Brilhante historia da Psicanálise no Brasil

Ana Cristina Figueiredo

Publicado el: 28/08/06


       Facebook               Texto en Word 


    


Classificamos de brilhante a dissertação de mestrado apresentada na PUC-RJ, pela Psicóloga Ana Cristina Figueiredo, com o título de “Estratégias de Difusão do Movimento Psicanalítico no Rio de Janeiro”



Brilhante historia da Psicanálise no Brasil


Foram examinadas cinco obras de autores brasileiros sobre a História da Psicanálise no Brasil. A que nos pareceu mais profunda e isenta de conotações políticas foi a dissertação de mestrado apresentada na PUC-RJ pela Psicóloga Ana Cristina Figueiredo. Certamente contou como fator determinante do aspecto profundidade e isenção o de ser uma tese de mestrado onde o rigor da banca examinadora inibe possíveis distorções da verdade, sob pena de rejeição do trabalho.


Classificamos de brilhante a dissertação de mestrado apresentada na PUC-RJ, pela Psicóloga Ana Cristina Figueiredo, com o título de “Estratégias de Difusão do Movimento Psicanalítico no Rio de Janeiro”

Início:
Condensar em um artigo o vasto material de pesquisa levantado para uma dissertação de mestrado não é tarefa simples. Isto porque não se trata apenas de colher dados e a eles acrescentar uma análise cujo modelo metodológico esteja pronto, acabado ou determinado a priori. Ao contrário, o modo como estão dispostos os fatos, em cada detalhe, é que permite surgir uma interpretação. O método é dado na própria história, entendendo-se que esta história não é um mero acúmulo de informações mas, antes, se faz na construção mesma da análise. Ao contar a história da APPIA, por exemplo, através da pesquisa de documentos, recortes de jornais, entrevistas, etc., deparei-me com um exemplo típico do que terminei por definir como uma psicologia psicanalítica que se constituiu através de agentes específicos. Entre eles estão os profissionais argentinos que, com sua concepção teórica e política da psicanálise, alteraram o perfil do movimento psicanalítico no Rio de Janeiro. Contar a história de um período, portanto, significa estabelecer relações entre determinados dados selecionados – episódios e eventos, instituições e agentes – que, uma vez suprimidos ou reduzidos, impõem certas limitações à análise.
Uma outra questão importante é que todo o trabalho de pesquisa pretendeu levantar o campo das práticas em psicanálise sem recorrer à teoria psicanalítica para dar conta dessa “história”. Meu objetivo não era fazer uma história psicanalítica, e sim configurar o campo de relações político-profissionais do movimento psicanalítico na década de 70, o que até então, pelo que me consta, não havia sido feito de modo sistemático. Isto porque falar sobre a psicanálise exigiria um certo “estar fora” estratégico: por um lado, era mais difícil de ser feito por quem estava “dentro”, isto é, pelos próprios psicanalistas e, por outro, não parecia constituir a preocupação de historiadores e/ou sociólogos sobre o tema. Minha posição enquanto PSICÓLOGA e PESQUISADORA me atribui um curioso lugar dentro e de fora ao mesmo tempo, atraente o bastante para vasculhar e analisar as várias associações entre psicólogos e psicanalistas em seus diferentes modos e objetivos.
Inicialmente, o que norteou minhas indagações foi o fenômeno da proliferação de associações profissionais compostas, em sua maioria, por psicólogos cujo objetivo era fornecer uma formação sistemática em psicanálise a seus próprios membros. Este fenômeno se deu por volta da segunda metade da década de 70 e intensificou-se no início dos anos 80. Se considerarmos que, tradicionalmente, a expressão “movimento psicanalítico” refere-se, do ponto de vista profissional, às sociedades psicanalíticas autorizadas pela IPA, o que estava sendo posto em marcha era um aparato de formações paralela a que muitos chamavam de “formação alternativa”. Diante disto me veio a seguinte questão: o que teria acontecido anteriormente que engendrou esse “movimento”? Assim, no decorrer da pesquisa foi necessário examinar os primórdios da própria psicologia clínica no Rio de janeiro, nos anos 50/60 para finalmente constatar que desde seu início ela não poderia ser pensada sem a psicanálise e, principalmente, sem a presença fundadora dos psicanalistas. Psicanálise e psicologia clínica estando, num certo sentido, indissociadas, aparecem ao mesmo tempo como um avanço e um complicador para o movimento psicanalítico “oficial” (da IPA), como veremos mais adiante, especialmente através das várias associações estabelecidas nos anos 70.
Aqui convém esclarecer que não estendo as relações entre psicanálise e psicologia clínica apenas como superposições circunstanciais de territórios afins, mas antes, como um imbricado de relações onde a primeira é suporte da segunda em suas origens e desdobramentos. Esta é a própria noção de psicologia psicanalítica que emprego para pensar essas relações.
Dois aspectos caracterizam a psicologia psicanalítica: 1) ela absorve os psicólogos clínicos que passam de consumidores a produtores de psicanálise acabando por reivindicar o status profissional de psicanalistas; 2) ela promove a ampliação do próprio campo psicanalítico que atinge um certo ecletismo de teorias e práticas para além de seus supostos limites. Surge daí uma dupla questão. Primeiro, no que diz respeito ao campo teórico-técnico, a psicanálise, correria o risco de descaracterizar-se através da quebra da homogeneidade no plano conceitual e na própria concepção da prática analítica. E segundo, no que diz respeito ao campo político-profissional, o movimento de profissionalização dos psicólogos ameaçaria desestabilizar a posição hegemônica das sociedades psicanalíticas já existentes no mercado da psicanálise, principalmente das chamadas sociedades “oficiais” autorizadas pela IPA.
Quais seriam, então, as diferentes associações entre psicanalistas e psicólogos clínicos que fomentaram o exercício de uma psicologia psicanalítica gerando uma demanda mais específica de formação em psicanálise? Eis o que, de modo resumido, tentei esclarecer.

