontar-nos ao mais profundo do ser a questão da identidade humana.
Através deste trabalho procuro mostrar, embora de forma incompleta e parcial, o quanto temos que compreender nossa importância no universo de que fazemos parte. Não podemos nos excluir desse espaço, muito pelo contrário, temos que ter o entendimento de que estamos incluídos nele, fazemos parte de um todo e este faz parte de nós (Morin). Quando falo de sermos importantes a um universo múltiplo de idéias, afetos, emoções, falo da importância não no sentido de nos mostrarmos importantes, mas de sermos importantes a partir do que somos, a partir de nossa construção humana, densamente arquitetada na compreensão de que somos seres infinitos, pois complexos, fazemos parte da humanidade e esta faz parte de nós. Esse fundamento volta-nos à idéia de complexidade defendida por Morin quando aponta que somos uma parte do todo e o todo faz parte de nós- e é assim que vamos compreendendo a complexidade de/do ser- humano.
É oportuno, portanto, perguntarmo-nos:
Como posso ser melhor do que fui, do que estou sendo e do que poderei um dia sê-lo?
Certamente, não obteremos uma resposta única e centralizadora, porque não seria esse o interesse, já que correríamos o risco de nossa história pessoal terminar e não é para isso que vivemos- para terminar com a nossa história pessoal e subjetiva que também não podemos deixar a margem de nosso pensamento, ser também parte do coletivo humano. Muito pelo contrário, vivemos para sermos uma história e deixarmos nossa história na busca de um final feliz, não é mesmo?
Vivemos em um mundo onde a multiplicidade- em todos os aspectos- se faz presente. Somos múltiplos em etnias, em pensamentos, em idéias, em credos, em sentimentos, em culturas ... e dessa diversidade em “ser” é que vamos nos construindo e saboreando o colorido de/do ser humano. Em nossa história, por exemplo, é sabido que “os negros mostraram grande diligência, apesar de serem tratados como “peças,” carvão a ser consumido na máquina da produção. Foi o grupo que possivelmente mais impregnou de valores a cultura brasileira e a norte- americana com elementos que vão da culinária, da música, da linguagem até à doçura nas relações e ao misticismo. Embora escravos, foram agentes civilizadores”(Boff, 1999,p.56). Isso é muito mais do que motivo de orgulho é motivo de agradecimento a esse povo. Embora, às vezes, não percebamos ou não queiramos perceber, como se essa história não fosse também nossa.
Construir a vida, mesmo de forma inconsciente é fazer parte da história da humanidade. Somos e carregamos a história de múltiplos personagens que atuam em nossa trajetória de vida. Uma atuação às vezes tímida, discriminada, porém sentida de forma intensa enquanto se é ser humano. Isso sim, não podemos silenciar, uma vez que seria silenciar nossa própria história, nossa própria vida. Gostaria de poder relacionar, pelo menos no momento de hoje, por alguns minutos a história de nossos “eus” a um palco- talvez o palco da vida. Nos momentos que antecedem a nossa subida ao palco para fazermos parte de uma cena, uma única cena , temos a preocupação em seguir o roteiro, em acompanhar os bastidores, em visualizar o cenário e o companheiro de cena, em decorar as falas, enfim viver intensamente o momento, tornar a cena mais próxima de nosso olhar não só visual mas também e principalmente, o mais próximo de nossa visão emocional, de nossa capacidade de lançar um olhar múltiplo para poder enxergar de forma complexa- não de forma simplificadora- uma cena ou as cenas cotidianas- vividas, sentidas e às vezes não compreendidas. E, isso, passa pelo entendimento de que o negro soube fazer muito bem, transformando as cenas de sofrimento da sua história em palco de luta e reconhecimento ... Desdobrando caminhos...encontrando e construindo atalhos e assim (re)fazendo histórias.
O pensamento abordado aqui, liga-nos à questão da “cegueira humana” proveniente da cegueira visual e/ou conceitual que o homem utiliza durante a construção da história da humanidade., uma cegueira gestada/ nascida/ crescida de nosso olhar único sobre as pessoas, sobre as idéias, sobre as culturas ... Esse olhar(campo visual) não emociona mais, não satisfaz mais, pois nos mutila e mutila as nossas percepções de ver o “outro” em seu íntimo, em seu âmago humano. Essa “visão parcial” acaba trazendo como conseqüência uma percepção fragmentada e incompleta de olhar o “outro,” e ainda se corre o risco de olhar esse outro, por exemplo, através de sua cor , de seu poder econômico, dos seus defeitos, enfim das suas limitações humanas e acaba-se perdendo a grande oportunidade de ver e sentir o colorido que as pessoas carregam em si.
Gostaria através das conexões trazidas neste trabalho entre a cegueira humana x negritudex auto-estima mostrar o quanto podemos nos tornar importantes- para nós mesmos, essencialmente, a partir de nós mesmos. Trabalhar a auto-estima, engravidá-la de outros significados, entendê-la como construção do humano, e como diria Leonardo Boff como um modo-de ser- cuidado. Trabalhar a auto estima a partir da idéia de cuidado.