O surgimento da psicologia clínica

Os primeiros trabalhos em psicologia clínica no Rio de Janeiro datam de fins da década de 50. Por essa época, o psicanalista Décio Soares de Souza, titulado na Inglaterra, introduz a psicanálise infantil para os psicólogos, orientando-os em seu trabalho de consultório. Em 1961, Décio ministra um curso de extensão – único curso de psicologia então existente – cujo tema é “Psicoterapia na Escola Inglesa”. Esse curso foi considerado o primeiro trabalho de sistematização teórica para prática do atendimento infantil que começava a ser feito pelos psicólogos. Curiosamente já existia um espaço em alguns órgãos públicos para o exercício da psicoterapia infantil. O IPE (Instituto de Pesquisas Educacionais) do Serviço de Ortofrenia e Psicologia da Secretaria de Educação; o COI (Centro de Orientação Infantil) e o COJ (Centro de Orientação Juvenil), ambas do Ministério da Saúde, foram os primeiros locais em psicodiagnóstico e, em alguns casos, também em psicoterapia infanto-juvenil. Nessas clínicas, os psicanalistas, de formação médica, encarregavam-se da supervisão – Gerson Borsói no IPE, Mara Salvini e Ana Elisa Mercadante no COI – ou então a psicóloga Elisa Veloso no COJ que orientava suas supervisões a partir de sua experiência com a psicanálise em seu trabalho com Décio de Souza e com Manoel Lyra – além de sua longa análise pessoal com o psicanalista Alcyon Bahia. Foi, portanto, a partir do exercício da psicanálise infantil que se implementou a primeira psicologia clínica no Rio de Janeiro.
Esses serviços, entretanto, ou são desativados, como é o caso do IPE, ou não absorvem de todo os estagiários e profissionais em clínica. Mas o trabalho privado em consultório se expande.
Poder-se-ia contra-argumentar que a psicanálise não era o único modelo para a psicologia clínica na época. Havia, por exemplo, o trabalho de Carl Rogers sendo difundido. Entretanto, um modelo não substituía o outro, ao contrário, complementava-o. Idéia bastante justificável uma vez que o que se valorizava era uma certa intuição clínica, mais do que a especificidade deste ou daquele modelo teórico-técnico.
Paulatinamente, os psicólogos dominam a clínica, exercendo funções de terapeuta e, mesmo, de supervisor ampliando sua clientela. A transmissão da psicanálise e suas possíveis variações já não se fazem apenas através dos psicanalistas. Os próprios psicólogos se encarregam de formar oficiosamente os novos clínicos num processo que, posteriormente, o próprio Leão Cabernite, ao queixar-se da perda do controle hegemônico do movimento “oficial” (IPA) sobre a psicanálise, denominou de “geração espontânea”. Na divisão do “mercado clínico”, os psicólogos ocuparam, definitivamente, a área infantil. Muitos alimentavam a crença de que era “mais fácil” atender crianças, geralmente com o apoio dos psicanalistas de formação médica que inclusive estimulavam essa empreitada, considerando-a “mais adequada” aos psicólogos. Em sua grande maioria, são mulheres que conseguem profissionalizar uma função marcadamente feminina que é de “cuidar” das crianças e exercê-la com a legitimidade que os psicanalistas e as instituições públicas lhe outorgam. Mas elas próprias se analisam com os psicanalistas das sociedades oficiais que teriam, dentro da visão da época, a “competência” necessária para tratar de adultos.
Em 1962, quando a profissão de psicólogo é regulamentada, fica oficializada a possibilidade de uma prática clínica. Evidentemente, o processo de regulamentação foi cheio de percalços e não faltaram as perseguições do Conselho Federal de Medicina e do extinto Conselho Nacional de Saúde, controlando consultórios, cobrando alvarás, etc. Elisa Veloso e Padre A. Benko – fundador do curso de psicologia da PUC-RJ e entusiasta da psicanálise na época – são dois personagens importantes na defesa de uma regulamentação que autorizasse a prática clínica. O problema é parcialmente resolvido quando se inclui como último item do parágrafo 1º do Art. 13 a alínea d: “solução de problemas de ajustamento”.
A partir de 1968, com a reforma universitária e o incentivo à privatização do ensino, surgem novas escolas de ensino superior e os cursos de psicologia proliferam – hoje somam o total de dez cursos no Estado do Rio formando anualmente cerca de mil psicólogos.
No início da década de 70, a clínica é definitivamente eleita como a especialidade psicológica por excelência. O modelo de atendimento privado predomina, embora já desponte um interesse pelo trabalho preventivo nas instituições e na comunidade. A inspiração é eminentemente psicanalítica, em especial a psicanálise infantil da escola inglesa – Melanie Klein, Hanna Segal, Winnicott, Anna Freud.

Uma Psicologia Psicanalítica

Nesse momento, quando o acesso à clínica está praticamente assegurado, a questão é: O que é psicologia clínica? De que modo sua prática é informada? Esta passa a ser a preocupação central de psicólogos e psicanalistas. Envolvidos num sutil jogo de poder, os segundos se encarregam de definir a função dos primeiros.
O processo de afiliação que assegurava a transmissão da psicanálise estava, por um lado, amarrado à análise didática nas sociedades oficiais (IPA) e, por outro, circulava oficiosamente nas relações de análise e supervisão que os psicanalistas estabeleciam com os psicólogos, e estes entre si. Em termos de clientela, os psicólogos eram um mercado fértil e isto era provavelmente percebido, por certos psicanalistas mais progressistas, como um avanço para o movimento. Quando se tratava, porém, de ter acesso à categoria profissional de psicanalista, a situação era diferente. Aparecia aí um complicador: os psicólogos passariam de discípulos e agregados a concorrentes. Não era incomum que analistas, até com as melhores intenções, alertassem os psicólogos para não perseguirem o modelo do psicanalista e buscassem alternativas para sua prática clínica. Entretanto, o que não era levado em conta, e talvez soasse como abuso de poder, era que a hegemonia da psicanálise era fato consumado. Os psicólogos estavam demasiadamente envolvidos com seus mestres, supervisores e terapeutas para desistirem desse projeto. Como, então, estabelecer a diferença?
No período de 1970 a 1976 desenrolaram-se mais ou menos simultaneamente, uma série de eventos em que psicanalistas e psicólogos clínicos se associam constituindo diferentes grupos cujo objetivo primordial é fazer circular as idéias psicanalíticas que asseguram sua prática clínica mantendo, porém, uma permanente ambigüidade quanto aos fins profissionais dessa associação. Os que mais se destacam são:
IOP (Instituto de Orientação Psicológica). Curso organizado em 1970 pelo psicanalista Fábio Leite Lobo, membro da SPRJ e, na época, diretor do Instituto de Ensino, dirigido aos profissionais que não estavam vinculados à sociedades psicanalíticas, especialmente aos psicólogos. Foi ministrado pelos psicanalistas argentinos que também davam cursos para os membros da SPRJ. Entre eles Eduardo Kalina, Arminda Aberastury e, posteriormente, Maurício Knobel. Teve uma freqüência rotativa de mais de cem profissionais e durou cerca de quatro anos, oferecendo seminários e supervisões em atendimento infanto-juvenil. Era formalmente exigida uma experiência pessoal em análise. Com seminários e supervisões e análise o IOP se aproximava, ainda que de modo assistemático, do modelo tripartite de formação psicanalítica padronizada pela IPA. Não tinha, contudo, qualquer compromisso em titular participantes.
SPC (Sociedade de Psicologia Clínica). Fundada em 1971 por um grupo de psicólogos ligados a Fábio Leite Lobo e ao IOP e a Gerson Borsói do IPE. Visava oferecer um aperfeiçoamento profissional em psicologia clínica cuja base era eminentemente psicanalítica. Os seminários e as supervisões eram ministrados preferencialmente por psicanalistas das sociedades oficiais (IPA). Porém, o próprio grupo não se autorizava a assumir uma formação. Foi este o único grupo da época a formar posteriormente uma sociedade psicanalítica. Inicialmente não aceitavam médicos em seus quadros, pois pretendiam inverter a interdição colocada pelas sociedades oficiais (IPA).
CESAC (Centro de Estudos de Antropologia Clínica). Fundado em 1972 pelos psicanalistas Inês Bsouchet – que apesar de ser psicóloga era analista-didata da SPRJ – e Wilson Chebabi (SPRJ). Funcionava como um grupo de estudos bastante eclético que discutia temas nas áreas de antropologia, filosofia, lingüística, etc., e era freqüentado por uma maioria de psicólogos que obtinha supervisão clínica e deveria estar em análise pessoal para poder participar do grupo. Apesar das tentativas de sistematizar uma formação em psicanálise – a mais controvertida foi em 1978 e gerou uma crise na instituição, o CESAC permaneceu com funções indefinidas quanto à profissionalização.
APPIA (Associação de Psiquiatria e Psicologia da Infância e da Adolescência). Fundada em 1972 por um grupo de psicanalistas da SPRJ aliados aos psicólogos clínicos, oferecia cursos e palestras variados em torno do tema da “saúde mental”. Teve como principais funções: 1) aglutinar os psicólogos clínicos numa instituição que funcionou como sede profissional, uma espécie de sindicato que possibilitou a arregimentação e organização de classe dos psicólogos em torno do novo projeto interdisciplinar de saúde mental; 2) possibilitar uma maior aproximação dos profissionais argentinos sustentando seu projeto de politização dos profissionais “psi” no sentido amplo – “esquerdização” do movimento através da proposta de promoção de saúde mental aliada a mudanças sociais – e no sentido estrito – organização e mobilização dos psicólogos em torno da psicanálise com subsídios para a ampliação de sua prática clínica; 3) manter uma convivência democrática entre psicanalistas, psicólogos e psiquiatras sempre em torno da psicanálise. A APPIA chegou a congregar cerca de mil sócios até 1976 e promoveu dois grandiosos congressos (1972 e 1976) que movimentaram cerca de dois mil profissionais e estudantes da área “psi”. Deixava, contudo, pendente a questão do atendimento à população – ponto que constava de seu projeto inicial – e, principalmente, a questão da profissionalização.