Heidegger coloca em seu famoso Ser e Tempo que do “ponto de vista existencial, o cuidado se acha a priori, antes de toda atitude e situação do ser humano, o que sempre significa dizer que ele se acha em toda atitude e situação de fato”. Como diz (Boff, 1999, p.34) o cuidado se encontra na raiz primeira do ser humano, antes que ele faça qualquer coisa. E, se fizer, ela sempre vem acompanhada de cuidado e imbuída de cuidado. Significa reconhecer o cuidado como um modo-de -ser essencial, sempre presente e irredutível à outra realidade anterior. É uma dimensão fontal, originária, ontológica, impossível de ser totalmente desvirtuada.
Um modo- de ser não é um novo ser, continua o autor. É uma maneira do próprio ser estruturar-se e dar-se a conhecer. O cuidado entra na natureza e na constituição do ser humano. O modo- de- ser cuidado revela de maneira concreta como é o ser humano.
O ser humano deve buscar espaços para produzir/recuperar/nutrir a sua auto estima, espaços gerados de sua história enquanto raça humana, enquanto gente que é , fez e faz história. Mas, podemos perguntarmo-nos: Como buscar espaços? Que espaços seriam? Como trabalhar esses espaços? Neste momento é que o filme Janela da Alma nos alimenta dá/para idéia de que os espaços podem ser criados a partir de nossas próprias limitações. Limitações individuais, singulares mas também pertencentes à humanidade, portanto múltiplas. Os cegos/visuais- podemos nos encontrar cegos de emoção, cegos de afetividade, cegos de humanidade, cegos de nós mesmos...- mostram-nos que é possível buscar outras cores, outras imagens, outras visões, outros sentidos, outros cheiros, outro colorido aos sonhos, à vida. Como eles, também podemos construir , e então escolher, a partir de nossa história familiar, profissional, afetiva; através de nossa complexidade de ser humano, como trabalhar nossa auto- estima. Digo complexidade de ser humano porque, segundo Morin, como um holograma, fizemos parte, somos uma parte de um grande e infinito mosaico- que é a vida, o universo- fizemos e somos uma parte de muitas histórias, e essas múltiplas histórias- de verdades coloridas, doloridas e sofridas- estão de alguma forma contidas em nossas vidas, em nossa história.
O negro faz parte de uma história de lutas e as lutas históricas fazem parte do ser negro. E isso é muito mais do que suficiente para trabalhar a auto- estima a partir do que construímos, cuidar das velhas conquistas na/para perspectiva de buscar as novas, tudo funciona como um circuito de inícios ,fins e eternos recomeços. É preciso perceber quanto espaço já foi desbravado pelo povo negro e desdobrado em visibilidade à humanidade, embora esta esteja cega de igualdade, de sentimento, de afeto e sufocada de preconceitos limitadores da igualdade humana.
É necessário mostrar a preocupação de nos predispor a ter com o outro um cuidado que começa pelo nosso próprio cuidado. Só assim acredito na possibilidade do desprendimento humano e no cuidado com o outro. Porque cuidar do outro no sentido do entendimento das diferenças raciais exige “inventar relações que propiciem manifestação das diferenças não mais entendidas como desigualdades, mas como riqueza da única e complexa substância humana. Essa convergência na diversidade cria espaço para uma experiência mais global e integrada de nossa própria humanidade, uma maneira mais cuidada de ser”(Boff,1999,p.140). Que bom, somos todos diferentes! Viva as diferenças! Quanta riqueza humana e/ou de humanidade temos para dar e receber.
É impossível dar receitas prontas, acerca de como sermos, de como nos tornar e nos sentir melhores, no entanto podemos compreender que, ou pelo menos tentar, a partir da idéia do cuidado- percebido aqui como solicitude e essencialmente como um modo- de ser, cuidar mais da vida humana (com) paixão. Olhar o outro através dos múltiplos olhares os quais temos a capacidade de gerar. Ver o colorido do ser humano, é simples, basta querer, predispor-se. Não é fácil , contudo é um exercício cotidiano, nutrido do cuidado humano e pode ser iniciado ainda hoje.
“O que se opõe ao descuido e ao descaso é o cuidado. Cuidar é mais que um ato; é uma atitude. Portanto, abrange mais que um momento de atenção, de zelo e de desvelo. Representa uma atitude de ocupação, de preocupação, de responsabilização e de envolvimento afetivo com o outro”(Boff,1999,p.33). Cuidando de nós mesmos!










Bibliografia:

Boff, Leonardo. Saber cuidar- ética do humano- compaixão pela terra. Petrópolis, RJ. Editora Vozes, 1999.
_____________.Princípio de compaixão e cuidado. Petrópolis,RJ: Vozes,2000.
Heidegger, Martin. Ser e Tempo- parte I. Universidade São Francisco, tradução de Márcia Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis,RJ: editora Vozes, 14º edição,2005.

Morin, Edgar. Método 5: A humanidade da humanidade. 3º edição- POA: Sulina,2005.

Jardim, João. Carvalho, Walter. Filme: Janela da Alma. Produção Ravina Filmes.

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* Mestre em Educação.
Professora de Fundamentos da Educação da Rede Estadual de Ensino de Pelotas RS
E mail: simonebarrios@bol.com.br
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