Esses grupos, cada qual com suas promessas e limitações atuavam como mediadores entre os prestigiados psicanalistas e o número crescente de psicólogos clínicos. Essa mediação, porém, era bastante problemática e carecia de uma equivalência entre as partes. Os psicólogos estavam, por um lado, inexoravelmente envolvidos com a psicanálise, não só como clientes dos psicanalistas mas também na própria supervisão de seu trabalho. Mas, por outro lado, não podiam ser psicanalistas. Que diferença deveria ser estabelecida então?
Algumas soluções se apresentavam. Uma delas propunha que a diferença se fizesse através de uma inversão, de uma negativa: os psicólogos deveriam não ser psicanalistas para poderem praticar a sua própria psicologia clínica, evidentemente orientados pelos psicanalistas. A isto deu-se o nome de “psicoterapia de base analítica”. Trocando em miúdos, seria algo assim como tentar usar a psicanálise pela metade, o que se traduziria em dispensar o divã, não “trabalhar” a transferência, não interpretar conteúdos mais “profundos”, não atender pacientes por tempo ilimitado e/ou diminuir o número de vezes por semana. Enfim “mutilações” técnicas dentro do enfoque psicanalítico. E, - maior paradoxo ainda – a experiência em análise fazia parte do acervo da grande maioria dos psicólogos clínicos nessa época, e esta experiência sempre foi considerada a melhor maneira de se “aprender” psicanálise. Os psicólogos, então viam-se às voltas com a difícil tarefa de fazer uma não-psicanálise-psicanalítca. Essa situação fica bem ilustrada no caso do CESAC e, talvez, nos primórdios da SPC.
Uma outra solução que poderia ser vista como democratizante em sua forma, se apresentou a partir da influência dos psicanalistas e psicólogos argentinos que circulavam no IOP, na APPIA e nas universidades, principalmente na PUC. Os psicólogos, desta vez, são incorporados à categoria de “profissionais de saúde mental”, mesclando-se aos psicanalistas e psiquiatras. Devem ser promotores de saúde, crescimento e enriquecimento da personalidade, ou numa versão mais politizada, devem ser os agentes de mudança, individual e social, nos grupos, nas famílias e nas escolas. Não mais apenas através da psicoterapia infantil, mas atendendo a toda a família, trabalhando preventivamente, penetrando nas instituições para detectar sua “doença” e, principalmente, para promover a saúde. Este era o novo modelo – o que não significa que, na época, tenha sido efetivamente implantado ou constituído um sólido mercado de trabalho para os psicólogos. Hoje, talvez, já possamos considerar essa possibilidade. Na aparência, o psicólogo prescindia da imagem do psicanalista “tradicional” que só trabalha em consultório, chegando mesmo a contestar a psicanálise como prática muito restrita e elitista, ameaçada de extinção. Mas acontece que eram os próprios psicanalistas, mais uma vez, que estavam à frente desse movimento de ampliação da clínica que transcende as quatro paredes do consultório e dispensa o clássico divã. Era o próprio campo psicanalítico que se ampliava. As diferenças técnicas grupais, os novos trabalhos com adolescentes, as terapias de família e os trabalhos em prevenção e em medicina psicossomática constituem os principais exemplos de uma “psicanálise sem divã”.
Os argentinos forneceram em grande parte os modelos e as fontes teóricas de uma psicanálise calcada na escola inglesa e temperada com as teorias marxistas, o que ficou conhecido como o neo-Kleinianismo argentino. Nomes como José Bleger, Pichon-Rivière, Marie Langer, Arminda Aberastury, Eduardo Kalina, Emilio Rodrigué, Maurício Knobel, Leon Grinberg, quando não presentes aos congressos, constavam da bibliografia básica. A psicologia clínica estava, então, embutida numa psicanálise mais diversificada com múltiplas formas de intervenção, e tanto psicanalistas como psicólogos exerciam funções semelhantes. A esta psicanálise ampliada corresponde a noção de psicologia psicanalítica.
Entretanto, a hierarquia profissional permanecia. A questão se remete novamente à profissionalização. Poderíamos indagar se era realmente importante para esses psicólogos tornarem-se psicanalistas, se não haveria uma outra maneira de resolver o problema e assegurar uma autonomia profissional aliada a uma reconhecida identidade de clínico. Certamente esta também era uma preocupação dos psicólogos e, durante um certo tempo, a solução dos “profissionais de saúde mental” parecia funcionar. Mas os fatos vieram a demonstrar algo diferente.

A Formação Profissional: de Psicanalíticos a Psicanalistas

Na segunda metade da década de 70 começam a aparecer diferentes formas de associação entre psicólogos e psicanalistas, desta vez com o claro propósito de promover uma formação psicanalítica. Concomitantemente, há o esvaziamento de grupos como o CESAC e a APPIA, sendo que muitos de seus membros são os fundadores das novas instituições de formação. A eles se impõe a difícil tarefa de sustentar sua própria exclusão da psicanálise “oficial” (IPA) e viabilizar canais de autolegitimação em seu trabalho psicanalítico, além de prover sua própria formação teórica. O dilema inicial desses novos grupos era saber como instituir uma formação profissional que necessitava de algum tipo de reconhecimento como função legitimadora, e, ao mesmo tempo, se caracterizar por uma luta política contra a hegemonia das sociedades oficiais (IPA) e seu modelo institucional, considerado por muitos como antipsicanalítico. Cada grupo vai tentar resolver a seu modo esta contradição presente, de certa forma, desde a fundação da SPC e agravada pela ambigüidade dos próprios psicanalistas.
O precursor desses grupos, atualmente extinto, foi o embrião que gerou o NEFF – Núcleo de Estudos e Formação Freudiana – que durou de 1977 a 1979 e se desdobrou em duas instituições distintas: o IBRAPSI e o IFP. Inicialmente, existia o chamado “grupão”, composto por aproximadamente cinqüenta pessoas. Dele participavam alguns psicanalistas e profissionais que trabalhavam em psicanálise e estavam interessados nessa experiência de autogestão. Gregório Baremblitt e Chaim Katz convidados como professores, faziam parte deste grupo. Gregório chegou a apresentar um projeto de formação dos trabalhadores da saúde mental trazido da Argentina. Porém, no ano seguinte, ambos, se afastaram para fundar o IBRAPSI. O “grupão” se reduziu a quatorze pessoas que fundaram o NEFF. Mas, em 1979, houve uma nova cisão no grupo que deu origem ao IFP. E o NEFF acabou se dissolvendo. O que nos chama a atenção no caso do NEFF é o fato de ser um bom exemplo da chamada “formação alternativa”, cuja proposta deve atender ao mesmo tempo às reivindicações políticas de transformação estrutural da instituição psicanalítica – tais como mudanças nas relações de poder altamente hierarquizadas, no modo de transmissão da psicanálise, visto como conspurcação dos verdadeiros princípios freudianos, na excessiva burocratização administrativa, etc., - e à urgência de uma formação sistemática em psicanálise com objetivos estritamente profissionais. Entretanto, este projeto traz em si a semente de sua própria inviabilidade, isto é, como instituir e formar profissionais sem trair a pretensão supostamente revolucionária de subverter a instituição e, mesmo, a própria formação em seu sentido mais técnico? Esta contradição, agravada por crises internas, provocou o esfacelamento prematuro do grupo. Nesse sentido, o NEFF ilustra bem os paradoxos da proposta que se apresentava ainda pouco consistente para os psicólogos psicanalíticos que queriam tornar-se psicanalistas.
Uma solução encontrada posteriormente, foi a adesão incondicional ao movimento lacaniano, que tomou corpo no Rio de Janeiro no início dos anos 80. O modelo proposto por Lacan, tanto do ponto de vista teórico-técnico quanto do político-profissional, teria a legitimidade necessária para enfrentar o aparato da IPA e ambição suficiente para pretender fazer dos lacanianos os verdadeiros, senão os únicos “herdeiros” do freudismo mais radical. Retomaremos este ponto mais adiante. No caso do NEFF, poderíamos dizer que, imerso em suas contradições, não pôde ser acolhido a tempo pelo movimento lacaniano, que surgia como novo paradigma teórico e institucional, e sucumbiu.
Os demais grupos que se formaram, somavam até 1983, um total de seis, sendo que alguns, mais recentemente, deram origem a outros gestados a partir de dissidências internas. São eles:
IBRAPSI (Instituto Brasileiro de Psicanálise, Grupos e Instituições). Fundado em 1978 pelo psicanalista argentino Gregório Baremblitt e por Luiz Fernando de Mello Campos, egresso da APPIA. Deu continuidade, em certa medida, ao trabalho iniciado pela APPIA – organizou convênios com sindicatos e empresas para psicoterapias e manteve um contato estreito com profissionais argentinos. Introduziu a análise institucional em seu currículo de formação de psicanalistas e de socioanalistas. Entre 1978 e 1982, seu período mais próspero, congregou cerca de 160 alunos e atendeu a uma média de 500 pacientes por ano. Em 1983, houve uma crise na instituição que culminou com a saída de cerca de 40 membros e com a criação de um novo grupo, em abril de 1984: o Núcleo-Psicanálise e Análise Institucional.

IFP (Instituto Freudiano de Psicanálise). Dissidente do NEFF, fundado em 1979 por um grupo de psicólogas, oferece uma formação psicanalítica centrada nos trabalhos de Freud e da escola francesa com Lacan, Leclaire, Manoni, Aulagnier e outros. Atualmente trabalha com a proposta de formação permanente em cartéis, que é parte do modelo lacaniano.

SEPLA (Sociedade de Estudos psicanalíticos Latino-Americanos). Fundada em 1978 por Luiz Paiva de Castro e Lourival Coimbra (ex-membro da SPRJ), só definiu uma formação psicanalítica dentro da linha freudiana a partir de 1982 com a saída de Luiz Paiva. Chegou a absorver as tendências da escola francesa até que vários de seus membros participaram da fundação de um grupo lacaniano – Letra Freudiana – engendrado dentro da própria SEPLA. Recentemente, organizou-se a SPECI (Sociedade Psicanalítica de Estudos Clínicos Integrados) sob a orientação de Luiz Paiva, que conta com 12 membros psicanalistas. A SEPLA parece ter sofrido especialmente uma série de fraturas em seu corpo institucional, em grande parte devido à heterogeneidade de propostas que continha, sustentadas por lideranças não consolidadas na própria instituição.

Terra Clínica Escola. Fundada em 1981 por um grupo de psicólogos que trabalhava originalmente com orientação vocacional dentro do enfoque psicanalítico dos trabalhos do psicólogo argentino Rodolfo Bohoslavsky. A formação é organizada em grupos operativos e segue a orientação das teorias da escola inglesa. Em 1985 houve uma dissidência que deu origem a mais um grupo de formação denominado Livre Associação Psicanalítica, também caracterizado pelo trabalho grupal no processo de formação.

Colégio Freudiano do Rio de Janeiro. Fundado por Magno Machado Dias (M. D. Magno) e Betty Milan em 1976, é o primeiro grupo de formação estritamente lacaniano. A formação, porém, só foi sistematizada a partir de 1981 com a fundação do Instituto Jacques Lacan. Seu objetivo é ratificar e reproduzir as idéias de Lacan a partir da leitura de M. D. Magno, o mestre do Colégio de acordo com o novo estatuto de 1983.

Letra Freudiana. Fundada em 1983, é o segundo grupo declaradamente lacaniano que oferece uma formação em psicanálise. É liderado pelo psicanalista argentino Eduardo Vidal e mantém um estreito intercâmbio com os grupos franceses “herdeiros” de Lacan, principalmente com a Ecole de la Cause Freudienne, dirigida pelo genro de Lacan, Jacques Alain Miller.
Apesar das diferenças e, mesmo, das divergências teóricas e políticas, todos têm um ponto em comum: legitimar profissionalmente o trabalho psicanalítico de seus membros, constituindo uma alternativa à formação psicanalítica controlada por entidades internacionais, especialmente pela IPA.
Nesse novo quadro, a dicotomia entre psicanalistas com formação médica e psicólogos tende a desaparecer. As próprias sociedades da IPA – SPRJ e SBPRJ – acabam por aceitar candidatos psicólogos a partir de 1980, atendendo a uma demanda crescente. Agora não se trata mais de difundir a psicanálise entre os psicólogos através de instituições ambíguas como o CESAC e a APPIA, que asseguravam uma clientela consumidora e promotora de uma psicologia psicanalítica mas não possibilitavam uma formação profissional. Essa clientela vai forçar o acesso à categoria de psicanalista, seja através da criação de novos canais de autolegitimação, seja engrossando as fileiras de candidatos nas sociedades “oficiais”. A possibilidade de uma profissionalização em psicanálise está aberta para todos. O que se constata agora é um deslocamento do problema, e a pergunta, anteriormente formulada, “quem pode ser psicanalista?” dá lugar a uma outra: “o que é ser psicanalista?”. Ora, esta última envolve uma outra, ainda mais abrangente: “o que é psicanálise?”. O problema agora reside em traçar um contorno para o próprio campo psicanalítico ampliado, e salvaguardar a psicanálise dos “perigos” de descaracterização. É preciso retirar a psicanálise dessa mistura banalizada de técnicas terapêuticas e relevar sua especificidade. Para ser psicanalista torna-se necessário deixar de ser psicoterapeuta. E isto se aplica a psicólogos e médicos em geral. Portanto, o que se apreende é que os critérios de triagem profissional devem ser revistos a partir da própria teoria.
Nortearemos essa discussão utilizando as categorias teórico-técnico e político-profissional como dois aspectos que compõem em diferentes arranjos o campo psicanalítico propriamente dito. Alguns problemas se colocam de imediato. Sabemos que a psicanálise, enquanto campo teórico-técnico, que fornece os principais subsídios para a psicologia clínica, não é homogênea. Existem diferentes escolas psicanalíticas que mantêm concepções que chegam a ser incompatíveis entre si gerando várias técnicas e, mesmo, absorvendo técnicas psicológicas fora de seu campo como, por exemplo, o psico-drama psicanalítico. Assim, nos deparamos com diferentes psicanálises que se superpõem e, por isso, torna-se difícil delimitar suas fronteiras e situar o campo psicanalítico frente a outras psicologias. A este entrecruzamento de critérios conflitantes sobre o que é efetivamente psicanalítico corresponde a uma ocupação heterogênea da clínica.
Quanto ao campo político-profissional, o problema é como diferenciar as categorias. Um psicanalista não deveria jamais se confundir com um psicólogo clínico. Mas se os psicólogos já são psicanalíticos, e já têm um acesso possível à categoria profissional, como fazer a nova triagem? O inimigo político, facilmente identificável na figura do psicanalista médico mais conservador que interdita o psicólogo, ou ainda, o ambíguo colega que com ele divide mais democraticamente o título de “profissional de saúde mental” são substituídos pela nova imagem do “verdadeiro” psicanalista, isto é, pela imagem daquele que é porque sabe ser psicanalítico, independentemente de sua formação anterior. A seleção deve deixar de ser burocratizada e funcionar como seleção “natural”. Qualquer um pode ser psicanalista, porém só os mais aptos vencerão, ou como diz um certo jargão psicanalítico, só os que mais desejam a psicanálise a terão. Resta saber o que é preciso para se desejar mais ou “do jeito certo” a psicanálise, já que o agenciamento se dá a partir dos próprios divãs e, cada vez mais, através das universidades, atingindo estudantes de psicologia e psicólogos recém-formados. Existe uma população flutuante que gira em torno da psicanálise, como paciente, em supervisão e trabalhando nas várias clínicas existentes no Rio de Janeiro com orientação psicanalítica. Aí se constituem novas levas de psicólogos psicanalíticos cujo maior problema não é serem psicólogos mas sim não serem psicanalistas.
Convém aqui a ressalva de que não se pretende defender uma posição pseudo-democrática como “a psicanálise é para todos”, ou ainda, “abaixo o elitismo psicanalítico”, mas sim alertar para essa paradoxal situação da psicanálise no Rio de Janeiro, onde parece prometer mais do que pode dar.
A própria universidade pode ser um bom exemplo. O curso de psicologia é um dos centros de difusão das idéias psicanalíticas através dos próprios psicanalistas-professores. Ele informa, mas não tem como produzir psicanalistas. Do mesmo modo, os cursos de especialização em nível de pós-graduação oferecem atendimento supervisionado e recomendam uma experiência pessoal em análise, mas preparam, no período de dois anos, no máximo, psicólogos clínicos psicanalíticos. Funcionam como uma espécie de triagem para a formação propriamente dita porque não têm como absorver institucionalmente esses profissionais.
Retornemos, então, à questão que permanece: “o que é ser psicanalista?”. É nesse ponto que o modelo lacaniano funciona como o novo paradigma da tentativa de resolver não apenas o problema profissional dos psicólogos psicanalíticos mas, principalmente, redefinir o próprio campo psicanalítico operando uma superposição entre os campos teórico-técnico e político-profissional, onde este último é colocado inteiramente a serviço do primeiro. A partir daí se estabelece todo um novo jargão, uma nova linguagem que vai compor o código através do qual Freud será evocado, revisto e, ousamos dizer, reinventado.
O discurso lacaniano, ao se oferecer como solução para a psicanálise, atinge em diferentes graus, desde as sociedades já estabelecidas – pertencentes ou não à IPA – até os novos grupos de formação. O recurso a Lacan e a seus sucessores torna-se imprescindível, tanto para os psicanalistas que pretendem recuperar ou conquistar sua hegemonia sobre a psicanálise, quanto para os que desejam se tornar psicanalistas.
Eis aqui dois exemplos da estratégia lacaniana que nos interessam particularmente na nova política da psicanálise:
1) Sustentar uma oposição frontal ao aparato político-profissional da IPA – Lacan chegou a ser expulso em 1963 – rediscutindo critérios para a formação do psicanalista tais como: a excessiva burocratização das sociedades e, em particular, a questão da análise didática. Os maiores beneficiados de imediato são os grupos de formação que proliferam no Rio de Janeiro com a descentralização do controle profissional exercido pela IPA. Porém, a questão da análise didática interessa especialmente aos analistas que se engajam na delicada tarefa de modernizar a estrutura das sociedades a que pertencem.
2) Redefinir a própria função de psicanalista. É preciso recolocar a questão segundo o “lugar” que o psicanalista ocupa. Isto é, sua função não se remete necessariamente à sua profissão, mas sim a uma construção especialmente requintada que pretende se diferenciar de qualquer aproximação “terapêutica”. Seu exercício deve remeter-se a uma ortodoxia que pode ser facilmente “traída” no uso cotidiano. Por outro lado, a definição do ato analítico pode ser vaga o suficiente para permitir um “uso” extremamente personalizado da situação transferencial e da interpretação. É o estilo que se impõe como regra fundamental. Qualquer psicanalista que não “entenda” essa função corre o risco de não passar de um prosaico terapeuta tentando “ajudar” seu paciente. Agora já se fala, numa espécie de inversão, em psicanalistas não psicanalíticos.
Curiosamente, mais do que antes, quando ainda prevaleciam critérios medicalistas de profissionalização, a proposta lacaniana vai tornar ainda mais imprecisas as fronteiras entre o consumo terapêutico da psicanálise e o acesso à categoria de psicanalista. Os analisandos – e aí não me refiro apenas aos pacientes-psicólogos – buscam cada vez mais “entender” a psicanálise, apossar-se do código que rege sua modalidade peculiar de intervenção. Circulando nos simpósios e cursos de psicanálise aberto a leigos, procuram uma afinidade maior com a sua análise e, mesmo com seus analistas. Além do mais, considerando-se que, na visão lacaniana, dominar a psicanálise não significa necessariamente ser terapeuta, mas sim dominar o mais sofisticado discurso sobre a constituição do sujeito, existe a opção de formar diletantes em psicanálise – lingüistas, críticos literários, matemáticos, etc. – que podem ou não trabalhar na clínica.
O movimento lacaniano no Rio de Janeiro, portanto, com sua proposta de uma psicanálise “subversiva” que promete um retorno a sua pureza original, com seu apelo a romper com o modelo médico e com o chamado “discurso universitário” – propostas bastante discutíveis mas que transcendem o escopo deste trabalho – torna-se muito atraente para os mais diferentes grupos: psicólogos psicanalíticos que ainda não conseguem se definir como psicanalistas, um número crescente de jovens já familiarizados com a psicanálise a partir mesmo de suas experiências como pacientes, e psicanalistas engajados na modernização do campo psicanalítico que querem prescrever um outro tipo de controle sobre seu status teórico, político e social. Neste grupo se incluem desde os novos freudianos, muito ligados às sociedades da IPA, até os lacanianos mais radicais que fundam suas próprias instituições. Neste ponto, convém lembrar que o “lacanismo” como movimento é heterogêneo e não faltam as infindáveis discussões sobre as diferentes leituras do mestre. Entretanto, todos falam em nome de um “retorno a Freud e é exatamente essa necessidade criada através de Lacan que aponta para outra necessidade ainda mais crítica, se supomos que a questão da ortodoxia é prioritária: a de recuperar uma delimitação do campo psicanalítico que assegure à psicanálise o lugar especial que teria perdido com sua ampliação e diversificação – entendidas como desvios – que poderiam ameaçá-la de descaracterizar-se a todo momento.

Algumas Conclusões:

Denominei psicologia psicanalítica o complexo de relações que se dão entre psicanalistas e psicólogos clínicos e apontei para as diferentes associações entre eles na década de 70 como centros privilegiados de produção dessa psicologia psicanalítica. Estes centros contavam, especialmente, com os psicanalistas mais progressistas da SPRJ – não foi por coincidência que a SPRJ se desestabilizou de modo mais agudo no início dos anos 80 – e com os profissionais argentinos. Especulei sobre os efeitos disto na ampliação e diversificação do campo psicanalítico em seus dois aspectos teórico-técnico e político-profissional. E, finalmente, propus entender o advento do movimento lacaniano como uma tentativa de solução para o “fantasma” desestabilizador da psicologia psicanalítica. Entretanto, espero ter deixado claro que a proposta lacaniana não impede esse processo. Ao contrário, o discurso de inspiração lacaniana se difunde o suficiente para ser absorvido pela psicologia psicanalítica que, tomando emprestada a expressão de Castel, seria uma espécie de efeito-sombra da psicanálise, algo que a acompanha e é produzido por ela como uma virtualidade e que é dotado de uma superfície própria que se expande ou se retrai, independentemente do corpo que a produz.
Considerando-se que essa discussão é muito atual e, portanto, difícil de ser pensada com clareza, arriscaria algumas suposições sobre os rumos do movimento psicanalítico, destacando o aspecto político-profissional – canais de formação e legitimação profissional -, e sobre a situação dos psicólogos clínicos de um modo geral.
Sobre o primeiro ponto, parece que as sociedades oficiais (IPA), que permanecem sustentadas por seu prestígio político e social, deverão repartir, ainda que a contragosto, a triagem de seus candidatos com o sofisticado aparato do movimento lacaniano que exige fidelidade aos preceitos do mestre e visa congregar discípulos abertamente dispostos a reproduzir seu discurso. Em troca, pode adquirir o status não só de “verdadeiros” psicanalistas, como também de intelectuais – algo muito atraente, por exemplo para os psicólogos que desejam se tornar psicanalistas mas que tiveram uma formação que releva muito mais a intuição, o vivido, enfim, uma postura anti-intelectualista que beira a ingenuidade. Para “entender” Lacan é necessário o recurso à filosofia, lingüística, antropologia estrutural e, mesmo à matemática. Curiosamente, os bons psicanalistas já podem ser identificados aos bons teóricos.
Sobre o segundo ponto, temos indicadores de que o contingente de psicólogos psicanalíticos permanece grande o suficiente para a procura de formação exceder a oferta mesmo com a opção dos novos grupos – alguns com fraca legitimidade servindo de trampolim para outros. A idéia de uma sociedade com vagas ociosas em seu curso de formação, como já aconteceu nos E.U.A., ainda é impensável no Rio de Janeiro.
Convém lembrar, entretanto, que novas tendências estão surgindo através das chamadas “terapias alternativas” que se mostram bastante atraentes para os psicólogos clínicos e estudantes de psicologia que, por diversas razões, se encontrariam à margem do complexo político-profissional da psicanálise. Entre eles se destacam a bioenergética a orgonomia – baseadas numa dissidência da psicanálise a partir de W. Reich -, os grupos rogerianos da psicologia humanista, a psicologia existencial ainda muito pouco insipiente no trabalho clínico, a Gestalt-terapia americana criada por um ex-psicanalista (Fritz Perls), e outras. Tais terapias, entretanto, não estão suficientemente instituídas a ponto de poderem sustentar a psicologia clínica: não têm espaço suficiente na formação universitária, tampouco possuem canais de profissionalização que possam fornecer uma formação sistemática fora da universidade e aumentar a oferta dessas especialidades. Desse modo, apresentam-se como alternativas precárias para substituir a psicanálise como modelo.
Segundo a análise de Castel (1981), haveria um outro aspecto a ser considerado: se, por um lado essas terapias são alternativas à psicanálise, por outro, mantém com ela uma peculiar relação de filiação – em alguns casos bastante óbvia – que lhes confere o título de pós-psicanalíticas não apenas numa sucessão temporal, mas principalmente, numa herança não reconhecida por ambas as partes. Os psicanalistas torcem o nariz e os alternativos fazem questão de não ser confundidos. E essa filiação Castel denominou de bastarda.
Essas novas terapias pretendem ser mais democráticas quanto à formação profissional que deveria ser mais rápida e mais barata, são teoricamente menos sofisticadas e, mesmo, pretendem apresentar efeitos mais imediatos. Mas, sociologicamente falando, não existiriam sem a psicanálise. Essa curiosa visão de Castel nos chama a atenção porque no exemplo do Rio de Janeiro – e acreditamos que este não seja mera exceção – a paternidade da psicanálise é indiscutível e, ainda, sua hegemonia permanece sobre a psicologia clínica produzindo mais psicólogos psicanalíticos que disputam os consultórios e cooperativas clínicas, e tentam ocupar as instituições públicas. Para avançar em propostas alternativas, torna-se fundamental reconhecer o quê que é alternativo e o quê que é herança.



Opiniones sobre este texto:




Condiciones de uso de los contenidos según licencia Creative Commons

Director: Arturo Blanco desde Marzo de 2000.
Antroposmoderno.com © Copyright 2000-2017. Política de uso de Antroposmoderno